Edit Template

A Senhora dos Baleeiros

O ciclo litúrgico cristão oferece aos fiéis uma “verdadeira formação contínua”. Segundo o Papa Francisco, 1 “Ao celebrar os mistérios de Cristo ao longo do ano, a comunidade não apenas recorda acontecimentos passados: aprende a viver segundo Cristo e a integrar a fé à vida quotidiana.”
A intensidade dessas vivências tem etapas que começam na Natividade de Jesus, prosseguem na sua vida pública, na sua Morte, Ressurreição e na descida do Espírito Santo. Em cada um destes ciclos litúrgicos, existe uma forte componente penitencial tendente à renovação pessoal e coletiva, com maior preponderância no período quaresmal.
Terminadas as celebrações pascais, a Igreja Católica celebra a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos, cuja permanência na Igreja foi anunciada por Jesus: “recebereis o poder do Espírito Santo, que há-de vir sobre vós; e sereis minhas testemunhas.” (Act 1,8)
Passados mais de dois mil anos, o Povo de Deus nestas ilhas e nas paragens para onde ele emigrou, mantém viva a Fé de que é o Espírito que orienta a Igreja e inculca no coração dos fiéis o verdadeiro sentido da Caridade, traduzida na partilha e na entre-ajuda.
É por isso que as Festividades em louvor do Espírito Santo estendem-se durante os meses de verão, não só nas tradicionais Coroações para pagamento de promessas, normalmente efetuadas por emigrantes, mas em jantares de beneficência.
A par destas celebrações há-as em honra dos padroeiros. Em todas existe um forte sinal de alegria nas comunidades, traduzida em gestos e costumes ancestrais que se mantém vivos na identidade e na memória do povo cristão e não-cristão
Ao longo dos séculos, a Igreja Católica como “Mãe e Mestra” foi aprendendo a dar resposta às situações resultantes da evolução da sociedade. Fê-lo, algumas vezes, de forma desajustada. Mas, porque constituída por humanos, teve sempre a preocupação de acertar. Quando isso não acontecia, o povo crente no seu senso comum encontrou as melhores soluções para a afirmar a sua Fé.
São disso exemplo os diversos rituais de celebração do culto ao Espírito Santo, alguns deles incompreendidos e desaprovados pela autoridade eclesiástica, sem ter recorrido ao diálogo e ao consenso.
Nas Festas de Verão, a grande maioria das quais dedicadas a Nossa Senhora, há uma forte componente da tradição popular que se mantém inalterada.
Nas Lajes do Pico, a festa em louvor de Nossa Senhora de Lourdes, apesar de extinta a atividade baleeira ainda perduram os rituais da procissão solene do domingo. A meio do percurso, o cortejo pára em frente ao Porto. É proferido um sermão da proa de uma canoa e, de seguida a imagem dirige-se às canoas com vela armada, que ladeiam o trajeto, colocadas, como antigamente, frente às antigas Casas dos Botes – actual Museu dos Baleeiros. Da proa do bote, onde antigamente o trancador lançava o arpão, um antigo baleeiro ou seu descendente, envolve a imagem com a corda que antigamente amarrava a baleia, sinal de estreita comunhão com a Padroeira dos Baleeiros, protegendo os que daquela arriscada atividade faziam o seu ganha pão.
A atividade baleeira terminou em 1987. Os antigos baleeiros, contam-se pelos dedos. No entanto, a maioria da população além da meia-idade, tem ainda presente os gestos de súplica, de incerteza e de angústia que os caçadores de baleias demonstravam nas antigas procissões, devido aos riscos que corriam.
Substituiu a caça à baleia uma florescente atividade de observação de cetáceos em embarcações motorizadas. Porém, a antiga Procissão dos marítimos das Lajes, não integra qualquer participação dessas embarcações, nem da tripulação, nem do pessoal afeto, o que não deixa de ser sintomático porque é revelador do desconhecimento da celebração religiosa ou de uma crescente descristianização.
A Festa de Lourdes de outrora, passou a ser designada, nas última décadas, por Semana dos Baleeiros, com uma forte componente musical e festivaleira, e também etnográfica e desportiva.
O programa religioso integra o tradicional novenário, uma procissão de velas e uma procissão marítima na frente marítima das Lajes, com embarcações da pesca tradicional.
Com a construção da Avenida litoral no antigo campo de futebol e nos edifícios concentram todos os espetáculos musicais, exposições, espaços comerciais e restauração. É lá que, durante a semana, se concentram centenas e centenas de pessoas na última grande festa anual do Pico.
Como noutras festas de localidades onde houve atividade baleeira, nomeadamente: Cais do Pico, São Mateus, São João, Santa Cruz das Ribeiras, Calheta de Nesquim e Piedade, as regatas a remos e à vela são uma das maiores atrações. Nessas provas desportivas há também canoas de outras ilhas, nomeadamente do Faial e de São Jorge. Na prova de remos competem jovens de ambos os sexos, e à vela as tripulações são por vezes mistas.
No fundo, os símbolos da atividade baleeira são preservados, demonstrando uma das qualidades distintivas dos baleeiros: a força, a coragem em enfrentar os perigos do mar e do gigante marinho e a Fé na sua Padroeira que é também a “honra e glória do nosso Povo”.
1 Papa Francisco, Carta Apostólica “Desiderio Desideravi”, nº64

José Gabriel Ávila *
* Jornalista c.p. 239 A
http://escritemdia.blogspot.com

Edit Template
Notícias Recentes
Câmara Municipal da Ribeira Grande já tem propostas para requalificação do Jardim Paraíso
Marcelo Rebelo de Sousa, convidado de honra à 40ª edição das Grandes Festas
PSD defende criação de novo Programa Municipal de Investimento na Praia da Vitória
Bloco de Esquerda questiona Governo e Autarquia sobre encerramento do Jardim de Infância do Teatro Novo, nas Capelas
Abertas candidaturas ao programa Jovens Digitais para apoiar aquisição de equipamento e serviços informáticos
Notícia Anterior
Proxima Notícia

Copyright 2026 Diário dos Açores