Os Açores projectam-se como um destino de natureza, tranquilidade e bem-estar. Mas a abundância de paisagem natural não significa, por si só, ausência de ruído nem garante um ambiente acusticamente saudável. É precisamente essa relação entre natureza, poluição sonora e saúde física e mental que o projecto QuietNature vai estudar no arquipélago, procurando perceber como diferentes ambientes sonoros afectam o organismo e a mente.
Os efeitos que os ambientes naturais, o ruído e a coexistência entre natureza e urbanização podem ter na saúde física e mental vão ser estudados nos Açores através do projecto QuietNature, uma investigação que junta Psicologia e Neurociências e procura perceber até que ponto o contacto com a natureza produz efeitos restauradores e de que forma estes podem ser condicionados pela poluição sonora.
Oficialmente designado “Natureza calma? O impacto da poluição sonora num destino de natureza”, o projeto arrancou em março deste ano e deverá prolongar-se até Fevereiro de 2029. É desenvolvido com a Fundação Gaspar Frutuoso como entidade beneficiária principal, está ligado à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade dos Açores e ao Centro de Estudos Humanísticos e tem como investigadora responsável Ana Catarina Macedo Mendonça.
A investigação parte de uma questão particularmente relevante num arquipélago cuja imagem turística está profundamente associada à natureza: estar num ambiente natural significa necessariamente estar num ambiente acusticamente favorável ao bem-estar?
O QuietNature pretende avaliar os efeitos da exposição imersiva a ambientes naturais em parâmetros relacionados com a saúde física e mental e estudar o impacto fisiológico e psicológico da poluição sonora. A investigação deverá considerar não apenas sons associados aos espaços urbanos, mas também sons rurais, procurando ainda perceber o que acontece nos cenários em que natureza e urbanização coexistem.
Esta última dimensão é especialmente relevante nos Açores, onde muitas áreas habitadas, infraestruturas rodoviárias, equipamentos, zonas turísticas e espaços de lazer se encontram muito próximos de áreas rurais ou naturais. O projecto pretende estudar precisamente a interação entre os potenciais benefícios associados ao contacto com a natureza e os efeitos provocados por sons indesejados nesses ambientes mistos.
A informação oficial disponível indica que serão utilizados métodos experimentais e fisiológicos, procurando obter evidência sobre os efeitos restauradores da natureza, os impactos adversos da poluição sonora e a complexidade das chamadas paisagens híbridas. Os responsáveis pretendem que os resultados possam contribuir para políticas de planeamento urbano, turismo de natureza e estratégias relacionadas com a transição ecológica.
A forte presença da natureza, a ruralidade de grande parte do território e a menor dimensão dos centros urbanos não significam, por si só, ausência de poluição sonora. Ruído rodoviário, tráfego aéreo e portuário, actividades económicas e outros sons produzidos pela atividade humana coexistem com espaços naturais e residenciais.
A própria administração regional reconhece o ruído ambiental como um problema com consequências que ultrapassam o simples incómodo. A Direcção Regional do Ambiente e Acção Climática define na própria página institucional na secção dedicada ao tema ruído, da seguinte forma: “O ruído ambiente é o ruído global percepcionado gerado por actividades humanas, incluindo o ruído provocado pela utilização das infraestruturas de transporte rodoviário, portuário e aéreo e instalações industriais e de serviços.”
A autoridade ambiental regional salienta igualmente que a poluição sonora afecta a qualidade de vida, o bem-estar das populações e a saúde pública, remetendo para as orientações da Organização Mundial da Saúde que identificam o ruído como um dos principais riscos ambientais para a saúde física e mental e para o bem-estar das populações europeias.
A preocupação com o ambiente acústico encontra-se, de resto, incorporada há mais de uma década na legislação regional. O Decreto Legislativo Regional n.º 23/2010/A, de 30 de Junho, aprovou o Regulamento Geral de Ruído e de Controlo da Poluição Sonora dos Açores, que estabelece o quadro para a prevenção e controlo da exposição ao ruído e integra na ordem jurídica regional normas europeias relativas à avaliação e gestão do ruído ambiente.
O regime obriga a que a componente acústica seja considerada no ordenamento do território. Cabe aos municípios definir e delimitar zonas sensíveis e zonas mistas e elaborar mapas de ruído que apoiem a preparação ou revisão dos instrumentos municipais de ordenamento. Quando existem ocupações expostas a níveis superiores aos limites legalmente estabelecidos, estão previstos planos municipais de acção destinados a reduzir essa exposição.
A legislação contempla também as chamadas zonas tranquilas, tanto nas aglomerações como em campo aberto, e prevê mapas estratégicos e planos de ação para grandes infraestruturas de transporte. Na informação actualmente disponibilizada pela administração regional estão identificados, entre outros instrumentos, mapas estratégicos relativos a troços da rede rodoviária de São Miguel, destinados a identificar receptores sensíveis e avaliar a população exposta a determinados níveis de ruído.
Estes instrumentos são importantes para conhecer situações concretas e orientar o ordenamento, mas não equivalem a uma avaliação única e homogénea do ambiente acústico de todas as ilhas. Por isso, a existência de extensas áreas naturais e rurais nos Açores não permite, isoladamente, concluir que o arquipélago seja acusticamente “silencioso”.
É precisamente nesta fronteira que o QuietNature ganha particular relevância. Em vez de olhar apenas para a quantidade de ruído existente, pretende estudar como diferentes ambientes sonoros e naturais são sentidos pelo organismo e pela mente e o que acontece quando os efeitos potencialmente positivos da natureza coexistem com fontes de perturbação acústica.
A questão cruza-se ainda com um dos pilares do posicionamento turístico dos Açores. O próprio Portal do Turismo do Governo Regional define o arquipélago como um destino fortemente alicerçado na natureza e considera que a preservação dos recursos naturais e paisagísticos é essencial à manutenção da atractividade turística. O portal oficial Visit Azores apresenta igualmente os Açores como um destino de natureza e de experiências, centrado na preservação dos recursos e do legado natural.
Esse posicionamento torna a qualidade do ambiente acústico uma matéria potencialmente relevante não apenas para quem vive nas ilhas, mas também para a experiência de quem as visita. A tranquilidade associada a uma paisagem natural pode depender não só da qualidade visual do espaço, mas também dos sons que o acompanham.
O QuietNature poderá, assim, acrescentar uma dimensão ainda pouco visível à discussão sobre sustentabilidade e turismo de natureza nos Açores: a qualidade da paisagem sonora.
