Um estudo científico publicado online em abril deste ano e integrado na edição de agosto da revista Marine Policy identifica uma redução acentuada dos avistamentos de tubarão-mako nos Açores desde o início da actividade de mergulho com tubarões, há cerca de uma década, e associa essa evolução à sobrepesca da espécie no Atlântico Norte. A investigação alerta para as possíveis consequências futuras sobre uma actividade turística com importância económica sobretudo nas ilhas do Faial e Pico, embora ressalve que não foi demonstrado, até 2022, um impacto económico directo da pesca nos operadores açorianos.
O artigo, intitulado Watching or catching sharks: Tracing the emergence of a marine resource conflict in the North Atlantic, é da autoria de Björn Eriksson, da Universidade de Uppsala, e de Wendell Medeiros-Leal, investigador ligado ao OKEANOS da Universidade dos Açores e integra o volume 190 da Marine Policy, correspondente a Agosto de 2026.
A investigação analisa o conflito potencial entre duas formas distintas de utilização das mesmas espécies: por um lado, o mergulho turístico com tubarões nos Açores e, por outro, a pesca em alto mar do tubarão-azul (Prionace glauca) e do tubarão-mako ou mako-de-barbatana-curta (Isurus oxyrinchus), espécies altamente migratórias sujeitas à atividade das frotas de palangre no Atlântico Norte. Os autores concluem que os tubarões se tornaram um recurso importante para o turismo marinho açoriano, ao mesmo tempo que continuam sujeitos a uma pressão pesqueira significativa.
Os resultados são diferentes para as duas espécies. No caso do tubarão-azul, os relatos dos operadores revelam oscilações ao longo dos anos, mas os autores consideram que os avistamentos permanecem globalmente relativamente estáveis. Já no tubarão-mako, a tendência identificada é de uma redução marcada desde que o mergulho com tubarões começou a desenvolver-se nos Açores, por volta de 2011 e 2012.
Um operador do Pico entrevistado para o estudo estimou que, nos primeiros anos da atividade, a taxa de sucesso dos mergulhos com avistamento de mako rondava os 72%, descendo para cerca de 45% a 50% dois anos depois. Nos anos mais recentes abrangidos pelas entrevistas, afirmou observar apenas três a quatro makos por ano, enquanto outros profissionais relataram não observar mais de quatro a cinco animais por guia de mergulho em cada época. Operadores do Faial e do Pico confirmaram igualmente aos investigadores uma diminuição acentuada dos encontros com esta espécie.
Estes números devem, contudo, ser interpretados com cautela. O trabalho não resulta de uma nova contagem científica da população de tubarões realizada em 2026. A componente local baseia-se em entrevistas semiestruturadas realizadas em julho e agosto de 2022 a 11 operadores de mergulho: três em São Miguel, quatro no Faial e quatro no Pico, conjugadas com dados históricos de capturas no Atlântico Norte, evolução do estado dos stocks e das medidas de gestão. Os próprios autores reconhecem como limitação a inexistência de séries temporais sistemáticas de observações recolhidas pelos operadores e admitem que as memórias dos entrevistados podem não reproduzir com precisão absoluta acontecimentos passados.
Apesar dessa limitação, a conjugação das diferentes fontes leva os investigadores a considerar que a redução dos avistamentos de mako é consistente com a situação do stock no Atlântico Norte e a apontar a sobrepesca como explicação causal provável para a tendência observada nos Açores. No caso do tubarão-azul, o estudo não identifica uma evolução comparável, considerando que a espécie apresenta uma maior estabilidade global nos avistamentos.
O estudo destaca também o peso económico que o mergulho com tubarões adquiriu no arquipélago. À data das entrevistas, seis dos 11 operadores consultados, quatro no Faial e dois no Pico, ofereciam activamente mergulhos com tubarões, enquanto outro operador do Pico já o tinha feito anteriormente. Um dos empresários do Faial estimou que esta atividade representava cerca de 30% das receitas do seu negócio.
Cada mergulho com tubarões custava, segundo os valores usados no artigo, entre 165 e 195 euros por participante, podendo entrar na água simultaneamente até oito clientes acompanhados por um guia. A previsibilidade dos encontros com tubarões, em particular com o tubarão-azul, é apontada como uma das vantagens comerciais do destino, permitindo a alguns operadores promover probabilidades de avistamento próximas de 90%. A crescente raridade do mako reduz, porém, a possibilidade de oferecer aos clientes a mesma previsibilidade relativamente a esta espécie.
Os investigadores confrontam ainda o valor gerado pelas duas utilizações do recurso. O artigo refere um valor médio de primeira venda de cerca de 1,90 dólares por quilograma de carne de tubarão-azul, colocando-o em contraste com os 165 a 195 euros pagos por cada participante num mergulho. Os autores não transformam esta comparação numa equivalência económica directa, mas consideram que a diferença justifica um debate sobre a utilização mais vantajosa dos tubarões pelágicos no Atlântico Norte e sobre o valor económico que estes animais podem gerar quando permanecem vivos. A investigação conclui, contudo, que não existem provas de que a pesca em alto mar tenha provocado, até 2022, perdas económicas directas no sector do mergulho açoriano. Os impactos detectados estavam sobretudo associados a dificuldades operacionais, como maior tempo de procura e de atracção dos animais, com eventuais aumentos de combustível e outros custos. A preocupação apresentada pelos autores é, por isso, essencialmente de médio e longo prazo: uma continuação do declínio dos tubarões, particularmente do mako, poderá diminuir a capacidade dos Açores de manterem uma oferta turística baseada em encontros previsíveis com estas espécies.
Foto©Mako shark. Credit: NOAA Fisheries
