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Rodapé – Estórias – A praga

Junho, foice em punho. Era esse mês dos mais alegres daquele lugar. O alvoroço com a chegada da debulhadora e da caldeira, a alegria da debulha do trigo e logo a azáfama das ceifas. Pelos dias, e ainda o sol mal espreitando, já havia campos ceifados. O chiar, lamentoso choro dos carros de bois virava hino, carroças em fila, quando encostando, o primeiro feixe era generosamente separado a um monte que depois de debulhado levado em festa ao padroeiro Santíssimo Salvador do Mundo. E, como por gárgulas, corria o trigo novo. A palha debitada em constante pressão, levada para fascais doirava os caminhos que se haviam de perfumar com o pão, a massa honrando o Padroeiro e o mais que saboroso pão de rala – escuro com cor achocolatada, que toda a garotada gulosamente comia e, sem cá saber das regras, graciosamente chamava, pão d`arral.
Mas, para que toda essa alegria se repetisse, por frios dias de janeiro, campos há muito lavrados, em merecido repouso e descanso, eram, se bem em árduo trabalho, riscados por ancinhos, transformados em gigantescas pautas de incontáveis linhas e, por sabidas mãos logo semeados que, para não comprometer a produção, por alguns dias vigiada a praga. Era essa tarefa feita por gente moça que a vida já os ia privando ou idosos que haviam colhido poucos frutos. Usavam reque-reques de cana ou usadas enxadas sem cabo, suspensas e percutidas, imitindo um tão estranho som que provavelmente registado no cosmos.
Um ativo agricultor com terras alugadas ao conde, e sempre bem amanhadas, contratou o Ti Majola para a tarefa, a vigia da praga – a passarada. Combinado o lugar e a fera[1], logo no domingo imediato, manhã cedo, e já cumprido o preceito na primeira, já se sabe, o agricultor logo se apressou a ir à terra, e quando ali chegou e transposta a cancela ficou para DEUS o levar… Caminhando, lá encontrou o Ti Majola, abrigado num canavial de fresca brisa do norte, com saca pelos ombros e outra nos joelhos, fumando tabaco caseiro, em folha de milho bem alisada com as costas da navalha e aceso com fuzil. O nosso agricultor dando a salvação exclamou:
– Ti Majola, Ti Majola, isso tá coalhada deles!…
Ti Majola com o dedo mínimo esborralhando a cinza do cigarro em e simultâneo olhando o além e o nosso agricultor, tomando um ar sério, grave e de responsabilidade lá disse:
– Eu já vi, eu já vi! Estou deixando ajuntá mais para espantá-los todos duma vez!
– Ti Majola! Os merres!…
A custo se levantou, olhando por cima do canavial aguçado às esparrelas, um horizonte que não lhe estava longe, e por ali andou, levantando a sua já enfraquecida voz, recordando pragas por outros já idos:

Ó vida, vida…
Ólaré estou louco,
Tanto morre quem tem muito
Como morre quem tem pouco!

O agricultor nem se zangou e, com nostalgia, recordando no largo da contrata do lugar aquele Ti Majola vigoroso, que nem precisava de dispor a jaqueta e enxada informando não contratado, no seu honesto trabalho, era dos primeiros a sair. Naquele maio seguinte, aquele campo que fora farta messe por obra do Ti Majola, engalanado no seu peruano verde, repleto de vigorosas hástias com pesadas espigas ondulando ao sabor das brisas, aguardando junho, para amadurecido e generosamente repetir a festa.
Infelizmente, nem todos a sentiam; gente de perto e de longe, e só DEUS sabendo da sua dor, percorriam restevas atrás de ceifeiros, colhendo espigas perdidas, as chamadas respigas, com as maunças transportadas à cabeça, para por uma só e magra vez, e na amargura, sentir o gosto do trigo novo. Muitas eram as carências, faltas, algumas o tempo ultrapassou, mas infelizmente outras vão surgindo e variando. Todos os tempos com seus flagelos, teimosamente se repetindo e voltando. Agora, o que de certo não voltará mais, e se fosse!? na modernidade, sem respigas e maunças, e para todos, a alegria do trigo novo.

E lembrando o Ti Majola
Com enxada por escola
Discreto e nada peco,
O argumento que empalhou
Bem o agricultor arrumou
Que o engoliu a seco.

[1] Corruptela de féria – pagamento dado a um trabalhador pelo seu dia de trabalho.

Laureano Almeida
Vila Alda, agosto 2026

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