Um estudo desenvolvido por investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa traçou uma caracterização tridimensional dos vórtices de mesoescala que se formam ou atravessam o corredor da Corrente dos Açores, mostrando que a influência destas estruturas sobre a temperatura e a salinidade da água se prolonga desde a superfície até pelo menos 1.500 dbar, aproximadamente 1.500 metros de profundidade. O trabalho foi publicado a 28 de Agosto de 2026 na revista científica Ocean Science.
A investigação, da autoria de Susana M. Silva-Fernandes e Álvaro J. Peliz, ambos do Instituto Dom Luiz, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, combinou observações recolhidas por flutuadores Argo com dados de altimetria por satélite e trajectórias de vórtices ao longo de duas décadas. O objectivo foi perceber como estas estruturas oceânicas se organizam verticalmente e de que forma alteram as propriedades da coluna de água no chamado corredor da Corrente dos Açores.
Os investigadores partiram de 20.997 perfis individuais Argo recolhidos entre 2000 e 2020 na área estudada. Depois da aplicação de critérios de qualidade e cobertura vertical, foram utilizados 10.034 perfis, correspondentes a 48% do conjunto inicial. Estes dados foram cruzados com mapas de topografia dinâmica absoluta e com um atlas de trajectórias de vórtices, recorrendo a informação de altimetria compreendida também entre 2000 e 2020
No corredor da Corrente dos Açores foram analisados 617 vórtices anticiclónicos e 593 ciclónicos. Os primeiros apresentam, de uma forma geral, núcleos mais quentes e salgados, enquanto os ciclónicos se caracterizam por águas mais frias e menos salgadas. O estudo identifica ainda diferenças acentuadas ao longo do corredor oceânico, sobretudo entre as zonas situadas a leste e a oeste da Dorsal Mesoatlântica.
As anomalias de temperatura e salinidade tornam-se mais intensas de leste para oeste. Segundo os autores, os máximos de anomalia térmica passam de valores da ordem dos 0,5 graus Celsius para mais de 1,5 graus, enquanto as diferenças de salinidade aumentam aproximadamente de 0,1 para valores superiores a 0,2. Ao mesmo tempo, os núcleos destas estruturas aprofundam-se, passando de cerca de 250 dbar nas áreas orientais para aproximadamente 750 dbar nas regiões mais ocidentais.
Esta diferença é associada à própria origem dos vórtices. A leste da Dorsal Mesoatlântica predominam estruturas geradas mais localmente, enquanto no sector ocidental existe uma influência mais forte de vórtices provenientes de outras regiões, incluindo estruturas relacionadas com ramificações da Corrente do Golfo. O resultado é um regime mais energético e com anomalias de maior intensidade a oeste.
Um dos principais resultados do trabalho está relacionado com o mecanismo responsável pela redistribuição de calor e sal. A análise mostra que predomina o chamado deslocamento vertical das superfícies de igual densidade da água, processo designado no estudo por heave, associado ao bombeamento provocado pelos vórtices. A contribuição decorrente do transporte de diferentes massas de água ao longo dessas superfícies, designada spice, revelou-se comparativamente menor e mais concentrada nas camadas superiores, sobretudo nos primeiros 250 dbar a leste da Dorsal Mesoatlântica.
Nos vórtices anticiclónicos, o movimento descendente das superfícies de igual densidade gera anomalias de água mais quente e salgada. Nos ciclónicos verifica-se o processo inverso, com a elevação dessas superfícies e a formação de núcleos mais frios e menos salgados. Os investigadores concluem, por isso, que a redistribuição das propriedades térmicas e de salinidade no corredor da Corrente dos Açores resulta sobretudo destes movimentos verticais e não do transporte lateral de massas de água.
A influência dos vórtices não se limita às camadas superficiais. O sinal do deslocamento vertical mantém-se aos 1.500 dbar e os autores admitem que estas estruturas possam atingir profundidades ainda superiores. No sector ocidental, os vórtices apresentam uma estrutura particularmente profunda e energética, podendo redistribuir propriedades físicas ao longo de uma parcela considerável da coluna de água.
O estudo assinala também possíveis consequências para os processos de transporte vertical de nutrientes. Os vórtices ciclónicos, ao favorecerem a subida de águas mais frias provenientes de maior profundidade, poderão facilitar o transporte ascendente de águas ricas em nutrientes, enquanto os anticiclónicos promovem movimentos descendentes e a subducção de águas superficiais. Os próprios autores apresentam este efeito como uma implicação provável dos mecanismos físicos observados, e não como uma medição directa da produtividade biológica.
Nesse sentido, o trabalho permite melhorar o conhecimento sobre a circulação oceânica e sobre a redistribuição vertical de propriedades físico-químicas no corredor da Corrente dos Açores, mas não estudou directamente os efeitos sobre populações de peixes, capturas ou actividade pesqueira. Qualquer relação com a produtividade marinha ou com os recursos pesqueiros terá, por isso, de ser avaliada por investigação especificamente dirigida a essas componentes.
