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Psicologia da História: a sacralização do poder — quando a autoridade fala em nome de Deus (10)

Depois do mito político do salvador, importa observar uma forma ainda mais antiga de legitimação da autoridade. O poder não se contenta em mandar e procura parecer necessário. Deseja que a obediência não surja apenas como submissão a uma força humana, mas como dever moral, continuidade histórica ou vontade superior. Quando se apresenta como expressão do sagrado, a política deixa de falar só em nome dos homens e começa a sugerir que “o poder vem de Deus”.
Este processo atravessa a história humana. Monarcas e regimes modernos envolveram a autoridade numa aura acima da discussão comum. Se o governante é apenas um homem, pode ser criticado, substituído ou julgado. Se aparece como escolhido, ungido ou protegido por uma ordem divina, a contestação torna-se psicologicamente mais difícil. Já não parece simples discordância política porque é suscetível de parecer impiedade, rebelião contra a tradição ou ameaça à ordem do mundo.
Ernst H. Kantorowicz, em The King’s Two Bodies (1957), estudou esta dimensão simbólica do poder régio medieval. Segundo a doutrina que analisou, o rei possuía um corpo natural, sujeito à doença e à morte, e um corpo político, quase imperecível, ligado à dignidade da coroa. O homem morria, mas a realeza permanecia. O monarca deixava de ser apenas indivíduo e passava a representar uma continuidade superior.
A Psicologia da História reconhece aqui um dos seus objetos mais distintos. As sociedades não obedecem somente por medo da punição, mas também porque precisam de ordem, previsibilidade e sentido. Em épocas de instabilidade, a autoridade sacralizada reduz a incerteza, organiza o mundo em categorias morais e faz com que a política deixe de parecer negociação entre interesses humanos, surgindo como expressão de uma ordem natural ou divina.
Max Weber distinguiu a autoridade tradicional, a carismática e a legal-racional. Já no século XVIII Kant considerara a dignidade jurídico-racional da função soberana independente da pessoa. A sacralização cruza sobretudo as duas primeiras, apoiando-se na tradição recebida e, por vezes, apresenta o governante como figura providencial. A obediência torna-se mais estável quando se combina o peso do passado com a promessa de salvação.
Portugal conheceu várias formas desta situação simbólica. Durante séculos, a monarquia viveu ligada à religião, aos rituais e à ideia de uma comunidade protegida por Deus. Esta ligação não significa que a fé fosse um simples instrumento político. A religião habitava profundamente a vida das populações, orientando calendários, medos, esperanças e formas de pertença. Precisamente por isso, podia servir também de linguagem legitimadora.
No século XX, o Estado Novo recuperou muitos destes mecanismos, adaptando-os a uma sociedade sujeita à propaganda. O lema “Deus, Pátria e Família” condensava uma visão moral da comunidade. Funcionava como mapa psicológico. Deus oferecia fundamento transcendente; a Pátria dava continuidade histórica; a Família apresentava a ordem social como intimidade moral. Juntas, estas palavras criavam uma estrutura emocional onde a autoridade parecia proteger o país contra a desordem e a dissolução dos costumes.
A eficácia deste discurso depende menos da sua coerência intelectual do que da sua força afetiva. A sociedade cansada de crise, pobreza ou instabilidade pode aceitar com alívio uma autoridade que promete restaurar a paz sob a proteção de valores superiores. A crítica ao regime passa então a ser confundida com ataque à religião, à nação ou à família. O poder desloca a discussão política para um terreno moral onde o adversário parece sempre menos legítimo.
Mesmo em sociedades laicas, a linguagem política continua a procurar equivalentes do sagrado. Fala-se de destino nacional, missão histórica, pureza do povo, verdade única ou inimigos da comunidade. Mudam as palavras, mas a função psicológica conserva-se a oferecer certeza, delimitar pertenças e transformar escolhas humanas em exigências aparentemente indiscutíveis.
A Psicologia da História não pretende julgar a fé nem reduzir a religião a instrumento de dominação. A experiência religiosa pertence a uma dimensão profunda da vida humana. O problema surge quando o poder político se apropria dessa profundidade para se colocar acima da crítica. Então a obediência deixa de resultar apenas da lei ou da convicção cívica. Passa a ser protegida por símbolos que tocam zonas íntimas da identidade e do medo.
Talvez por isso a sacralização do poder tenha sido tão persistente. Responde a uma necessidade humana de ordem num mundo incerto. Dá à autoridade um rosto familiar, à comunidade uma narrativa de proteção e ao indivíduo a sensação de pertencer a algo mais vasto do que a sua fragilidade. Mas contém um risco profundo porque, ao falar em nome de Deus, a política perde humildade e a crítica pode ser tratada como profanação.
Nenhuma sociedade adulta dispensa símbolos. Mas deve desconfiar quando eles deixam de iluminar a consciência e começam a exigir silêncio.
Manuel Leal

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