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Ideias Há Muitas – Rabo de Peixe: quando a ficção alimenta o estigma

Nunca como hoje se falou tanto de Rabo de Peixe. Não me surpreende. Na verdade, nunca se deixa de falar daquela vila – e quase sempre pelas piores razões.
Os acontecimentos que marcaram a última semana – a afronta a agentes de autoridade que apenas cumpriam o seu papel – não surgem do nada. Mesmo com todo o trabalho e esforço que as mais diversas entidades locais e instituições de soberania têm desenvolvido naquela localidade, nem sempre coincidem os resultados esperados com os objetivos alcançados. E o problema maior não está no investimento que ali se faz em euros, incomensurável e continuado, mas na qualidade técnica e humana com que é aplicado.
O problema não foi, nem será, a falta de investimento. Ao longo de décadas, são incontáveis os programas de integração, formação e inclusão. Mas, mesmo assim, o estigma persiste, encardido como uma nódoa que nenhum programa consegue lavar.
A Netflix passou por lá e filmou uma série de duas temporadas sobre os trágicos acontecimentos ligados à cocaína do iate italiano. Muitos sonharam que a série, somada ao jet-set vindo de fora e às visitas turísticas anunciadas pela boa publicidade em torno da produção, faria florescer negócios de turismo de elevado valor naquela vila piscatória, salvando uma das suas faces – e, quiçá, o próprio exemplo da ficção ajudaria a travar as dependências que retrata. Só que o grupo da série não estuda nem trabalha, e segue o rumo do tráfico e consumo de droga, como um gangue de jovens sem rumo ou futuro. Mesmo tratando-se de ficção, a série Rabo de Peixe pode ter-se tornado num modelo de comportamento em que o crime é normalizado e visto como uma marca identitária de uma localidade. Não seria justo dizer que há um nexo de causalidade entre a série e os acontecimentos recentes, mas ajudar, não ajuda.
Contudo, a história da vila não se esgota nos confrontos com as autoridades. Há mais – e melhor – Rabo de Peixe à espera de ser valorizado, exposto e contado. Quanto à pobreza – a de espírito, como diz o povo – parece condenada a perpetuar-se, remendo aqui, remendo ali.

Luís Soares Almeida
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