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Existem, afinal, emoções negativas? Entre o estigma e a ciência

Vivemos numa sociedade que nos ensina a sorrir, mas raramente nos ensina a sentir. Desde cedo aprendemos que algumas emoções são bem-vindas — como a alegria ou o entusiasmo — enquanto outras, como o medo, a tristeza ou a ansiedade, devem ser escondidas, controladas ou, idealmente, eliminadas. Contudo, a ciência desafia esta visão simplista: as emoções não se dividem em positivas e negativas. Existem, sim, emoções agradáveis e desagradáveis, todas elas adaptativas e essenciais à sobrevivência humana.
O medo é, provavelmente, uma das emoções mais injustamente incompreendidas. É frequentemente associado à cobardia, à insegurança ou à incapacidade de enfrentar os desafios da vida. Expressões como “não tenhas medo”, “isso é falta de coragem” ou “tens de ser mais forte” continuam a fazer parte do discurso quotidiano, transmitindo a ideia de que sentir medo é algo que deve ser eliminado.
Na realidade, o medo é um sofisticado mecanismo biológico de proteção. Ao longo da evolução, permitiu aos nossos antepassados identificar perigos e responder rapidamente através das conhecidas reações de luta, fuga ou imobilização. Sem medo, a espécie humana dificilmente teria sobrevivido.
Também a ansiedade, tantas vezes confundida com fraqueza, desempenha uma função semelhante. Enquanto o medo surge perante uma ameaça presente e concreta, a ansiedade prepara-nos para possíveis desafios futuros, permitindo antecipar riscos, planear estratégias e aumentar o estado de alerta. O problema não reside na existência destas emoções, mas na sua intensidade, frequência ou duração quando deixam de cumprir uma função adaptativa.
Apesar dos avanços científicos, persistem crenças profundamente enraizadas que associam a vulnerabilidade emocional à falta de força psicológica. Muitos adultos cresceram a ouvir frases como “os homens não choram”, “engole as lágrimas”, “não sejas fraco” ou “isso passa”. Estas mensagens, aparentemente inofensivas, ensinam desde cedo que algumas emoções devem ser reprimidas.
O resultado é uma sociedade onde inúmeras pessoas aprendem a esconder aquilo que sentem, desenvolvendo vergonha perante emoções perfeitamente humanas. Paradoxalmente, quanto mais tentamos afastar uma emoção, maior tende a ser a sua intensidade. Uma verdadeira educação emocional não ensina as pessoas a deixarem de sentir medo. Ensina-as a compreender o que essa emoção comunica, a reconhecer os sinais do corpo e a responder de forma flexível e ajustada às circunstâncias.
Quando uma criança ou um adulto afirma “tenho medo”, a resposta não deveria ser “não tenhas”. Deveria ser: “Percebo que estejas com medo. Vamos compreender juntos o que o teu medo te está a querer dizer.” Validar uma emoção não significa reforçá-la. Significa reconhecer a sua existência para que possa ser regulada de forma saudável.
Continuamos a necessitar de desmistificar a ideia de que existem emoções aceitáveis e emoções proibidas. Todas as emoções possuem uma função. A alegria aproxima-nos dos outros; a tristeza favorece a reflexão e a procura de apoio; a raiva sinaliza a violação de limites; e o medo protege-nos do perigo.
A saúde mental não consiste em sentir apenas emoções agradáveis. Consiste em desenvolver a capacidade de reconhecer, compreender, aceitar e regular todo o espectro da experiência emocional.
Talvez o verdadeiro sinal de força não seja nunca sentir medo, mas sermos capazes de o acolher, escutá-lo e seguir em frente, sem que ele dite o rumo da nossa vida. Afinal, não são as emoções que nos tornam vulneráveis; é a incapacidade de as compreender que frequentemente nos fragiliza.
Fique bem, pela sua saúde e a de todos os Açorianos!
Um conselho da Delegação Regional dos Açores da Ordem dos Psicólogos Portugueses.

Henriqueta Machado*
* Psicóloga

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