Os produtores de leite açorianos foram homenageados esta Sexta-feira, em Ponta Delgada, com a inauguração de uma escultura que assinala os dez anos do programa Leite de Vacas Felizes. A obra, instalada no Parque Urbano, pretende deixar no território uma marca permanente de reconhecimento pelo trabalho desenvolvido no sector.
Foi inaugurada ontem, sexta-feira, uma escultura em celebração do décimo aniversário do programa Leite de Vacas Felizes, da BEL, no Parque Urbano, em Ponta Delgada.
Realizada no Dia Nacional da Sustentabilidade, a cerimónia contou com um momento de dança, a presença de dezenas de produtores e entidades e esteve inserida no programa da Capital da Cultura PDL 26.
Eduardo Vasconcelos, representante da BEL Portugal, revelou que, além do aniversário do programa, se celebrava as pessoas, a visão, a coragem e o trabalho diário.
“Celebramos o trabalho diário das pessoas que, com dedicação, resiliência e espírito pioneiro, decidiram fazer diferente. Num sector tão exigente como o do leite, onde os desafios são permanentes, as margens são curtas e onde tantas vezes a gestão do dia a dia deixa pouco espaço para arriscar, fazer diferente exige muito mais do que vontade. Exige confiança, exige a coragem de acreditar que é possível criar valor de outra forma, respeitando ainda mais a origem, os animais, o solo e o consumidor”, admitiu.
Eduardo referiu ainda que, no início do programa, os produtores açorianos tiveram a “ousadia de abraçar uma abordagem diferenciadora”, focando-se no bem-estar animal, na ligação à terra e na autenticidade da produção.
O programa Leite de Vacas Felizes foi criado em 2016 e, segundo o responsável, ajudou a dar mais conhecimento aos consumidores.
“O programa Leite de Vacas Felizes ajudou a dar gosto à produção de leite. A aproximar o consumidor da realidade do campo, para mostrar que por trás de cada litro de leite existe cuidado, exigência, compromisso e muito trabalho. E isso é fundamental, porque muitas vezes o consumidor conhece o produto mas não conhece a história, o esforço e a dedicação que estão por trás dele”, afirmou.
A escolha pela criação de uma escultura que assinalasse os 10 anos do programa prendeu-se pela vontade de “deixar algo no território, algo que permanecesse e que pudesse ser visto, vivido e importado” e que não ficasse assinalado apenas numa data ou numa cerimónia.
Eduardo Vasconcelos falou ainda do baixo preço do leite açoriano, factor que, segundo o responsável, “não representa a sua origem, qualidade e trabalho”.
“Os Açores têm condições naturais extraordinárias, uma produção profundamente ligada à natureza, conhecimento acumulado ao longo de gerações e, acima de tudo, produtos de enorme competência. Tudo isto cria valor para o leite, para os produtos que dele nascem e para a própria imagem dos Açores. E esse valor precisa ser protegido . Quando vemos o leite açoriano a valores baixos, o que não representam a sua origem, a sua qualidade e o trabalho que está por trás dele, corremos o risco de desvalorizar tudo aquilo que foi construído ao longo deste programa”, admitiu.
Na cerimónia de inauguração esteve também presente a Comissária da Capital Portuguesa da Cultura 2026 em Ponta Delgada, Katia Guerreiro, que afirmou que esta escultura reflecte as dificuldades sentidas nos Açores.
“Ao olharmos para a obra, vemos reflectir a luz dos Açores, a força do nosso clima e a imponência da nossa natureza. A arte serve aqui como um espelho que nos liga de forma visceral ao território que habitamos. Esta escultura é, acima de tudo, uma justa e sentida homenagem aos produtores de leite açorianos. O vosso trabalho, quantas vezes silencioso e marcado pelo sacrifício, é um verdadeiro motor da nossa economia e a matriz da nossa paisagem cultural”.
A comissária da PDL-26 afirmou ainda que esta obra celebra a resistência e a dignidade de quem vive e trabalha na terra, referindo ainda que o verdadeiro sucesso da capital da cultura mede-se pelo que se deixa às próximas gerações, admitindo que “quando os grandes palcos se fecharem e as luzes se desligarem, esta obra de arte permanecerá aqui”.
O Presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada, Pedro Nascimento Cabral, começou por dizer que a cultura ultrapassa aquilo que acontece nos palcos, teatros, livros e museus, afirmando que “cultura é também sabermos honrar as nossas tradições, é aprendermos os nossos antepassados e tudo aquilo que eles foram passando de geração em geração”.
“Esta escultura que hoje inauguramos é sobretudo uma homenagem a estas mulheres e homens que se levantam enquanto a maioria das pessoas ainda dorme, que continuam a trabalhar quando a maioria das pessoas já está no recanto do seu lar. Reconhecem o vento, a intensidade da chuva, as dificuldades do nevoeiro, as agruras do ambiente, o ritmo das pastagens e o olhar dos animais. Estes produtores de leite merecem a nossa total dedicação, apoio e reconhecimento da resiliência”, afirmou o autarca sobre a escultura.
Pedro Nascimento Cabral reconheceu também que os produtores de leite são os responsáveis pelo progresso e desenvolvimento da Região, explicando que, apesar de existirem outras indústrias e actividades, não há nenhuma com a qual os açorianos se identifiquem mais.
Sobre o investimento de cerca de seis milhões de euros na área cultural feito pela Câmara Municipal de Ponta Delgada, o Presidente do Município considerou não ser uma despesa nem um sacrifício.
“A cultura não é uma despesa, não é de todo um sacrifício, é um investimento. Um investimento na educação das pessoas, um investimento naquilo que é importante: trazer as pessoas para os palcos do Coliseu, do teatro, dos museus, dos lançamentos de livros, das inaugurações, das esculturas que homenageiam a nossa forma de ser e de estar. É através deste investimento que nós todos conseguimos alavancar projectos culturais e levar a nossa sociedade para novos paradigmas e novos patamares de desenvolvimento e trazer, acima de tudo, como sempre, os Açores no coração”, completou.
Esteve também presente na cerimónia o Secretário Regional da Agricultura e Alimentação, António Ventura, que destacou a importância da produção de leite para a Região, não apenas enquanto actividade económica, mas também pelo impacto que representa na qualidade de vida dos açorianos e na atractividade turística dos Açores.
O governante sublinhou que a actividade leiteira está profundamente ligada à identidade da Região e ao território açoriano, considerando que a imagem associada à produção agrícola e às pastagens constitui também um elemento diferenciador para quem visita os Açores.
Ainda assim, António Ventura reconheceu o actual momento de dificuldade vivido pelos produtores devido ao preço do leite, reforçando que esta questão ultrapassa o próprio sector e acaba por ter consequências em diferentes áreas da economia regional.
“O preço do leite ao produtor não vive um bom momento nos Açores e o preço do leite nos Açores não é um preço isolado. É um preço de referência para todos os outros produtos. É um preço de referência ao nível daquilo que, por exemplo, são os empréstimos bancários. É um preço de referência naquilo que é o pagamento da mão-de-obra. Tem um efeito multiplicativo em toda a economia nos Açores”, afirmou.
Para o Secretário Regional, a valorização da produção local deve ser acompanhada por uma maior consciência por parte dos consumidores relativamente aos custos associados à produção nos Açores. Nesse sentido, António Ventura apelou ao patriotismo dos açorianos e à preferência por produtos regionais, mesmo quando estes apresentam um preço superior ao de produtos provenientes de outras regiões.
O governante defendeu que essa diferença de preço deve ser compreendida tendo em conta as especificidades da produção regional e os custos que são suportados pelos produtores.
“São produtos onde se incorporam custos que não estão no preço final do produtor e do qual todos nós também, enquanto açorianos e enquanto cidadãos deste mundo, exigimos aos produtores de leite que tenham incorporado na sua actividade económica”, explicou.
A sustentabilidade foi também um dos temas abordados durante a cerimónia, que decorreu precisamente no Dia Nacional da Sustentabilidade. António Ventura considerou que os Açores reúnem características que justificam a associação da Região a este conceito, destacando a ligação entre a actividade agrícola, o território e os recursos naturais.
“Se há região que se adequa a essa qualificação de sustentabilidade, é os Açores”, afirmou.
Neste contexto, o Secretário Regional destacou ainda o papel desempenhado pelo programa Leite de Vacas Felizes ao longo dos últimos dez anos. Para António Ventura, uma das principais contribuições do programa foi a valorização da ligação entre a produção leiteira e as pastagens açorianas, aproximando o produto da sua origem e reforçando a percepção dos consumidores relativamente às características da produção regional.
Sobre os 10 anos do programa Leite de Vacas Felizes, da BEL Portugal, o Secretário Regional admitiu ter sido fundamental ligar a pastagem ao leite, porque “essa ligação de pastagem ao leite não só atrela o vosso produto, mas sobe na consideração de muitos consumidores”.
António Ventura considerou ainda que os dez anos do programa representam não apenas uma celebração do trabalho desenvolvido até ao momento, mas também um compromisso com o futuro do sector leiteiro açoriano. Nesse sentido, apontou a necessidade de garantir condições de segurança e previsibilidade para quem se dedica à actividade, de forma a assegurar a continuidade de uma produção que considera essencial para a economia regional.
“Estes 10 anos são um compromisso para o futuro. São um compromisso daquilo que tem que ser a segurança, a previsibilidade de quem produz para manter estes sectores. É a nossa primeira produção, é a nossa primeira economia e é aquilo que vai continuar a firmar os sectores”, afirmou.
A escultura inaugurada no Parque Urbano procura, precisamente, traduzir algumas destas ligações entre o território, a produção e a identidade açoriana. A artista responsável pela criação da obra, Cristina Ataíde, explicou que procurou desenvolver uma peça que estabelecesse uma relação directa com o espaço onde está inserida e com a realidade dos produtores de leite da Região.
Cristina Ataíde explicou que pretendia, com a escultura, “estabelecer uma ligação forte com a natureza, com o território e deixar uma marca visível que lembre os produtores de leite açoriano”.
A artista procurou, assim, representar através da obra elementos associados à produção leiteira e à tradição açoriana, transformando-os numa peça que permanecerá no espaço público para além das comemorações dos dez anos do programa.
Sobre a escultura, Cristina Ataíde explicou que os elementos representados são o leite, o cincho e a forma do queijo. Estes dois últimos elementos foram desenvolvidos numa estrutura de aço inoxidável produzida pela Serralharia Lagoense, combinando elementos associados à produção tradicional com uma abordagem artística contemporânea.
A obra pretende, desta forma, manter presente no espaço público a ligação entre a actividade leiteira, a natureza e o território açoriano, funcionando também como uma homenagem aos homens e mulheres que diariamente trabalham no sector.
Por Vasco Blayer
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