Edit Template

Há árvores que fazem sombra Outras fazem parte da nossa história

“Talvez, por isso, uma árvore possa ser também uma docente. Ela não dá instruções, não corrige, não avalia. Mas ensina a subir e a descer, a procurar apoio, a perceber até onde conseguimos ir, a cair e a tentar novamente.”

Recentemente, tive conhecimento da história de uma árvore que faz parte da memória de muitas pessoas que passaram pela Escola da Vila, em São Paulo, e que precisou de ser abatida depois de tantos anos a acompanhar gerações de crianças. De imediato, pensei na minha infância. Porque há experiências que ficam inscritas no corpo e na memória muito depois de desaparecerem do nosso quotidiano.
A decisão da escola poderia ter passado simplesmente por isolar o espaço, abater a árvore durante o fim de semana e, na segunda-feira, tudo estaria resolvido. No entanto, optou pela diferença: levou as crianças até à árvore. Deu-lhes tempo para olhar, tocar, recordar, conversar e despedirem-se. Parece um gesto simples, mas é profundamente educativo.
Carlos Neto, investigador na área do desenvolvimento infantil, diz que as crianças deveriam chegar à escola “entusiasmadas porque vão subir às árvores”. É uma imagem perfeita para uma infância verdadeiramente vivida.
Na minha infância com a Zaida, havia também espaço para experimentar: correr, subir, cair, voltar a tentar. Havia pequenas aventuras que hoje, sob a perspetiva adulta, talvez classificássemos como riscos a evitar. E há cicatrizes que ficaram. Hoje, olho para algumas delas de outra maneira: são marcas de uma infância vivida.
Não defendo que as crianças sejam expostas a perigos desnecessários. Mas há uma diferença fundamental entre proteger uma criança do perigo e protegê-la de toda a experiência de risco. Entre acompanhá-la enquanto descobre os seus limites e impedir que alguma vez chegue perto deles.
Carlos Neto alerta-nos para a importância do brincar livre, do movimento e daquilo que chama a “escola da rua”: esse espaço onde as crianças aprendem através do corpo, da autonomia, da negociação e da descoberta. Uma escola que, em muitos lugares, desaparece.
Talvez, por isso, uma árvore possa ser também uma docente. Ela não dá instruções, não corrige, não avalia. Mas ensina a subir e a descer, a procurar apoio, a perceber até onde conseguimos ir, a cair e a tentar novamente. Ensina que o corpo pensa, que o risco pode ser avaliado e que a autonomia não se constrói apenas ouvindo pessoas adultas, mas experimentando o mundo.
Esta árvore ensinou ainda outra coisa: a despedir. Numa época em que tudo tende a ser rapidamente consumido, substituído e descartado, esta escola transformou um procedimento técnico num momento de despedida e uma perda numa experiência partilhada. E isso, também, é educação.
Olho para as cicatrizes da minha infância. São pequenas provas de que estive lá: corri, subi, caí, tentei, descobri. São vestígios de experiências que ajudaram a construir quem sou.
Uma escola verdadeiramente educativa não é aquela que elimina todas as dificuldades do caminho, mas a que cria condições para que uma criança possa atravessá-las acompanhada, atribuindo-lhes sentido.
Por isso, quando uma árvore antiga desaparece, não desaparece apenas uma árvore. Desaparece um lugar de memória, um ponto de encontro, um pedaço da paisagem interior de muitas pessoas.
Mas, se a despedida for feita com tempo e cuidado, fica a aprendizagem de que aquilo que amamos merece atenção enquanto está connosco, e merece uma despedida quando chega a hora de partir.
Algumas árvores ensinam-nos a crescer. Outras ensinam-nos a cair e a levantar. E algumas ensinam-nos, simplesmente, que também se aprende quando se diz adeus.
Por isso, uma árvore é, também, docente.

Alexandra Manes

Edit Template
Notícias Recentes
Câmara Municipal da Ribeira Grande já tem propostas para requalificação do Jardim Paraíso
Marcelo Rebelo de Sousa, convidado de honra à 40ª edição das Grandes Festas
PSD defende criação de novo Programa Municipal de Investimento na Praia da Vitória
Bloco de Esquerda questiona Governo e Autarquia sobre encerramento do Jardim de Infância do Teatro Novo, nas Capelas
Abertas candidaturas ao programa Jovens Digitais para apoiar aquisição de equipamento e serviços informáticos
Notícia Anterior
Proxima Notícia

Copyright 2026 Diário dos Açores