A chegada aos Açores de dois cabos submarinos transatlânticos da Google entra agora numa nova fase, com os projectos NUVEM e SOL sujeitos a consulta pública para utilização do espaço marítimo regional. O processo administrativo surge depois de cerca de dois anos em que a opção da tecnológica norte-americana pela Região foi sendo apresentada publicamente como uma oportunidade para reforçar a posição dos Açores nas comunicações digitais entre a Europa e a América do Norte.
O primeiro passo foi dado pela Google em 25 de Setembro de 2023, quando anunciou o sistema NUVEM, destinado a ligar Portugal, as Bermudas e os Estados Unidos. Nesse anúncio inicial, a tecnológica não referia ainda os Açores como ponto de amarração: identificava Portugal, as Bermudas e a Carolina do Sul e apontava a entrada em serviço para 2026, associando o investimento ao aumento da capacidade, da fiabilidade e da diversidade das rotas transatlânticas.
A ligação açoriana tornou-se pública posteriormente. Em junho de 2024, a própria Google Cloud revelou que estava a trabalhar com o Governo Regional dos Açores para estender o NUVEM ao arquipélago. A opção ganhou então dimensão política regional: em 23 de Julho, o Conselho do Governo reconheceu como de relevante interesse público o projeto de ligação directa dos Açores ao sistema principal, através de São Miguel, e três dias depois, a 26 de julho de 2024, o projeto foi apresentado publicamente em Ponta Delgada, com a presença do director-geral da Google Portugal.
Nessa apresentação, José Manuel Bolieiro classificou o NUVEM como um “projeto de futuro” com “centralidade” nos Açores e revelou que as negociações com a Google tinham decorrido até então sob sigilo. O Presidente do Governo Regional enquadrou a escolha da Região na posição geográfica dos Açores no Atlântico e na estratégia de afirmação do arquipélago como ponto de ligação entre continentes.
Menos de um ano depois, a estratégia ganhou uma segunda infraestrutura. A 9 de Julho de 2025, a Google anunciou oficialmente o SOL, um novo cabo entre os Estados Unidos, as Bermudas, os Açores e Espanha. Desta vez, a passagem e amarração no arquipélago fizeram parte do anúncio desde o primeiro momento. A própria Google apresentou o SOL como complementar ao NUVEM e afirmou que os dois sistemas formariam uma solução de “resiliência transatlântica”, interligada em terra nos Estados Unidos e na Península Ibérica e também nas Bermudas e nos Açores.
No mesmo dia, o Governo Regional voltou a atribuir uma dimensão estratégica à decisão. Artur Lima considerou que o segundo investimento confirmava a visão dos Açores como um “hub” de conectividade digital da Europa e do Atlântico Norte e defendeu que a amarração dos dois cabos poderia criar novas oportunidades económicas e tecnológicas. O executivo regional associou NUVEM e SOL ao aumento da conectividade, da capacidade e da resiliência das redes.
É neste contexto que os dois projectos chegam agora à fase de consulta pública. As expectativas políticas e económicas colocadas sobre NUVEM e SOL são elevadas, mas os próprios documentos de licenciamento apresentam esses efeitos essencialmente como benefícios potenciais. Os promotores associam as novas ligações à diversificação das rotas atlânticas, redução da dependência de um número limitado de infraestruturas, maior redundância das comunicações e aumento da atractividade dos Açores para actividades ligadas às tecnologias, centros de dados, economia digital e ciência.
As expectativas em torno dos dois cabos vão, porém, para além do aumento da capacidade das telecomunicações. A presença da Google nos Açores já está associada a um investimento físico próprio em São Miguel: a multinacional vai instalar-se no Lote 32 B do Tecnoparque da Lagoa, numa área de cerca de 15 mil metros quadrados, onde está prevista a construção de um edifício de telecomunicações que incluirá a estação de recepção dos cabos NUVEM e SOL. A infraestrutura concretiza uma presença empresarial da Google na Região que o Governo Regional e a Câmara da Lagoa associam ao potencial de atracção de empresas tecnológicas, investimento e actividades ligadas à economia digital.
NUVEM liga São Miguel directamente ao sistema entre Sines e os Estados Unidos
O primeiro processo colocado em consulta pública é o do ramal de São Miguel do NUVEM. O edital da Direcção Regional de Políticas Marítimas (DRPM), datado de 25 de Agosto, estabelece uma consulta de 15 dias úteis, entre 2 e 22 de Setembro de 2026. O pedido foi apresentado pela Sailfish Infrastructure, Unipessoal, Lda., e destina-se à instalação e exploração do cabo de fibra óptica que fará a ligação entre o sistema transatlântico NUVEM e São Miguel. O título pedido é uma concessão por 25 anos.
O NUVEM liga Sines a Myrtle Beach, na Carolina do Sul, dispondo também de ligação às Bermudas. O procedimento açoriano agora em consulta não abrange o tronco principal do sistema que atravessa a subdivisão dos Açores, porque essa componente já está coberta por outro TUPEM (Título de Utilização Privativa do Espaço Marítimo Nacional). O pedido actual refere-se exclusivamente ao ramal entre a Unidade de Derivação 1, ou BU1, e a zona de aterragem em São Miguel, numa extensão total estimada de 175,17 quilómetros.
O trajecto compreende 21,061 quilómetros em águas interiores marítimas, 23,854 quilómetros no Mar Territorial e 130,259 quilómetros na Zona Económica Exclusiva dos Açores. A soma é de 175,174 quilómetros.
A BU1 do NUVEM já está instalada nas águas dos Açores, encontrando-se preparada para receber o futuro ramal destinado a São Miguel. O cabo chegará à Praia do Pópulo, onde será feita a transição para a infraestrutura terrestre através de uma caixa de visita, ou Beach Manhole.
A maior parte do percurso será feita com o cabo colocado directamente sobre o leito do mar, acompanhando a topografia do fundo. Os documentos referem que a instalação deve deixar folga suficiente para evitar suspensões do cabo.
Na componente ambiental, o estudo entregue pelo promotor sustenta que o ramal NUVEM não se sobrepõe nem se situa nas proximidades de áreas marinhas protegidas, em vigor ou propostas, e que não atravessa sítios da Rede Natura 2000. A documentação refere igualmente não terem sido identificados no trajecto habitats ameaçados classificados ao abrigo da Convenção OSPAR. Estas conclusões correspondem à avaliação apresentada pelo promotor no processo.
SOL terá mais
de 1.500 quilómetros
em águas associadas aos Açores
O SOL surge cronologicamente depois do NUVEM e terá uma presença bastante mais extensa no espaço marítimo associado ao arquipélago. O edital da DRPM é datado de 26 de Agosto de 2026 e estabelece uma consulta pública de 15 dias úteis, entre 3 e 23 de Setembro. Também aqui está em causa uma concessão por 25 anos.
O sistema ligará Santander, no norte de Espanha, à costa leste dos Estados Unidos, na Florida, com pontos de aterragem nas Bermudas e em São Miguel. Ao contrário do procedimento do NUVEM, a consulta do SOL abrange simultaneamente o tronco principal que atravessa a subdivisão dos Açores e o ramal de ligação à ilha.
O edital fixa uma extensão total estimada de 1.543,58 quilómetros, dos quais 1.231,07 quilómetros correspondem ao tronco principal e 312,52 quilómetros ao ramal para São Miguel.
No conjunto da rota transatlântica, o Sistema SOL terá um comprimento proposto de cerca de 8.015 quilómetros. A documentação técnica prevê a instalação, nas águas dos Açores, de uma nova unidade de derivação BU1, a partir da qual sairá o ramal de aproximadamente 312,5 quilómetros para a Praia do Pópulo. Ao contrário do NUVEM, cuja unidade de derivação já está instalada, a BU1 do SOL é ainda uma infraestrutura prevista no projeto.
Também no SOL a instalação oceânica será feita essencialmente através do assentamento do cabo sobre o fundo, recorrendo a diferentes níveis de protecção e armadura consoante a profundidade, as características do leito marinho e os riscos de abrasão ou agressão externa.
A análise ambiental apresentada para o SOL revela, porém, uma situação distinta da do NUVEM. A rota atravessa duas Áreas Marinhas Protegidas de nível de protecção elevado, a AMP 20 ( Açores Oeste) e a AMP 25 (Gigante), e passa na proximidade da AMP 24 (D. Diogo de Teive), que tem nível de protecção total. Nos troços sujeitos a protecção elevada, os documentos indicam que o cabo será colocado sobre o fundo sem operações de limpeza, enterramento ou fixação, ficando qualquer utilização de estruturas dependente de aprovação da autoridade regional competente.
O estudo refere também que o SOL não atravessa sítios da Rede Natura 2000. Junto de São Miguel, o ramal atravessa no fundo marinho cerca de 11,7 quilómetros da Área Importante para as Aves marinhas de São Miguel. A avaliação do promotor sustenta que, por não estar previsto enterramento ou sulcagem nesse troço e pela curta duração das operações à superfície, não são esperadas perturbações significativas sobre as aves.
Mais de dois anos depois do primeiro anúncio público do NUVEM e cerca de um ano após a apresentação do SOL, os dois projectos passam assim do plano estratégico para a fase concreta de licenciamento da sua presença no espaço marítimo dos Açores. Se forem concretizados nos termos apresentados, São Miguel passará a estar ligado directamente a dois sistemas transatlânticos independentes da Google, com percursos distintos entre a Europa e os Estados Unidos, uma configuração que tanto a empresa como o Governo Regional associam ao reforço da redundância, da resiliência e da importância dos Açores nas comunicações digitais do Atlântico Norte.
