Um projeto de investigação desenvolvido nos Açores está a procurar transformar um subproduto da indústria queijeira numa parte da solução para reduzir a utilização de plástico na conservação dos próprios queijos. O SolFoodPack — Embalagens Sustentáveis: Soluções Baseadas na Natureza para a Conservação dos Alimentos pretende desenvolver embalagens activas e biodegradáveis recorrendo, entre outras soluções, à fermentação do soro de leite e à produção de substâncias antimicrobianas por bactérias. O quadro financeiro publicado pela Fundação Gaspar Frutuoso totaliza 476.862 euros e o projecto decorre entre Dezembro de 2025 e Novembro de 2028.
A investigação é liderada pela Fundação Gaspar Frutuoso, tendo como investigadora responsável Célia Costa Gomes da Silva, da Faculdade de Ciências Agrárias e do Ambiente da Universidade dos Açores e do Instituto de Investigação em Tecnologias Agrárias e do Ambiente (IITAA). Participam igualmente na co-promoção a Associação Parque de Ciência e Tecnologia da Ilha Terceira — PCTTER/TERINOV e a empresa DOM Azores. O arranque público do SolFoodPack ocorreu em janeiro deste ano, numa sessão promovida pela Fundação Gaspar Frutuoso na Terceira para apresentar o projecto e o respectivo plano de trabalhos.
O objectivo declarado é particularmente concreto. A informação institucional do projeto refere que serão desenvolvidas “embalagens activas, seguras e sustentáveis” como alternativa aos polímeros sintéticos utilizados na conservação dos alimentos. O trabalho passa por aumentar a eficiência da produção de bacteriocinas, incorporá-las em filmes activos e combinar esse processo com a fermentação do soro de leite e materiais biodegradáveis. A aplicação prevista é expressamente o queijo, procurando substituir a utilização de plásticos.
As bacteriocinas estão, assim, no centro da investigação. Trata-se de péptidos produzidos por determinadas bactérias que podem apresentar atividade contra outros microrganismos. O trabalho é desenvolvido no campus de Angra do Heroísmo da Universidade dos Açores, sob orientação científica de Célia Silva.
É precisamente nesta combinação que o projeto ganha particular interesse para uma região fortemente ligada à produção de leite e de queijo. O soro resultante da transformação do leite deixa de ser encarado apenas como um subproduto e passa a ser utilizado como meio para cultivar bactérias capazes de produzir substâncias com interesse na conservação alimentar. O objectivo final não é simplesmente criar uma embalagem diferente, mas procurar que essa embalagem desempenhe também uma função activa na protecção do alimento contra microrganismos.
O financiamento publicado pela Fundação Gaspar Frutuoso permite igualmente perceber a dimensão do projecto. À própria fundação estão atribuídos 363.451 euros, dos quais 308.933,35 euros provenientes do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) e 54.517,65 euros de financiamento regional. Ao PCTTER correspondem 58.045 euros, repartidos entre 49.338,25 euros de FEDER e 8.706,75 euros de financiamento regional. A participação da DOM Azores soma 55.366 euros, incluindo 44.292,80 euros de FEDER e uma componente privada de 11.073,20 euros. A soma das parcelas publicadas é de 476.862 euros.
O SolFoodPack não parte, contudo, de uma folha em branco. A investigação realizada nos Açores sobre filmes e revestimentos antimicrobianos para queijo antecede o actual projeto e já produziu resultados laboratoriais relevantes. Esta distinção temporal é importante: esses trabalhos anteriores não são resultados do SolFoodPack, iniciado apenas em Dezembro de 2025, mas ajudam a perceber a base científica a partir da qual a nova investigação está a avançar.
Entre esses trabalhos encontra-se a tese de doutoramento de Sofia Patrícia Meneses da Silva, actualmente identificada pela Fundação Gaspar Frutuoso como técnica superior da equipa do SolFoodPack. A tese, na área de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores e defendida em janeiro de 2024, teve precisamente como objectivo desenvolver filmes e revestimentos comestíveis com propriedades antimicrobianas para conservação de queijo.
Num dos ensaios dessa investigação anterior, o soro de queijo fresco foi utilizado como substrato para cultivar bactérias produtoras de bacteriocinas. O soro fermentado foi depois incorporado em filmes de gelatina e glicerol testados contra a bactéria Listeria monocytogenes, um agente patogénico relevante na segurança alimentar. Segundo o repositório científico da Universidade dos Açores, os filmes conservaram atividade contra a Listeria durante 90 dias e, quando aplicados experimentalmente em queijo-modelo do tipo cheddar, reduziram a contaminação para níveis abaixo do limite de detecção após 20 ou 30 dias, consoante a formulação testada.
A mesma tese testou outra abordagem utilizando soro de queijo fermentado para produzir um filme de gelatina com propriedades antifúngicas. Uma bactéria isolada de queijo, a Levilactobacillus brevis SJC120, apresentou atividade contra cinco fungos filamentosos provenientes de queijos ou do ambiente de produção. O sobrenadante produzido pela bactéria reduziu o crescimento dos fungos em mais de 80% em laboratório e, nos testes realizados em queijo envolvido pelo filme, o tamanho das colónias fúngicas diminuiu entre 55% e 76%. Os resultados estão descritos no repositório institucional da Universidade dos Açores.
Há, entretanto, resultados científicos já directamente associados ao SolFoodPack. Em 30 de junho de 2026 foi publicado na revista científica Fermentation um trabalho de investigadores ligados à Universidade dos Açores que declara expressamente ter sido realizado no âmbito do projecto e identifica o mesmo código de operação, ACORES2030-FEDER-01908700. O estudo analisou seis bactérias do ácido láctico isoladas do Queijo São Jorge DOP, procurando determinar as suas características tecnológicas, antimicrobianas, de segurança e potencial probiótico.
Os resultados mostram actividade contra vários microrganismos associados à deterioração dos alimentos ou à segurança alimentar, incluindo Listeria monocytogenes, Escherichia coli, Salmonella enterica, espécies de Bacillus e fungos dos géneros Penicillium e Aspergillus.
Duas estirpes mereceram particular atenção. Os investigadores verificaram que os sobrenadantes neutralizados de Lacticaseibacillus paracasei SJC117 e Levilactobacillus brevis SJC120 conservaram actividade contra alguns dos microrganismos testados, levando os autores a apontar para a possível presença de substâncias inibidoras semelhantes a bacteriocinas. A SJC117 destacou-se especialmente pela combinação das características estudadas, sendo apontada como candidata promissora para aplicações de biopreservação de alimentos.
Isso não significa, contudo, que já exista uma nova embalagem açoriana pronta para utilização industrial. O próprio artigo científico mantém essa prudência. Os autores defendem a necessidade de validação adicional e avaliação genómica da segurança antes de uma eventual utilização industrial das estirpes estudadas. Há, por exemplo, padrões de resistência a alguns antibióticos que precisam de ser aprofundados para determinar a sua natureza e excluir riscos de transferência genética. A conclusão cientificamente segura, nesta fase, é portanto a existência de microrganismos promissores e de uma tecnologia em desenvolvimento, e não de um produto acabado disponível para o mercado.
Essa distinção é também importante para avaliar o potencial económico do SolFoodPack. A presença da DOM Azores no consórcio introduz uma componente empresarial num projecto liderado pela investigação científica, enquanto o TERINOV acrescenta a vertente de transferência de conhecimento e inovação. A Fundação Gaspar Frutuoso apresentou precisamente o SolFoodPack como um dos projectos desenvolvidos em copromoção com o sector empresarial regional, com o objectivo de reforçar a ligação entre investigação, inovação e aplicação do conhecimento.
O calendário confirma que existe ainda um percurso significativo pela frente. O projecto começou oficialmente em 1 de Dezembro de 2025 e termina apenas em 30 de Novembro de 2028.
A investigação decorre ainda num momento em que o quadro europeu das embalagens está a sofrer uma alteração profunda. O Regulamento (UE) 2025/40, relativo às embalagens e resíduos de embalagens, entrou em vigor em Fevereiro de 2025 e passou a ser aplicável, na generalidade, a partir de 12 de Agosto de 2026.
Este facto coloca a investigação açoriana num contexto europeu em que o modo como os alimentos são embalados e os resíduos de embalagem são geridos está sujeito a novas exigências.
O valor do SolFoodPack estará, por isso, na capacidade de ultrapassar a fase laboratorial. Há já investigação anterior da Universidade dos Açores que mostrou ser possível incorporar soro de leite fermentado e microrganismos em filmes com atividade contra bactérias e fungos; há agora um projecto financiado até 2028, com uma empresa no consórcio, destinado especificamente a aprofundar a produção de bacteriocinas e a desenvolver revestimentos para alimentos. A questão decisiva para os próximos anos será saber se essa sequência consegue chegar a uma solução tecnicamente segura, economicamente viável e utilizável pela indústria queijeira. Se isso acontecer, o projecto poderá ligar três problemas numa mesma cadeia: valorizar o soro gerado pela produção de queijo, recorrer a microrganismos associados aos próprios produtos lácteos açorianos para melhorar a conservação e reduzir a dependência de embalagens plásticas.
