A economia digital assenta hoje em 3 pilares físicosfundamentais para o funcionamento normal das sociedades contemporâneas: os cabos submarinos de fibra ótica, os centros de dados e as fontes de energia. Estes 3 elementos, que são também fatores indispensáveis para a operacionalidade do conjunto, formam uma cadeia de mútua dependência que condiciona 3 áreas vitais: a soberania tecnológica, a segurança económica e a capacidade de cada região participar e usufruir plenamente da revolução digital. A sua importância cresce à medida que o volume de dados dispara, que a inteligência artificial (IA) exige latências mínimas – quase impensáveis há poucos anos – e que a geopolítica muda e se focaliza em áreas como o controlo das infraestruturas ocultas que permitem sustentar a conectividade global. No caso dos cabos submarinos de fibraótica, a importância reside desde logo no volume de tráfego internacional de dados que neles circula e que atinge mais de95% do total. É um valor tanto mais de salientar, quanto se trata de estruturas de engenharia de elevada especialização, com uma dimensão da ordem de muitos milhares de quilómetros, atravessando os fundos oceânicos e transportando informação a velocidades próximas da velocidade da luz. Embora bastante mais discretos e menos comentado, são tão ou mais estratégicos que os oleodutos ou gasodutos, porque quem controla os cabos submarinos, controla os fluxos de informação. Os cabos da nova geração, a que pertencem o Equiano, o GraceHopper e o 2Africa, operam já com capacidades entre os 150 e 300 terabits por segundo, resultantes do uso de tecnologias tipo sdm-spacedivisonmultiplexing e de fibras multinucleadas (multicore, em inglês). A Europa, os Estados Unidos e a Ásia, competem ativamente peia instalação de rotas destas verdadeiras artérias da economia digital, enquanto empresas multinacionais privadas -como a Google, a Meta e a Amazon-assumem papel dominante, ao financiar e operar cabos que noutros tempos, eram responsabilidade de serviços públicos estatais ou de operadores históricos. Tal situação permite evidenciar uma vulnerabilidade física real, que pode dever-se a roturas acidentais, a sabotagem ou espionagem e monitorização clandestina, tudo riscos permanentes. Por isso (e não só por isso), a NATO e a União Europeia classificaram os cabos submarinos como “infraestruturas críticas”, objeto de planos de vigilância marítima e sensores específicos. Para regiões insulares como os Açores, a resiliência do sistema depende da existência de múltiplas ligações e de rotas que não dependam exclusivamente de hubs continentais.
Mas se os cabos submarinos são as artérias da economia global, os centros de dados surgem como os fornecedores do fluxo que canalizam. São instalações onde se concentram servidores, sistemas de armazenamento e redes de processamento de volumes massivos de informação. A IA, a computação em nuvem e os serviços digitais, todos em expansão explosiva, transformaram os datacentros em verdadeiras centrais da economia deste século. Os datacentros mais modernos podem exceder 100 MW/megawatts de potência, o equivalente ao consumo de energia de uma cidade de 50.000 habitantes. Há 3 fatores essenciais para a sua localização, a saber: a proximidade a cabos submarinos e grandes zonas urbanas; fontes de eletricidade disponíveis e estáveis; clima preferencialmente frio, para reduzir custos com arrefecimento. Porém, o maior fator critico é o enorme consumo de energia, o que pressiona redes elétricas de zonas saturadas e leva à tendência para descentralizar, criando datacentros modulares em zonas com energia renovável abundante e estável, o que está longe de ser possível sem recurso aos novos minireatores nucleares. Seja como for, a energia é sempre o elo que une os centros de dados com os cabos submarinos, porque sem eletricidade abundante e a custo atrativo, nunca haverá computação de escala razoável.
E a orquestra só agora iniciou a sinfonia, porque já foi confirmada a amarração a Sines do Nuvem, o cabo submarino transatlântico da Google que liga os EUA à Europa, com amarrações intermédias nas Bermudas e nos Açores. O sistema Nuvem será seguido do projeto Sol, também da Google, que irá ligar a costa americana da Florida à cidade basca de Santander, com amarração aqui na ilha açoriana de São Miguel. Ao todo, foi anunciado um total de 20 amarrações de cabos submarinos na costa portuguesa, conforme previsto até ao fim de 2026. E na configuração deste mapa tecnológico, Portugal será transformado num importante hub da área digital euro-atlântica. Mais: os Açores, em particular a ilha de são Miguel, já têm – e terão ainda mais num futuro próximo – um papel fundamental nesta ligação transatlântica, onde não faltarão oportunidades para se potenciar desenvolvimento. A computação cloud, a inteligência artificial e a transfiguração que a computação quântica trará para a internet do futuro, obrigam a que estejamos preparados para o enorme choque tecnológico que se avizinha.
Desde já, convém estarmos preparados a nível regional como nacional, para as necessidades gigantescas em termos de energia, especialmente de eletricidade. Porque a conexão via cabos submarinos aos vorazes datacentros assim o exige, ou perderemos o promissor comboio do futuro.
Vasco Garcia *