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As Festas da nossa alegria

1. Não me recordo de o verão apresentar estas mutações atmosféricas. Julho era um mês de dias quentes e solarengos, escolhido de preferência para gozar férias e agosto tinha associado o ditado popular: “Primeiro de agosto, primeiro de inverno”.
O verão deste ano tem sido atípico. Se não chove num dia, chove no outro e toda a gente se interroga se as tão previstas alterações climáticas não chegaram mais cedo.
O certo é que, por estes lados da Ponta da Ilha do Pico, as culturas da época estão pujantes e estima-se, de boa colheita, a tradicional produção vinícola.
É por estas altura que surgem à venda os primeiros figos, tocados por azeite e os primeiros cachos de uva de cheiro, presenteados pelos devotos ao Bom Jesus de São Mateus e da Calheta de Nesquim.
As tradicionais romarias ao Santuário picoense já se iniciaram, mas os peregrinos, com a facilidade de transporte, regressam a casa depois de cumprida a promessa e só lá voltam nos dias da festa a 5 e 6 de agosto.
Antes, porém, realiza-se o Festival “Cais Agosto”, em São Roque.
A festa conheceu uma afluência maior, quando havia o transporte marítimo de passageiros entre São Miguel e o restante arquipélago. Isso permitia que centenas de jovens, a preços acessíveis, se deslocassem ao Pico com os seus meios de transporte e seguissem depois para a “Semana do Mar” na Horta. Mas esse foi um passado de intercâmbio, convivência e unidade regionais que os governantes de agora não entendem, nem pretendem, pois do mar do arquipélago não fazem caminho…
Na abertura do “Cais Agosto”, dez bandas de música locais reuniram-se junto aos Paços do Concelho de São Roque e interpretaram, em conjunto, o Hino da Autonomia e uma peça do compositor picoense Helder Bettencourt, assinalando o cinquentenário da Autonomia.
Foi um evento simbólico de afirmação e aceitação do sistema político regional, presenciado por largas centenas de pessoas.
Nunca é demais relevar a importância social e cultural das Filarmónicas junto das populações rurais.
Esse papel tem vindo a ser entendido pelos municípios que nos seus quadros integram pessoa qualificada que dá apoio e formação aos seus executantes.
Fundamental tem sido também a disciplina de educação musical e a correspondente componente musical letiva disponibilizada pelas Escolas na orientação vocacional dos alunos. Alguns frequentam ou frequentaram escolas profissionais de música no continente e regressam à sua terra para fazerem vida dessa atividade cultural, tão acarinhada e entranhada na cultura popular.

2. Interrogo-me, muitas vezes, por que razão se sentem esquecidas as gentes destas “ilhas de baixo”. Será por mera vontade de falar mal, ou há motivos suficientes para isso?
Não tenho dados que me permitam aceitar ou recusar essa posição. No entanto, nesta e noutras situações a “vox populi” perceciona a credibilidade das instituições e de seus representantes. Daí ser um dado adquirido que “o poder local está mais próximo das populações” e é a ele que se recorre em situações adversas.
Há dias, um empresário destas bandas confessou-me que aguarda há anos que um subsídio governamental criado na pandemia para fazer face ao decréscimo de vendas, ainda não tinha sido pago. O homem telefona, telefona e da secretaria respetiva respondem que “não há dinheiro”, mas quando houver, será liquidado. São 10 mil euros que fazem tanta falta à sua empresa, como a outros pequenos empresários que estão nas mesmas circunstâncias.
Quem fala nisto? Ninguém. Quem se interessa por despoletar estes prometidos e muito atrasados pagamentos? Ninguém. Estes pequenos investidores não têm quem os defenda. As suas reclamações perdem-se no silêncio obediente do funcionário administrativo a quem incumbe dar a resposta que competiria ao governante.
Outros parceiros sociais têm porta franqueada e o telefone direto da Presidência do Governo e contactos com a posição. Esses reclamam milhões por isto e mais aquilo e logo são secundados por governantes e deputados, com defesa intransigente…
Mas não se ficam por aqui os atrasos. No setor desportivo um clube local aguarda há anos por um prometido subsídio de 500€ para a aquisição de um computador. Quinhentos euros – um pequeno apoio, eventualmente integrado num programa com financiamento europeu- e não há dinheiro para aliviar a despesa de uma pequena instituição, gerida pela boa-vontade de dirigentes preocupados com a educação e boa ocupação dos tempos livres de crianças e jovens.
É certamente por isto que as populações das ”ilhas de baixo” se sentem esquecidas e mal-amadas pelos senhores dos poderes político, económico e pelos meios de comunicação social públicos.
As suas vidas pouco ou nada contam no contexto regional: as percentagens na produção de bens de consumo, na formação da riqueza, no PIB, na economia, na atividade financeira são baixas, mas destacam-se nos gastos públicos, nos custos de construção e manutenção das infraestruturas de transportes e comunicações, nos deficientes serviços de apoio aos cuidados de saúde primários, nos setores da educação e da proteção social, etc, etc.
Por aqui, é mais importante a informação sobre o tempo, a festa da padroeira, o “Cais Agosto”, a Festa de Sta Maria Madalena, a Semana dos Baleeiros e a Semana do Mar do que a informação governamental e político-partidária.
É nesses convívios que se encontra a alegria de viver, a resiliência para enfrentar o insulamento a que nos sentimos votados.
É nessas Festas que a Vida se renova e esperamos melhores dias.
José Gabriel Ávila *
* Jornalista c.p. 239 A
http://escritemdia.blogspot.com

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