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A leal conselheira

A vida, com o seu sentido de humor retorcido, levou-nos Fernando Menezes no mesmo ano em que os Açores celebram cinco décadas de Autonomia, em altura de refletir sobre o que foi conquistado e sobre o que pode e deve ser feito nos próximos cinquenta. Para o efeito, nascem e crescem think-tanks da liberal economia de direita à mais ensimesmada burguesia de esquerda, enquanto outros continuam a procurar brechas na armadura do Estatuto Político-Administrativo, preparando o dia de recuperar o conceito de Ilhas Adjacentes, embora digam o seu contrário.
Fernando Menezes faleceu, deixando um legado de meter inveja a muito boa gente, e um trabalho de meter os cabelos em pé a muito má gente. Trabalhou uma parte considerável da sua vida na política regional. Foi presidente da Assembleia Legislativa Regional. Foi advogado no Faial, deputado no arquipélago e uma das pessoas que arregaçou as mangas e deitou suor em torno do aprofundamento da Autonomia que agora celebramos. A sua morte deveria ser momento de homenagem e de recordação, principalmente nos dias que correm, e ao abrigo da efeméride que celebramos.
Em vez disso, foi mais uma acha para a longa fogueira que arde em praça pública, consequência evidente de uma degeneração dos bons costumes e da moral, que leva a que se digam as maiores alarvidades, não apenas no balcão da tasca, mas também na mesa do restaurante chique, no salão de baile da velha aristocracia, no terreiro das almas ou na fajã das festas. Vale tudo.
De repente, o campo de batalha do ódio nas redes sociais, transitou para a vida real. Há ameaças de pancadaria. Há opiniões carregadas. Amizades perdidas. Há insultos entre famílias. Alegados favorecimentos que são recuperados e colocados em hasta pública. Em torno de um momento de luto. Uma altura em que deveríamos respeitar quem nos honrou, revelou-se o desprezo por quem nos fez livres.
E isso não poderemos deixar passar. Não só em nome de Fernando Menezes, mas de todas as pessoas que já sofreram com esta nova cultura do ódio, em anos recentes. Precisamos de levantar-nos das cadeiras e intervir. Não é agradável. Leva-nos para lá do nosso conforto, e para dentro de um confronto constante. Só que é a única maneira de refrear o ímpeto de um eleitora do mal-informado, mas, também, daquele que quer fazer parecer desconhecer um regulamento que vigora há décadas. Muitas foram as pessoas que falaram na morte de Álvaro Monjardino para comparar com este momento, afirmando que o luto aí tinha sido esquecido, quando o que deviam questionar era a razão para que não tivesse sido cumprido. Mas acreditaram, no que ouviram nas esquinas e no que leram nas redes sociais. Acreditaram, porque é mais fácil acreditar no escárnio e na destruição do perfil de uma pessoa, somente porque assim se torna mais fácil odiar, e odiar é mais agradável do que amar, em tempos de crise. É preciso recordar o mundo da necessidade de se indignar, revoltar e revolucionar a sua sociedade, não por causa de eventos adiados, mas antes porque os políticos que lhes venderam as mentiras querem devorar o que resta das suas poupanças. É preciso continuar. Por Fernando Menezes, e pela Autonomia. Pela Liberdade e por quem ajudou a defender essa conquista. Terá que haver sempre alguém que resiste.
Talvez fosse tempo de, nestas comemorações, refletir acerca do oportunismo, do incumprimento e da alienação acerca do que define a coisa pública.

Alexandra Manes

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