Os Açores apresentavam, no final de 2025, o maior número de trabalhadores em estabelecimentos públicos de saúde por habitante entre as regiões NUTS II do país, mas registaram, em simultâneo, uma redução do pessoal de saúde, em contraciclo com o crescimento verificado a nível nacional. A Região destacou-se ainda pelo aumento das remunerações: o ganho médio mensal subiu 15,6% num ano, a maior variação entre as regiões analisadas pela Direcção-Geral da Administração e do Emprego Público (DGAEP).
Os dados constam do Boletim Estatístico do Emprego Público n.º 30, publicado em junho deste ano, e mostram que, em 31 de Dezembro de 2025, as entidades do sector das administrações públicas classificadas nas “actividades de saúde humana” empregavam 5.498 trabalhadores nos Açores, o equivalente a 22,4 trabalhadores por cada mil residentes. É o rácio mais elevado entre as regiões NUTS II, acima da Madeira, com 21,9, e bastante superior à média nacional, de 14,3.
Este indicador abrange a totalidade dos trabalhadores dos estabelecimentos públicos classificados nesta atividade e não apenas médicos, enfermeiros e outros profissionais directamente ligados à prestação de cuidados. Quando a DGAEP restringe a análise ao denominado “pessoal de saúde” (médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico e terapêutica e técnicos superiores de saúde) os Açores contabilizavam 2.871 profissionais, correspondendo a 11,7 por cada mil residentes. Neste caso, a Região apresentava o segundo rácio mais elevado entre as NUTS II, ligeiramente abaixo da Madeira, com 12,0, e acima da média nacional, de 9,0.
Dos 2.871 profissionais de saúde contabilizados nos estabelecimentos açorianos, 691 eram médicos, 1.735 enfermeiros, 407 técnicos de diagnóstico e terapêutica e 38 técnicos superiores de saúde. O pessoal destas quatro carreiras representava 52,2% do emprego total nos estabelecimentos públicos de saúde da Região, uma proporção inferior à média nacional, de 62,8%.
O elevado rácio de emprego por habitante deve, contudo, ser analisado tendo em consideração uma característica estrutural do sistema de saúde açoriano: a dispersão territorial. O Serviço Regional de Saúde tem de assegurar respostas numa região composta por nove ilhas, separadas por mar e com dimensões populacionais muito diferentes, enquanto a resposta hospitalar pública está concentrada em três ilhas. Documentação oficial da Região tem identificado expressamente esta realidade geográfica como um condicionante da organização dos cuidados, referindo a existência de nove ilhas e de hospitais apenas em três delas.
Esta configuração implica a manutenção de estruturas e equipas distribuídas por diferentes territórios, incluindo ilhas com reduzida população, tornando necessário algum cuidado na comparação directa dos rácios açorianos com os das regiões continentais.
Os dados da DGAEP permitem concluir que os Açores têm mais trabalhadores nos estabelecimentos públicos de saúde por habitante, mas não permitem medir que parcela dessa diferença resulta directamente da insularidade e da dispersão geográfica.
Pessoal de saúde
diminuiu 1,3%
enquanto aumentou no país
O relatório revela, ao mesmo tempo, uma evolução distinta quando se observa apenas o pessoal de saúde. Entre dezembro de 2024 e Dezembro de 2025, o número de médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico e terapêutica e técnicos superiores de saúde nos estabelecimentos classificados nas actividades de saúde humana diminuiu 1,3% nos Açores. No conjunto do país, este grupo cresceu 2,4%. Na Madeira verificou-se igualmente um aumento, de 2,2%.
Em sentido contrário, os restantes trabalhadores dos estabelecimentos de saúde açorianos aumentaram 0,8% em termos homólogos. No conjunto nacional, o crescimento deste grupo foi de 2,7%.
Um segundo quadro da DGAEP, que considera a distribuição geográfica das carreiras no conjunto das administrações públicas e, por isso, não corresponde exactamente ao universo dos estabelecimentos classificados nas actividades de saúde humana, permite perceber a evolução de algumas profissões nos Açores. Nesse universo estatístico, o número de médicos passou de 702 em Dezembro de 2024 para 692 em Dezembro de 2025, menos dez, correspondendo a uma diminuição de cerca de 1,4%. O número de enfermeiros recuou de 1.778 para 1.751, menos 27, ou cerca de 1,5%. Os técnicos de diagnóstico e terapêutica passaram de 460 para 458, enquanto os técnicos superiores de saúde aumentaram de 35 para 38.
A distinção entre os dois universos é relevante. É por essa razão que o quadro especificamente dedicado às “actividades de saúde humana” contabiliza 691 médicos nos Açores, enquanto o quadro de distribuição geográfica das carreiras no conjunto das administrações públicas regista 692. Os números não devem ser apresentados como se correspondessem à mesma população estatística.
Hospital privado introduziu novo
empregador no mercado regional
A evolução do emprego público ocorre num mercado regional de recursos humanos em saúde que se alterou nos últimos anos com a entrada em funcionamento de uma estrutura hospitalar privada de dimensão inédita no arquipélago.
O Hospital Internacional dos Açores (HIA), na Lagoa, abriu em Março de 2021 como o primeiro hospital privado do arquipélago. Em Março de 2023, a CUF adquiriu o controlo do hospital e em Setembro desse ano, a unidade passou a designar-se Hospital CUF Açores.
A dimensão da unidade torna-a um elemento relevante no mercado regional de profissionais de saúde. Num balanço divulgado em 2024, a própria CUF indicava que o hospital contava com uma equipa de mais de 550 profissionais e referia ter reforçado equipas clínicas e aumentado a oferta assistencial desde a integração do antigo HIA na rede.
Não se pode, contudo, estabelecer que a redução verificada em 2025 no pessoal da saúde pública tenha resultado da transferência de profissionais para a CUF. O relatório da DGAEP não identifica os motivos das saídas, nem os destinos profissionais dos trabalhadores, e não existe nos dados analisados informação que permita quantificar eventuais movimentos entre os sectores público e privado.
A presença do Hospital CUF Açores deve, por isso, ser entendida como uma alteração relevante do contexto do mercado regional de trabalho na saúde, e não como uma explicação comprovada para a diminuição de efectivos registada pela DGAEP.
Remunerações crescem a ritmo
superior ao país
Ao mesmo tempo que o pessoal de saúde diminuiu, os Açores registaram em 2025 um forte crescimento das remunerações médias nos estabelecimentos públicos classificados nas actividades de saúde humana.
Em outubro de 2025, a remuneração base média mensal dos trabalhadores a tempo completo situava-se nos 1.780,4 euros, contra 1.596,3 euros no mesmo mês de 2024. O aumento foi de 11,5%, o mais elevado entre todas as regiões NUTS II. No conjunto do país, a remuneração base média passou de 1.784,1 para 1.890,5 euros, uma subida de 6,0%.
Apesar do crescimento mais acentuado, a remuneração base média nos Açores permanecia 110,1 euros abaixo da média nacional.
A evolução foi ainda mais expressiva no ganho médio mensal, indicador mais amplo que inclui, além da remuneração base, outras componentes remuneratórias consideradas pela DGAEP. Nos Açores, passou de 2.209,1 euros em Outubro de 2024 para 2.554,3 euros em Outubro de 2025, correspondendo a uma subida homóloga de 15,6%, novamente a mais elevada entre as regiões NUTS II.
A média nacional do ganho mensal aumentou 6,4%, de 2.378 para 2.529,3 euros. Neste indicador, os Açores ficaram em 2025 vinte e cinco euros acima da média do país, embora o valor absoluto não fosse o mais elevado entre as regiões.
Os dados traçam, assim, um quadro com sinais distintos: os Açores mantêm o maior rácio de emprego nos estabelecimentos públicos de saúde por habitante entre as regiões NUTS II, num sistema condicionado pela dispersão por nove ilhas, mas registaram em 2025 uma redução do pessoal de saúde, incluindo uma diminuição do número de médicos e enfermeiros no conjunto das administrações públicas localizadas na Região. Em paralelo, as remunerações cresceram a um ritmo bastante superior à média nacional.
O relatório da DGAEP permite medir estas evoluções, mas não determinar as suas causas. A insularidade constitui uma característica estrutural comprovada do Serviço Regional de Saúde e a presença do primeiro hospital privado criou um novo pólo empregador no arquipélago. Qualquer relação directa entre estes fatores e a redução dos profissionais no sector público exigiria, porém, informação adicional sobre recrutamentos, aposentações, rescisões e mobilidade entre entidades que não consta dos dados agora publicados.
