Há expressões que pertencem aos lugares e “Àquela Uh!” é uma delas, recorrentemente utilizada na ilha Terceira, revelando espontaneidade e cumplicidade. No entanto, esta expressão ganhou nova forma com a escolha de uma jovem, para designar um projeto que se caracteriza pela grandeza do seu objetivo.
Da autoria de Ana Rita, “Àquela Uh!” nasceu em maio e, desde então, tem vindo a criar oportunidades para as pessoas se encontrarem, desde pintura, dança, yoga na praia, brunch, passeios, aventuras a passeios com os cães do canil, atividades que podem parecer apenas eventos, mas que não o são.
Porque entre o trabalho, família, responsabilidades, uma agenda cheia, há pessoas que sentem que lhes falta qualquer coisa. Falta dialogar, novidades, conhecer pessoas fora dos círculos habituais, novas experiências. Falta dizer “sim” a um plano que não estava previsto. Falta, simplesmente, ter com quem ir.
E talvez tenha sido precisamente esse vazio que Ana Rita identificou, numa rotina cada vez mais apressada, após a defesa da sua tese de Mestrado, na rotina do trabalho e vivendo aquilo que nos incutem como sendo a realização pessoal: estudar, trabalhar, avançar.
Mas, mesmo assim, saiu da sua zona de conforto. Em vez de se limitar a constatar que faltava alguma coisa, decidiu experimentar e construir essa “coisa”: uma comunidade.
A “Aquela Uh!” tem sido sobretudo procurada por mulheres, mas a proposta não se fecha no género, nem numa determinada idade. É para todas as pessoas. Para quem está cansado/a da rotina e/ou para quem simplesmente quer experimentar algo diferente.
Ressalvo um aspeto que merece destaque: a vontade de transformar os encontros em algo que ultrapasse o próprio momento. No passeio com os animais do canil, por exemplo, as receitas obtidas não ficaram apenas pela experiência de quem participou, mas sim, convertidas em bens destinados aos próprios animais, tornando-se, também, num gesto de solidariedade. É uma diferença que diz muito sobre como se pode criar comunidade através da junção de pessoas, fazendo chegar o que se constrói em conjunto a quem precisa.
Talvez, esta seja uma das partes mais interessantes do projeto – não é preciso haver um grande problema para precisarmos de outras pessoas. Não é necessário estar só para sentir solidão. Não precisamos de estar isolados para sentir falta de pertença, e não precisamos de estar em crise para perceber que a nossa vida pode ganhar outra cor quando abrimos espaço a pessoas e experiências novas.
Vivemos numa época em que estamos permanentemente em conexão e, paradoxalmente, nem sempre estamos verdadeiramente acompanhados/as, mas quem nos envia uma mensagem a dizer: “Vens?”. Quem nos tira, por umas horas, do percurso habitual entre casa, trabalho e casa outra vez?
É aqui que uma ideia como a “Àquela Uh!” ganha uma dimensão que ultrapassa os próprios eventos. Criar experiências também pode ser uma forma de criar comunidade. Esta foi a coragem da Ana Rita: perceber que havia um vazio e decidir preenchê-lo. Criou um nome, uma página, encontros e começou a chamar pessoas. “Àquela Uh!”, como quem chama alguém do outro lado da rua. Como quem diz: anda cá. Como quem, no fundo, está a dizer: vem experimentar.
E talvez, num tempo em que tantas pessoas precisam de uma razão para sair de casa, conhecer alguém ou simplesmente voltar a sentir que fazem parte de alguma coisa, um simples “Àquela Uh!” seja muito mais do que uma expressão terceirense. Pode ser um convite. E, às vezes, tudo começa com um convite.
Alexandra Manes