Edit Template

Quem certifica a direita?

A direita americana destruiu o árbitro que tinha. A portuguesa nunca chegou a ter um. E o Chega vai precisar dele antes do que pensa.

Há uma pergunta que a direita americana acaba de responder por acidente, e que a direita portuguesa continua a fingir que não lhe diz respeito.Quem decide o que é conservador?
Em Washington, durante meio século, a resposta foi uma casa. A Heritage Foundation escrevia os manuais de governo, formava os quadros das administrações e marcava a fronteira. Ser excluído pela Heritage era ficar de fora. No mês passado, uma investigação do New York Times Magazine mostrou essa casa desfeita: o principal jurista despedido, os economistas em fuga, três administradores demitidos, uma dezena de quadros acolhidos pela organizaçãode Mike Pence. O rastilho foi a recusa do presidente da fundação em condenar Tucker Carlson por ter entrevistado, com simpatia, um negacionista do Holocausto. Um dos que saíram, o filósofo Robert P. George, escreveu a única frase que o caso realmente produziu: não pode aceitar a ideia de que não há inimigos à direita.
Nunca esteve em causa Carlson. Esteve em causa a existência de uma fronteira.
Vem isto a propósito de Portugal por uma razão desconfortável. Nós temos o problema. Nunca tivemos a instituição.
Ou melhor, tivemos mas esquecemo-nos. Quando o CDS nasceu, em 1974, era acusado de abrigar o antigo regime e teve o congresso do Porto desfeito à pedrada. Cinco anos depois estava no Governo. Não chegou lá por gritar mais alto. Chegou porque aceitou a Constituição que detestava, porque pagou o preço de afastar quem não a aceitava e porque Sá Carneiro, ao montar a AD, fez o que hoje ninguém quer fazer: definiu a porta de entrada. A direita portuguesa já teve um mecanismo de certificação. Chamava-se ter alguém disposto a dizer não a metade dos que lhe batiam à porta.
O Chega é hoje o segundo partido e a principal oposição, feito conseguido em seis anos que só a distração dos outros explica. Mas fê-lo sem nada daquilo que sustenta um partido no dia em que o fundador sai de cena. Um partido só sobrevive ao líder carismático se tiver três coisas: doutrina escrita, máquina de quadros e mecanismo de exclusão.
Tem programa, como toda a gente tem, mas o que define o partido não está lá. Está na voz de um homem e no tema da semana. A sucessão de casos com deputados não são acidentes de percurso, são o sintoma de uma casa que cresceu mais depressa do que a sua capacidade de escolher gente. O Chega expulsa por escândalo, não por doutrina. Expulsa quando a notícia sai, não quando a linha é atravessada. Não é uma fronteira, é um serviço de limpeza.
A lição americana é exatamente esta. Enquanto Trump lá estiver, a falta de árbitro não custa nada, porque ele é a regra e a lealdade dispensa doutrina. A conta chegará no dia seguinte à sua saída e o instrumento que serviria para a pagar foi destruído na véspera. Ventura tem o mesmo problema, com um agravante que ninguém no partido parece querer discutir: Trump herdou uma máquina com século e meio, Ventura não herdou nada. Construiu tudo à volta de si próprio e o que se constrói à volta de uma pessoa, costuma sair de cena com ela.
Depois há o tecto. Em fevereiro, Ventura subiu de 1,3 para 1,7 milhões de votos e perdeu por 33 contra 67, com uma rejeição medida perto dos 68 por cento. Não é falta de mobilização, é falta de certificação. Falta alguém, credível fora do partido, capaz de dizer ao eleitor hesitante do centro-direita que pode votar ali sem se envergonhar diante dos vizinhos. Nos Estados Unidos era a Heritage que assinava esse aval. Aqui não há quem assine e o Chega tem passado seis anos a assegurar que nunca haverá. Cada vez que prefere o confronto à fronteira.
Ao PSD cabe a face espelhada do mesmo dilema embora seria cómodo não o dizer. Até onde se absorve a energia sem ser absorvido por ela? O arco da governação resolvia a questão por exclusão automática, mecanismo confortável enquanto o excluído era pequeno e inútil, mas não desde que passou a ser o segundo. O que substitui o cordão sanitário quando ele deixa de funcionar? Ninguém responde, mas a resposta não pode continuar a ser improvisada de crise em crise.
Sobram três futuros, os mesmos de Washington, à escala de Lisboa. Normalização, com o Chega a aceitar fronteiras, a perder energia e a ganhar a respeitabilidade que lhe falta para governar. A substituição, com a tenda sem paredes a crescer para dentro e a bater no teto. Ou a guerra prolongada, duas direitas com o mesmo eleitorado e leituras incompatíveis do que significa ser conservador, até que uma derrota suficientemente pesada obrigue a decidir.
Nas guerras religiosas, o cisma raramente destrói o templo. Destrói a autoridade que dizia o que era ortodoxo. Nos Estados Unidos essa autoridade existiu e foi demolida por dentro. Em Portugal, houve quem a soubesse construir há cinquenta anos mas ninguém se lembrou de a manter. Não sei qual das duas situações é pior. Sei que a segunda é a nossa.

António Simas Santos

Edit Template
Notícias Recentes
Câmara Municipal da Ribeira Grande já tem propostas para requalificação do Jardim Paraíso
Marcelo Rebelo de Sousa, convidado de honra à 40ª edição das Grandes Festas
PSD defende criação de novo Programa Municipal de Investimento na Praia da Vitória
Bloco de Esquerda questiona Governo e Autarquia sobre encerramento do Jardim de Infância do Teatro Novo, nas Capelas
Abertas candidaturas ao programa Jovens Digitais para apoiar aquisição de equipamento e serviços informáticos
Notícia Anterior
Proxima Notícia

Copyright 2026 Diário dos Açores