O ONCOFUTURE4AZ é um projeto dedicado especificamente ao cancro colorretal e pretende testar nos Açores novas ferramentas de medicina personalizada, recorrendo à genética, inteligência artificial, análise do microbioma e caracterização molecular dos tumores. O objectivo é melhorar a prevenção, o diagnóstico e a definição das terapêuticas, embora várias das tecnologias envolvidas ainda se encontrem em fase de investigação e validação.
O projecto junta o Hospital do Divino Espírito Santo de Ponta Delgada (HDES) e o Centro de Oncologia dos Açores (COA) a instituições especializadas do continente, entre as quais o Instituto Português de Oncologia do Porto, o INESC TEC, o Gulbenkian Institute for Molecular Medicine e a IMP Diagnostics. Tem uma duração prevista de 36 meses, um custo total elegível de 482.220 euros e financiamento comunitário de 409.887 euros, correspondente a 85% do investimento, segundo a documentação oficial do Açores 2030.
A investigação parte de um problema concreto de saúde pública. O Rastreio Organizado do Cancro do Cólon e Reto nos Açores (ROCCRA) abrange cerca de 70 mil pessoas entre os 50 e os 74 anos, mas a taxa de participação continua reduzida. Em 2024 foram realizados 10.166 rastreios, correspondentes a uma participação de 26,4%, acima dos 19% registados em 2023, mas ainda longe da meta superior a 50% definida no Programa Regional de Combate às Doenças Oncológicas.
A documentação do projecto aponta para uma média de 90 a 100 novos casos de cancro colorretal por ano nos Açores, sendo cerca de 60 diagnosticados no HDES. É neste contexto que uma das principais linhas do ONCOFUTURE4AZ passa pela utilização do ColonFlag, um algoritmo de inteligência artificial que analisa dados demográficos e resultados de hemogramas para identificar pessoas com maior probabilidade de apresentarem risco acrescido.
O ColonFlag não faz o diagnóstico de cancro e não substitui os métodos de rastreio existentes. A sua função é sinalizar pessoas que poderão necessitar de investigação adicional. O Centro de Oncologia dos Açores já tinha iniciado a implementação desta tecnologia no âmbito do projecto Hospital Digital, financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência, sendo agora a sua utilização integrada numa investigação mais ampla sobre medicina personalizada.
Outra componente central é a análise genética dos tumores. O projecto prevê estudar alterações germinais, que podem estar associadas a predisposição hereditária, e mutações somáticas, adquiridas pelas células tumorais. Será utilizada sequenciação genética de nova geração para caracterizar o perfil molecular dos tumores e avaliar de que forma essa informação pode apoiar a escolha de tratamentos mais ajustados a cada doente.
A documentação do Açores 2030 estabelece como uma das metas tecnológicas a possibilidade de reduzir o tempo associado ao diagnóstico oncológico e ao perfil genético tumoral de seis meses para menos de uma semana. Trata-se, contudo, de um resultado esperado do projecto e não de uma melhoria já alcançada.
A inteligência artificial será também aplicada à análise de imagens histológicas. As lâminas dos tumores serão digitalizadas e estudadas através de algoritmos desenvolvidos com participação da IMP Diagnostics e do INESC TEC. Esta tecnologia está ainda em validação e não será utilizada no diagnóstico de rotina sem a necessária aprovação regulamentar.
O ONCOFUTURE4AZ vai igualmente estudar o microbioma intestinal e a possível relação entre bactérias presentes no intestino, hábitos alimentares, estilos de vida e cancro colorretal. Nesta componente participa o Gulbenkian Institute for Molecular Medicine. O objectivo é procurar biomarcadores que possam futuramente contribuir para estratégias de prevenção, rastreio ou acompanhamento dos doentes. Outra linha de investigação envolve o DNA tumoral circulante, pequenos fragmentos de material genético libertados pelos tumores e que podem estar presentes no sangue. O projecto prevê ainda avaliar a possibilidade de detectar material genético tumoral nas fezes, numa abordagem experimental semelhante ao conceito de “biópsia líquida”. Estas técnicas continuam em fase de estudo e não constituem, nesta altura, métodos clínicos de rotina nos Açores.
O consórcio pretende também criar um biobanco de cancro colorretal, reunindo informação genética, clínica e biológica que possa servir tanto a investigação futura como o desenvolvimento de novas abordagens assistenciais.
Na fase final do projecto deverá ser definida uma estratégia para a introdução do diagnóstico e tratamento personalizados dos doentes com cancro colorretal no Serviço Regional de Saúde. Está ainda prevista a elaboração de um plano que permita, posteriormente, avaliar a extensão da medicina personalizada a outras áreas oncológicas.
O ONCOFUTURE4AZ está, por isso, centrado no cancro do cólon e do reto e não abrange actualmente todos os tipos de cancro. O seu alcance dependerá dos resultados obtidos ao longo da investigação. Só depois da validação das diferentes tecnologias será possível avaliar se a genética, os algoritmos de inteligência artificial e as novas ferramentas moleculares podem traduzir-se em diagnósticos mais rápidos, tratamentos mais personalizados e melhores resultados para os doentes açorianos.
