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Tecnologia 3D vai mapear pressão sobre as lapas e ajudar a gerir apanha nos Açores

Projecto COLAPA-3D dispõe de 201 mil euros para combinar fotogrametria, reconstrução tridimensional da costa
e conhecimento dos apanhadores. A investigação avança num momento em que a monitorização científica
não aponta para uma quebra generalizada das populações no arquipélago, mas identificou nas Flores
uma diminuição significativa da biomassa de lapa-brava entre 2022 e 2025

As lapas dos Açores vão ser observadas através de modelos tridimensionais da costa capazes de ajudar a perceber onde se concentram as populações, que zonas estão sujeitas a maior pressão e quais poderão exigir cuidados especiais de gestão.
É esse o objectivo central do COLAPA-3D — Cogestão Local das Lapas com Apoio de Tecnologia 3D e Saberes Tradicionais, projecto iniciado em Abril deste ano que junta tecnologia, conhecimento científico e experiência dos apanhadores.
O projecto surge num momento oportuno. Informação científica conhecida este verão através de uma resposta do Governo Regional ao parlamento não aponta para um declínio generalizado da lapa-brava, mas identificou um sinal que merece acompanhamento: entre 2022 e 2025 foi observada uma diminuição significativa da biomassa na ilha das Flores.
Os resultados não permitem concluir que as populações estejam em colapso nos Açores. Em termos gerais, a monitorização não encontrou diferenças significativas entre 2022 e 2025, sendo as Flores a excepção relevante.
O assunto chegou à Assembleia Legislativa depois de o grupo parlamentar do Chega apresentar o Requerimento n.º 727/XIII, sobre o “Estado dos stocks de lapa nos Açores e medidas de gestão e fiscalização”.
A informação remetida pelo Governo baseava-se, designadamente, na avaliação dos recursos pesqueiros costeiros produzida no âmbito do Programa de Monitorização de Recursos e Ambientes Costeiros dos Açores (MoniCO).
A leitura destes dados exige cautela. Depois da divulgação da resposta parlamentar, a Secretaria Regional do Mar e das Pescas publicou, a 7 de Agosto, uma nota de esclarecimento para corrigir uma interpretação reproduzida numa notícia. O Governo esclareceu que a informação referia a existência de populações de juvenis, indivíduos que ainda não atingiram a maturidade sexual, e não situações reportadas de apanha de lapas juvenis. A correcção não alterou a conclusão relativa à evolução da biomassa nas Flores.

Monitorização percorre
as nove ilhas

O acompanhamento das lapas não começou com o COLAPA-3D. O MoniCO é das principais estruturas científicas utilizadas para acompanhar recursos e habitats costeiros no arquipélago.
O programa integra a estratégia oficial portuguesa de monitorização do meio marinho e procura colmatar lacunas de informação sobre espécies e ecossistemas costeiros dos Açores. Entre os seus módulos existe uma componente dedicada à apanha, baseada em tronsectos usados para contar e recolher lapas através de metodologias independentes da actividade comercial.
Essa independência permite observar directamente as populações no habitat, em vez de avaliar o recurso apenas pelas quantidades que chegam à lota, sujeitas a variações no número de apanhadores, condições do mar, preços ou intensidade da atividade.
Em 2025, as equipas do MoniCO realizaram nova campanha de amostragem em todas as ilhas. Segundo o Instituto de Investigação em Ciências do Mar OKEANOS, foram fotografadas, medidas e pesadas lapas-bravas e lapas-mansas e recolhidas amostras, para actualizar a informação sobre abundância, distribuição e características das populações.
O MoniCO é financiado pelo Governo Regional através da Direcção Regional das Pescas e coordenado cientificamente pelo OKEANOS, da Universidade dos Açores.
Documentação oficial da Região recorda que a intensa exploração para consumo próprio e comercial conduziu no passado ao quase desaparecimento das lapas em algumas ilhas. A situação levou à proibição da apanha nos grupos Oriental e Central; as populações recuperaram e a interdição foi levantada em 1993, mantendo-se desde então diferentes restrições.
O Regulamento da Apanha voltou a ser modificado este Verão pela Portaria n.º 78/2026, publicada no Jornal Oficial dos Açores em 10 de Julho, constituindo a sexta alteração à Portaria n.º 57/2018.
Legislação e fiscalização são, contudo, apenas parte da gestão. Para decidir onde uma população está mais pressionada, onde existem melhores condições de recrutamento ou onde uma reserva pode ser mais eficaz é necessário conhecer a distribuição do recurso a uma escala mais fina. É aí que entra o COLAPA-3D.

Uma réplica digital
das zonas de apanha

O projecto começou oficialmente a 1 de Abril de 2026 e prolonga-se até 31 de Março de 2028. Dispõe de um financiamento total de 201.084,98 euros.
A maior parcela, 140.759,49 euros, correspondente a 70%, provém do MAR 2030. Os restantes 60.325,49 euros, equivalentes a 30%, são assegurados pelo PRO-SCIENTIA através do Orçamento da Região Autónoma dos Açores. A Fundação Gaspar Frutuoso é a entidade beneficiária principal e Ualerson Iran Peixoto da Silva o investigador responsável, estando o projecto associado ao OKEANOS.
A ideia central é aplicar fotogrametria e reconstrução tridimensional às zonas onde as lapas vivem e são apanhadas. A técnica utiliza fotografias do mesmo espaço, captadas de diferentes ângulos, para reconstruir digitalmente a superfície com elevado detalhe.
A descrição oficial estabelece quatro aspectos relevantes: identificar padrões espaciais e populacionais, reconhecer áreas sensíveis, localizar zonas de maior pressão extractiva e usar essa informação para apoiar medidas de ordenamento e boas práticas de apanha.
A tecnologia 3D não serve apenas para produzir imagens mais sofisticadas. O objectivo é transformá-las num instrumento de gestão. Se os modelos permitirem identificar zonas de maior abundância, estruturas populacionais importantes ou áreas submetidas a maior pressão, a gestão poderá trabalhar com informação espacial mais detalhada.

Apanhadores entram
no modelo de gestão

O COLAPA-3D não pretende que os investigadores produzam os resultados e que os apanhadores apenas conheçam as conclusões no final. A ficha oficial estabelece que deverão ser co-desenhadas com os apanhadores e entidades gestoras medidas de ordenamento e boas práticas.
O conhecimento de quem percorre regularmente a costa passa, assim, a fazer parte do projecto. Um apanhador que trabalha durante anos numa zona acumula informação sobre locais onde o recurso é mais abundante, períodos de maior produtividade, alterações observadas ao longo do tempo ou dificuldades de acesso que dificilmente constam de uma base de dados.
O COLAPA-3D pretende cruzar esse conhecimento ecológico local com a informação produzida pelos métodos científicos e modelos digitais.
A Fundação Gaspar Frutuoso define como objectivo final o desenvolvimento e teste de um modelo de monitorização e co-gestão local da apanha, envolvendo os utilizadores do recurso na construção de soluções.
A execução avançou. A Fundação Gaspar Frutuoso abriu entre Abril e Julho procedimentos de recrutamento de investigadores e técnicos, incluindo profissionais de biologia marinha, especificamente para o COLAPA-3D.

O trabalho deverá prolongar-se
até Março de 2028

Até lá, a ciência disponível recomenda uma leitura sem simplificações. Não existe evidência, nos dados agora conhecidos, de um colapso generalizado das populações de lapa-brava nos Açores. Existe um historial de exploração excessiva, uma monitorização que encontrou nas Flores uma evolução que merece acompanhamento e uma actividade económica e cultural cuja sustentabilidade depende da conservação do recurso.
O COLAPA-3D tenta acrescentar uma nova peça a essa gestão. Depois de décadas em que a protecção das lapas assentou sobretudo em defesos, limites de captura, tamanhos mínimos, reservas e fiscalização, a próxima etapa poderá passar por saber com maior precisão onde estão as lapas, como se distribuem e onde a pressão sobre elas é maior.
E, desta vez, construir parte das respostas com quem as apanha.

*[email protected]

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