A arqueologia é uma paixão antiga que me acompanha desde cedo. Vem dos livros, do imaginário e da história das ilhas onde cresci e vivi, cheias de coisas para nos contar. Em Angra do Heroísmo, reencontrei-me com essa ideia do património arqueológico, enquanto cidade reconhecida pela UNESCO. E foi aqui que conheci o Pedro Parreira – figura pública recente.
Nunca trabalhámos juntos, mas acompanhei algumas das suas palestras e artigos científicos, como parte da equipa da Direcção Regional da Cultura, com uma voz activa presencialmente, bastante mais escondida publicamente. Do que conheci dele, enquanto arqueólogo, encontrei sempre ideias interessantes, que já partilhou em diversos encontros. Como pessoa, tenho-o como amigo, mesmo que não nos vejamos muitas vezes. E tenho-o, também, como um homem sem cartão partidário, não tendo memória de o ver a fazer campanha por X, Y ou Z (para além do Manuel João Vieira nas últimas presidenciais).
Leio, nas suas redes sociais, palavras a favor da justiça e da dignidade humana, que deveriam ser os mínimos do bom senso, mas que, nos dias que correm, já são qualidades a assinalar.
Isto tudo a respeito da nomeação de Pedro Parreira para coordenar a Estrutura de Missão para as comemorações dos 600 anos dos Açores, anunciada no final da semana passada, após aprovação do Governo de Bolieiro. Não sei quem o escolheu, mas, depreendo pela defesa pública feita pelo Secretário dos Assuntos Parlamentares, na sua página pessoal de Facebook, por Pedro ser um profissional jovem, deduzo que tenha sido proposta sua.
Tenho pensado nesta nomeação porque gosto de arqueologia, porque aprecio o trabalho do Pedro e porque estarei particularmente atenta a esta Estrutura de Missão. Tenho reflectido, dentro da minha disponibilidade emocional, sobre as escolhas que vão sendo feitas em torno deste assunto, nem sempre sensatas.
Leio críticas, legítimas, pelo facto de este projeto estar sob a tutela do Secretário em questão. Tive e tenho muitas divergências políticas com Paulo Estêvão e continuarei a vir a público quando discordar dos humores do reino. No entanto, uma comemoração destas não me parece mal atribuída a uma Secretaria como a dele, desde que a mesma saiba fazê-la com todas e todos nós, e, acima de tudo, com transparência em todos os contextos que envolvem esta celebração.
Incomoda-me, acima de tudo, que estejamos já a desconsiderar quem não se conhece. Do que li, a escolha de Pedro Parreira (filho dos “Parreiras pobres da Ribeirinha”, como tantas vezes, e com orgulho, escreve) foi feita pelo seu mérito profissional, e há que reconhecer que não é normal, num Governo, muito menos de direita, a escolha de uma pessoa sem ligações partidárias para um cargo que, em qualquer outra parte do mundo, seria feito à medida para uma carcaça política. Veja-se Montenegro e a sua escolha de Paulo Portas para os 900 anos de Portugal.
Para além de todo o trabalho pessoal e profissional, Pedro Parreira abraçou este projeto por acreditar nesta ideia de Açores que completará 600 anos.
Não creio que será uma comemoração perfeita. Não me deixo enganar por cantos de sereia. Assumo que não teria a sua coragem. Mas conheço a sua determinação e a sua dedicação à história, como parte integrante do passado, presente e futuro.
Pedro, que o teu pai viva para assistir ao fruto do trabalho do filho.
Alexandra Manes