A Atlânticoline encerrou 2025 com um lucro de 1,74 milhões de euros, mais do dobro do resultado alcançado no ano anterior, impulsionada pela actualização das tarifas e pelo reforço das receitas do serviço público. Apesar da melhoria financeira, a empresa tinha ainda 6,6 milhões de euros por receber da Direcção Regional da Mobilidade.
Com dois navios construídos em 1986 e 1987, o “Cruzeiro das Ilhas” e o “Cruzeiro do Canal”, a Atlânticoline
considera “estratégica e inadiável” a renovação da frota que mantém-se como um dos principais desafios da empresa
A Atlânticoline mais do que duplicou o lucro em 2025, para 1,74 milhões de euros, embora tenha terminado o exercício com 6,6 milhões por receber da Direcção Regional da Mobilidade.
A transportadora marítima, integralmente detida pela Região Autónoma dos Açores, fechou 2025 com os melhores indicadores financeiros dos últimos anos, apoiada pelo aumento dos tarifários, pela nova tarifa aplicada aos passageiros não residentes e pelo reforço das receitas associadas às Obrigações de Serviço Público. Mas, por detrás do crescimento do volume de negócios e do lucro, as contas revelam uma operação ainda dependente dos pagamentos públicos, dificuldades na contratação de tripulações, encargos elevados com a manutenção da frota e atrasos que obrigaram a empresa a recorrer a financiamento bancário.
O resultado líquido atingiu 1.735.707 euros, mais 932.920 euros do que os 802.787 euros registados em 2024. O crescimento foi de 116,2%, o que significa que o lucro mais do que duplicou num ano.
O volume de negócios aumentou 18,2%, passando de 10.046.946 para 11.871.152 euros. O resultado antes de juros, impostos, depreciações e amortizações (EBITDA) subiu 32,5%, para 3.320.095 euros, enquanto o resultado operacional praticamente duplicou, ao crescer 95,8%, de 954.601 para 1.868.799 euros.
Mesmo depois de contabilizadas depreciações e amortizações de 1.451.296 euros, sobretudo relacionadas com os navios, a Atlânticoline apresentou um resultado antes de imposto de 1.739.937 euros. Os gastos financeiros recuaram de 149.484 para 128.862 euros.
O imposto corrente do exercício foi de 4.230 euros. O anexo fiscal discrimina 198 euros correspondentes ao regime especial aplicável ao transporte marítimo, designado por ‘Tonnage Tax’, e 4.032 euros de tributações autónomas. Depois de deduzidos 219 euros de pagamentos por conta, o Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Colectivas (IRC) a pagar ficou em 4.011 euros.
O crescimento financeiro ocorreu num ano em que a procura de passageiros recuou ligeiramente. A empresa transportou 551.574 passageiros, menos 4.297 do que em 2024, uma redução de 0,8%. Em sentido contrário, o transporte de viaturas cresceu 4,2%, de 32.858 para 34.243, traduzindo-se em mais 1.385 veículos transportados.
A aparente contradição entre a diminuição do número de passageiros e o aumento das receitas é explicada, em grande parte, pela revisão dos preços. O relatório atribui expressamente o crescimento das prestações de serviços à actualização dos tarifários e à introdução de uma tarifa diferenciada para os passageiros não residentes, que representaram 43% do total transportado em 2025.
Mais de metade das receitas
ligada ao serviço público
As Obrigações de Serviço Público (OSP) continuaram a ter um peso determinante nas contas da empresa. A receita reconhecida ao abrigo do contrato de serviço público aumentou de seis milhões para 6.599.995 euros, mais 599.995 euros, ou 10%, do que no ano anterior.
Este valor representou 55,6% do volume de negócios da Atlânticoline. Significa que mais de metade das vendas e prestações de serviços contabilizadas em 2025 resultou do enquadramento contratual assegurado pela Região para financiar o transporte marítimo de passageiros e viaturas entre as ilhas.
As restantes prestações de serviços cresceram 30,2%, de 4.046.922 para 5.271.090 euros. O aumento foi impulsionado pela actualização das tarifas e pela maior receita obtida com o transporte de passageiros e viaturas.
A receita associada aos passageiros atingiu 10.698.896 euros, aumentando 19% face aos 8.967.901 euros registados em 2024. O transporte de viaturas gerou 815.355 euros, mais 10%, enquanto os fretamentos de navios recuaram 28%, para 45.235 euros. Os bares a bordo faturaram 90.303 euros, mais 9%.
Nos canais comerciais, as vendas somaram 4.968.801 euros, um crescimento de 33,4% relativamente aos 3.724.274 euros do ano anterior. Este valor não inclui todas as receitas da empresa, designadamente as Obrigações de Serviço Público, mas permite observar a evolução das diferentes formas de compra dos bilhetes.
As lojas, bilheteiras e o centro de contacto mantiveram-se como principal canal, com uma receita de 2.655.921 euros, mais 20,2% do que em 2024. Ainda assim, o seu peso nas vendas baixou de 59% para 54%, devido ao crescimento mais acelerado dos canais digitais e da rede de agentes.
As vendas ‘online’ aumentaram 55,5%, de 813.846 para 1.265.279 euros, passando a representar 26% do total. A receita obtida através dos agentes cresceu 65,7%, para 725.234 euros. No final do exercício, a Atlânticoline tinha 109 parceiros comerciais, responsáveis por 15% das vendas. A Rede Integrada de Apoio ao Cidadão (RIAC) gerou 143.181 euros, equivalentes a 3% do total.
O novo Sistema de Reservas, Vendas e Embarque (SRVE) entrou em funcionamento no final de 2025, substituindo uma plataforma que a empresa considerava limitada do ponto de vista operacional e da experiência dos passageiros. A consolidação do novo sistema, a integração com uma aplicação móvel e o reforço das vendas digitais foram definidos como prioridades para 2026.
Custos aumentam
mais de 800 mil euros
O crescimento das receitas foi acompanhado por uma subida significativa dos custos da operação. Os fornecimentos e serviços externos atingiram 5.324.851 euros, mais 812.034 euros, ou 18%, do que no ano anterior.
Os serviços especializados foram a rubrica que mais aumentou, com um acréscimo de 972.646 euros, para 2.334.489 euros. A empresa atribui esta evolução sobretudo à contratação de tripulações externas para as linhas sazonais, que representou um custo adicional de 518.211 euros, e à implementação do novo sistema informático de reservas e vendas, responsável por mais 229.553 euros.
A conservação e reparação aumentaram 68%, para 434.091 euros, enquanto as comissões comerciais cresceram de 29.246 para 153.258 euros, uma subida de 424% relacionada com o aumento das vendas através de agentes.
Os combustíveis continuaram a ser um dos principais encargos da empresa, com um custo de 2.069.797 euros, praticamente idêntico aos 2.059.821 euros de 2024. Os seguros diminuíram 16%, para 229.701 euros, e os encargos directamente associados à operação dos navios recuaram, beneficiando de uma redução pontual da Tarifa de Uso de Porto aplicada aos navios de passageiros de tráfego local, com excepção do Porto da Horta.
As intervenções efectuadas nos cinco navios da frota ascenderam a 1.915.439 euros. Deste montante, 337.644 euros foram reconhecidos como despesa de manutenção e 1.577.795 euros como investimento, por contribuírem para prolongar a vida útil das embarcações.
O “Gilberto Mariano” concentrou 1.786.753 euros dos trabalhos realizados, devido à docagem obrigatória e às intervenções preventivas e corretivas efectuadas entre Outubro e Dezembro. O “Cruzeiro do Canal” representou 66.722 euros, o “Mestre Jaime Feijó” 37.127 euros, o “Ariel” 12.896 euros e o “Cruzeiro das Ilhas” 11.941 euros.
Os gastos com o pessoal aumentaram 5,8%, para 3.853.917 euros. A empresa atribui a subida à actualização do salário mínimo regional, à revisão da isenção de horário de trabalho e à renovação do fardamento. No final de Dezembro, a Atlânticoline empregava 117 trabalhadores, mais cinco do que um ano antes. Destes, 105 pertenciam ao quadro e 12 tinham contratos a prazo.
A escassez de marítimos qualificados voltou a obrigar ao recurso a serviços externos. Para assegurar as linhas Laranja, Branca e Lilás, a Atlânticoline contratou um mestre, um maquinista prático de 1.ª classe, um maquinista prático de 2.ª classe, seis ajudantes de maquinista, 15 marinheiros e cinco assistentes de bordo. O relatório assinala a inexistência de candidatos no mercado local para algumas funções, nomeadamente mestre e maquinista prático de 1.ª classe.
Mais de metade da dívida
da Mobilidade tinha mais
de seis meses
Apesar da melhoria dos resultados, o balanço mostra que a Atlânticoline terminou 2025 com 7.426.862 euros por receber de clientes. Deste total, 6.600.005 euros correspondiam a verbas a receber da Região Autónoma dos Açores, através da Direcção Regional da Mobilidade.
A análise da antiguidade desta dívida revela que 3.431.533 euros estavam por receber há um período situado entre 181 e 360 dias e outros 305.532 euros tinham entre 361 e 530 dias. No conjunto, 3.737.065 euros, equivalentes a 56,6% da dívida da Direcção Regional da Mobilidade, tinham mais de 180 dias.
O relatório regista ainda 753.982 euros por receber das Pousadas da Juventude dos Açores, com uma antiguidade superior a 721 dias.
A própria administração identifica as quantias a receber de entidades públicas, algumas com “antiguidade razoável”, como um dos factores susceptíveis de afectar o equilíbrio financeiro da empresa.
O atraso no pagamento das Obrigações de Serviço Público obrigou a Atlânticoline a utilizar contas correntes caucionadas. Os juros destes financiamentos atingiram 99.338 euros em 2025. A este valor somaram-se 29.524 euros de comissões bancárias, elevando os gastos financeiros para 128.862 euros.
No final do exercício, os financiamentos obtidos totalizavam 2.390.560 euros. O anexo identifica cerca de 2,279 milhões de euros utilizados em contas correntes caucionadas e 111.111 euros relativos a um empréstimo bancário.
Em 2024, o endividamento financeiro ascendia a 3.903.344 euros, incluindo a componente corrente e não corrente. A redução entre os dois exercícios foi de 1.512.784 euros, ou 38,8%.
A Atlânticoline dispunha de um limite de 4,5 milhões de euros em contas correntes caucionadas, dos quais 2.220.552 euros não estavam utilizados no final do exercício. Estes financiamentos venciam juros indexados à Euribor a três e seis meses, acrescidos de margens entre 0,90% e 1,25%.
A situação de tesouraria melhorou nos últimos dias do ano. A conta de caixa e depósitos bancários passou de 58.789 euros, no final de 2024, para 1.668.433 euros em 2025. O relatório explica a diferença com o pagamento, em 30 de Dezembro, de várias facturas relativas às Obrigações de Serviço Público. Mesmo depois dessas liquidações, a dívida da Direcção Regional da Mobilidade permanecia nos 6,6 milhões de euros no encerramento das contas.
O prazo médio de recebimentos melhorou de 317 para 225 dias, uma redução de 92 dias. Em contrapartida, o prazo médio de pagamentos da Atlânticoline aumentou de 15 para 83 dias.
Esta evolução também se reflecte no balanço. A dívida a fornecedores correntes passou de 171.038 para 618.636 euros, enquanto os valores devidos a fornecedores de investimento aumentaram de 16.356 para 620.258 euros, devido sobretudo aos trabalhos de docagem realizados no último trimestre.
Passivo diminui e capitais próprios
superam 20 milhões
O activo da Atlânticoline aumentou 2,6%, para 25.513.067 euros. O património líquido cresceu 5,4%, atingindo 20.088.098 euros, enquanto o passivo diminuiu 6,6%, de 5.809.016 para 5.424.969 euros.
O passivo corrente, correspondente às responsabilidades exigíveis a curto prazo, fixou-se em 4.749.969 euros. O passivo não corrente ficou nos 675 mil euros, integralmente associado a uma provisão constituída para uma eventual indemnização à Seajets.
A provisão remonta a 2020, quando a Atlânticoline cancelou unilateralmente o contrato de fretamento de dois navios destinados à operação sazonal da Linha Amarela, devido às medidas adoptadas durante a pandemia. A administração admite que a indemnização possa atingir 675 mil euros caso seja alcançado um acordo amigável, que ainda não tinha sido concretizado à data das contas.
O rácio de autonomia financeira, calculado através da relação entre o património líquido e o activo, aproximou-se de 79%, contra 77% no ano anterior. O endividamento, medido pelo peso do passivo no activo, baixou de 23% para 21%. A liquidez geral melhorou de 1,85 para 2,07, o que significa que o activo corrente era superior ao passivo exigível a curto prazo.
Os capitais próprios beneficiaram do lucro de 2024 e dos resultados alcançados em 2025, embora a rubrica de resultados transitados ainda apresentasse um saldo negativo de 705.189 euros antes da aplicação do lucro do último exercício.
O conselho de administração propôs à assembleia-geral que 173.570,65 euros, correspondentes a 10% do lucro, sejam destinados à reserva legal e que os restantes 1.562.135,89 euros sejam transferidos para resultados transitados. Os dois valores totalizam exactamente o resultado líquido de 1.735.706,54 euros apurado nas contas com precisão aos cêntimos.
Menos passageiros no Canal,
no Grupo Central e no Ocidental
A redução global de 0,8% no número de passageiros não foi igual em todas as ligações. O Canal Horta–Madalena, que concentra a maior parte da operação, transportou 431.672 passageiros, menos 2.764 do que em 2024. A descida foi de 0,6%.
Em sentido contrário, o transporte de viaturas no Canal aumentou 4%, para 23.438 veículos. A taxa de ocupação média foi de 35,6% nos passageiros e de 65,5% nas viaturas.
Nas restantes rotas do Triângulo foram transportados 103.467 passageiros, mais 255 do que no ano anterior, uma subida de 0,2%. O movimento de viaturas cresceu 7,3%, de 8.414 para 9.026.
As ligações sazonais entre o Triângulo, a Terceira e a Graciosa registaram a maior quebra. O número de passageiros diminuiu 11,2%, de 13.766 para 12.219, enquanto as viaturas recuaram 6,8%, de 1.909 para 1.779.
Na Linha Rosa, entre o Corvo e as Flores, a embarcação “Ariel” transportou 4.216 passageiros, menos 241 do que em 2024, uma redução de 5,4%. A taxa de ocupação indicada para esta operação foi de 63,9%.
A Atlânticoline realizou 2.637 viagens e navegou 60.909 milhas náuticas durante o ano. A operação foi condicionada pelas condições meteorológicas, por avarias pontuais, por dificuldades no Porto de São Roque do Pico e pela necessidade de recorrer a tripulações externas nas linhas sazonais.
No domínio da segurança laboral, foram registados 16 acidentes de trabalho, dos quais 15 considerados leves e um classificado como grave, envolvendo uma lesão séria e com potencial incapacidade significativa.
A empresa anunciou a intenção de reforçar os simulacros, as inspecções aos equipamentos, as campanhas de sensibilização e a formação em segurança e saúde no trabalho.
Renovação da frota continua
sem financiamento definido
A frota própria é constituída por cinco embarcações, incluindo dois navios com quase quatro décadas. O “Cruzeiro das Ilhas” foi construído em 1986 e o “Cruzeiro do Canal” em 1987. A substituição de ambos é considerada pela administração uma prioridade “estratégica e inadiável”.
O relatório admite que a urgência da renovação aumentou após o encerramento do procedimento destinado à construção de dois navios eléctricos, previsto no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). As contas não identificam uma nova fonte de financiamento nem um calendário para o lançamento de outro concurso.
A Atlânticoline mantinha no final de 2025 uma caução de 500 mil euros, executada ao adjudicatário do concurso para os dois navios eléctricos depois de o conselho de administração ter declarado a caducidade do procedimento em 28 de Outubro de 2024.
Para 2026, a empresa limita-se a indicar que continuará a acompanhar oportunidades de financiamento nacionais e europeias. A falta de marítimos qualificados, os custos dos serviços externos e a necessidade de substituir os navios mais antigos são apresentados como os principais desafios estruturais para os próximos anos.
A Atlânticoline entra, assim, num novo ciclo com resultados financeiros substancialmente melhores, menor endividamento e mais vendas digitais, mas permanece exposta aos atrasos das entidades públicas, ao custo do financiamento de tesouraria e ao envelhecimento de parte da frota. O lucro de 1,74 milhões de euros reforça os capitais próprios, mas não elimina a necessidade de receber atempadamente as verbas contratualizadas nem resolve o investimento necessário para substituir os navios mais antigos.
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