Há uma espécie de decoração permanente nas nossas estradas, curvas, rotundas e estradinhas: cartazes políticos. Uns maiores, outros mais modestos, quase todos acompanhados por slogans parolos, promessas estapafúrdias e pelas inevitáveis fuças dos mui dignos políticos do burgo. Tudo solene, tudo muito profundo, tudo muito convencido da sua importância.
Pensava eu, ingénuo, que o cidadão só tinha de levar com este espetáculo em período eleitoral. Afinal, não. A campanha tornou-se profissão a tempo inteiro. Ao longo de todo o ano somos brindados com fotografias escolhidas, frases feitas e proclamações, como se cada rotunda fosse uma tribuna e cada berma extensão do palco partidário.
O problema não é apenas político. É também estético e civilizacional. Os Açores vendem-se ao mundo como destino de natureza, de paisagens imaculadas, de horizontes limpos e de autenticidade. Depois, quem chega encontra um estendal de publicidade, onde a propaganda política também marca presença. É uma contradição: promove-se o paraíso e oferece-se poluição visual.
Os turistas devem imaginar que tiveram o azar ou a sorte (dependendo do gosto) de aterrar em plena campanha eleitoral. Mas não. Por estas bandas, a campanha é uma estação do ano que dura doze meses. Mudam as chuvas, mudam os ventos, passam as festas e as procissões, mas os cartazes resistem, estoicamente agarrados às bermas.
Entretanto, o cidadão vai conduzindo e contemplando esta galeria ao ar livre, sem ter pedido bilhete para a exposição. Num arquipélago que vive da sua paisagem e que gasta dinheiro a promovê-la mundo fora, talvez fosse sensato começar por não a transformar num gigantesco placard partidário.
A democracia precisa de ideias, de confronto político, de propostas e de escrutínio. Não precisa que cada curva tenha um candidato, cada rotunda um slogan e cada poste uma promessa vazia.
Talvez seja pedir muito aos senhores do burgo, mas poderiam começar por uma pequena revolução: guardar as vossas fuças larocas durante alguns meses e deixar-nos simplesmente ver os Açores.
Já seria um extraordinário contributo para a paisagem e para mantermos a mente sã.
Conde da Musgueira*
*Capitão Donatário da Bananalândia