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A mão que estrangula

“Será necessário em futuro que o aspeto técnico se sobreponha, por inúmeras vezes, ao político se quisermos ter nos Açores uma vida com o mínimo da qualidade que merecemos. A juventude será quem irá “pagar a conta”, com juros altíssimos, deste “banquete de pseudo-deuses” em que se tornou a atuação política deste governo nos Açores.”

“Tornamos possível o que parecia impossível”, foram textualmente as palavras do presidente do governo regional dos Açores, na Terinov na ilha Terceira, confirmando no imediato que eles “são a mão que agarra o futuro. Estas duas “magníficas” perólas de Bolieiro, de certeza inspiração do momento que decorria, levam-me a considerar o seguinte:
– Se foram “possíveis”, é sinal que “eles” não fizeram nada de extraordinário, enquadrando-se tudo na normalidade de atuação de políticos, consequentemente outro(s) qualquer(quaisquer) poderia(m) fazê-lo, de certeza mais e muito melhor, com todo o dinheiro – NOSSO, da República e Comunitário – que ao longo dos anos entrou no atualmente desfalcadíssimo erário público regional, consequência da péssima gestão político-financeira do governo regional e empresas públicas, principalmente a nível do que me começo a habitual a chamar à atuação da secretaria regional do “desgoverno” açoriano, tão massacrada por Duarte Freitas;
– Quanto à “mão que agarra o futuro” estou de acordo com José Bolieiro! Apenas de certeza que temos perceções muito diferentes do que neste caso “é agarrar”. Na minha opinião Bolieiro, quando afirma “agarrar o futuro”, deve querer enfatizar a possibilidade referida pelo próprio, ao vice-reizinho do seu governo, de vir novamente a ser presidente, desta vez, sem o partido “democrata cristão(?)” açoriano. Não acredito, porquanto nem eleições ganhará, quanto mais maiorias! Estaremos cá para ver!
No entanto a minha interpretação é diferente da de Bolieiro: refere-se, de certo, à mão que em termos de futuro conseguiu invalidar o mesmo no que respeita os nossos jovens, a possibilidade dos idosos (eu incluído) termos um resto de vida digna, da estabilidade nos valores do emprego no período post-PRR, por falta de dinheiro para investimentos volumosos, da enorme certeza de “encher” o saldo negativo do erário pública regional, nomeadamente pelas obrigações financeiras que vão ser “herdadas”, provenientes das privatizações da Sata e outras empresas públicas, etc… Diria que a frase proferida por Bolieiro ficaria atualizada e correta se fosse: “a mão que agarra o futuro, ESTRANGULANDO cada cidadão nos Açores”.
Mais dois anos de bolieirismo – entendido como a “nobre arte” de Bolieiro fazer politica e (des)governar – a vivermos com a noção de estar a fazer o “impossível” e de “agarrar o futuro”, como oferta do presidente do governo regional, irá sem dúvida comprometer o futuro, como não me cansarei de referir, nos aspetos social, económico, financeiro, demográfico, pessoal e familiar dos residentes no arquipélago. Infelizmente só Bolieiro e o seu séquito não vê a situação cada vez mais degradada em que se vive ou no mínimo, assobiando para o lado, tenta disfarçar o evidente.
Estamos à beira de algo, que a prolongar-se por mais algum tempo, culminará numa situação, não direi de não retorno pois os “estados/regiões” não vão à falência, mas que será extremamente difícil de recuperar. Quem vier a seguir a Bolieiro deverá reunir, não só politicamente mas principalmente tecnicamente, pessoas idóneas com elevada qualidade de conhecimentos, o que necessariamente é um deserto neste governo.
Será necessário em futuro que o aspeto técnico se sobreponha, por inúmeras vezes, ao político se quisermos ter nos Açores uma vida com o mínimo da qualidade que merecemos. A juventude será quem irá “pagar a conta”, com juros altíssimos, deste “banquete de pseudo-deuses” em que se tornou a atuação politica deste governo nos Açores.
Tenho a certeza de que Bolieiro já está em pré-campanha. Não só com as numerosas inaugurações que ocorreram e são publicitadas pelo governo regional, com afirmações públicas e constantes do presidente do governo a enaltecer-se, com as necessárias e inesquecíveis fotografias para a posterioridade, como é o caso com as numerosas ocasiões de entregas das há muito tempo necessárias viaturas a bombeiros, IPSS’s e forças da ordem, conjuntamente com alguns “remendos” em centros de saúde e a instalação de novos e urgentes, de há anos, equipamentos no setor de saúde.
A inauguração de estradas/estraditas e rotundas, por exemplo, é sem dúvida obra de realce. São os investimentos em infraestruturas, que mais exibem e de que o povo tem maior sensação de obra feita. Por serem todos casos semelhantes “olhemos” a última obra, no Faial, tão referida por Bolieiro. Para um total de 3,5 quilómetros executados foram gastos 14,9 milhões de euros, com duas passagens – uma inferior e outra superior – e quatro rotundas (nas palavras de Bolieiro, possivelmente para valorizar as obras, as mesmas são denominadas “interseções giratórias”; ao que isto chegou!) com ciclovia e passeios. Quer isto dizer que em média foram gastos 4,3 milhões de euros por quilómetro executado e igualmente existe uma “interseção giratória” em cada 875 metros. Imagino-me, na minha idade, tonto de conduzir só de “andar às voltas”, em tanta rotunda em tão pouco espaço de estrada.
Tenho uma sugestão, que admito ser bem intencionada, relativamente a todas as obras idênticas feitas na Região. Coloquem uns “piquenos”, como se fez no passado para efetuar estudos sérios sobre circulação viária, em pontos nevrálgicos dos acessos/saídas destas vias (rotundas incluídas) e recolham informação sobre o trafego em dias úteis e fins de semana, durante o dia e a noite.
Publiquem os resultados da recolha de informação de alguns meses, para sabermos da rentabilidade dos projetos. Claro deixem passar o período de entusiasmo natural pela existência da nova estrada. Assim saberemos se sim ou não “valeu o investimento”. Vamos a isso? Admito que não!
Embora seja impossível a comparação, mas para animar Bolieiro e o governo, sugiro façam a mesma recolha quando finalizarem a obra viária entre Ponta Delgada e Capelas. Não afirmo que as populações das outras ilhas não merecem investimentos rodoviários ou outros. Estou a salientar, por exemplo, a razão da recusa dos habitantes do Pico ao se expressarem dando preferência a que se refizesse o pavimento de algumas estradas esburacadas, de há alguns anos, ou mesmo a relutância de alguns faialense em que se executasse a obra atual.
Inimaginável, como algo que ultrapassa os limites da realidade comum, a afirmação de Bolieiro aquando da inauguração da obra no Faial ao “repudiar o egoísmo” daqueles que tentaram impedir a realização da obra da variante. De certo Bolieiro não conhece a famosa obra de Eça de Queirós, quando nos Maias (1888) refere que “O egoísmo é a base de toda a sociedade”.
Seria interessante saber a razão de tal! Será porque existem imensos casos de expropriações por resolver e se encontram em tribunal? Porque o traçado não mereceu a unânime aprovação da população? Por existir “interseções giratórias” a mais? Por existirem lesados? Ou porque…
Será que cada um de nós, como cidadãos com plenos direitos, ao fim de mais de cinquenta anos sobre uma revolução em que, entre outras coisas importantíssimas, a liberdade de expressão verbal e escrita foram recuperadas, não pode – porque se trata de uma obra executada por Bolieiro – expressar a sua livre opinião? A opinião, correta ou errada, de cada cidadão tem de ser considerada, competindo aos governantes mostrar o oposto de modo fundamentado. Para isso têm que vir a público, coisa que raras vezes fazem, mostrar o contraditório. Ou não?

J. Rosa Nunes
Prof. Doutor

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