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Fátima Viveiros, Directora do Instituto de Investigação em Vulcanologia e Avaliação de Riscos – “Precisamos de estabilidade nos financiamentos e que esses financiamentos garantam recursos humanos qualificados”

Nove ilhas, 26 sistemas vulcânicos activos e uma rede de vigilância e investigação que tem evoluído ao longo das últimas três décadas. Em entrevista ao Diário dos Açores, Fátima Viveiros, Directora do Instituto de Investigação em Vulcanologia e Avaliação de Riscos da Universidade dos Açores , garante que é necessário um investimento ainda maior nos recursos humanos.

Como caracteriza hoje o nível de vigilância sísmica e vulcânica nos Açores e quais são as ilhas ou sistemas vulcânicos que exigem maior atenção por parte do IVAR?
Quem faz a parte da vigilância sismovulcânica é o CIVISA, o Centro de Informação e Vigilância Sismovulcânica dos Açores, que resulta da junção da Universidade dos Açores, através do IVAR, e o Serviço Regional de Protecção Civil e Bombeiros dos Açores.
O IVAR, como unidade orgânica da Universidade dos Açores, fez este ano 10 anos, mas deriva do Centro de Vulcanologia e Avaliação de Riscos Geológicos (CVARG), que surgiu em 1997, ou seja, perto de 30 anos.
Nestes últimos 30 anos houve muita evolução. Há novos equipamentos, novas metodologias. O grupo que se criou na altura, que começou com sete professores da Universidade dos Açores, do Departamento de Geociências, hoje já tem cerca de 70 elementos, com 26 que têm doutoramento. Quer em termos de recursos humanos, quer de equipamentos e metodologias, houve um grande avanço. Nunca é suficiente, porque nós temos 9 ilhas, com 26 sistemas vulcânicos considerados activos, em que 18 são sub-aéreos, portanto, em terra, e é preciso manter a vigilância e uma resposta adequada a todas estas situações.
O IVAR não tem só a parte da vulcanologia, tem todos os outros ricos associados: a sismologia, os movimentos de vertente, as áreas de desgasificação, cheias e inundações. Temos, no fundo, uma avaliação de vários riscos, inclusivamente a parte dos biológicos, onde temos também uma unidade de geologia médica. No fundo, é olhar para o vulcão nesta multidisciplinaridade.
Todas as ilhas nos preocupam, mas é claro que há ilhas que têm tido maior actividade sismovulcânica nos últimos anos. Se olharmos desde 2005, tivemos a crise do Vulcão do Fogo no centro da ilha de São Miguel, depois tivemos a crise de São Jorge, temos tido várias crises na Terceira, tivemos já fora da ilha do Faial. Todas as ilhas nos preocupam, mas é claro que, dependendo de onde está a maior actividade no momento, temos maior preocupação. Todas elas carecem ainda de mais monitorização, porque há sempre novas metodologias a aparecerem e a surgirem e é importante ir-se mantendo actualizado na nova forma de tratar os dados. Claramente que hoje, em relação há 30 anos atrás, estamos muito melhores.

Os Açores dispõem actualmente de uma rede de monitorização suficiente para detectar alterações relevantes na actividade sísmica e vulcânica ou continuam a existir lacunas em equipamentos, cobertura territorial ou recursos humanos?
Recentemente, o IVAR teve o financiamento do PRR para equipamento. Inclusivamente, conseguimos adquirir alguns equipamentos que eram mais caros e de mais difícil acesso sem um projecto desta natureza como o PRR. Melhorámos as nossas capacidades. Agora estamos na fase de implementar os equipamentos, implementar as metodologias e tratar os dados que dai vêm. Isso leva-nos à necessidade dos recursos humanos.
Nós temos equipamentos, mas há sempre a necessidade dos recursos humanos para implementar as novas metodologias e auxiliar naquilo que existe. Temos que ter renovação, porque alguns dos nossos recursos aproximam-se depois de uma fase mais avançada e temos que dar sempre a possibilidade aos novos investigadores.
É óbvio que o IVAR necessita de fortalecer a sua componente de recursos humanos, até para não se perder em determinadas áreas científicas.
Também recentemente, a Universidade dos Açores, vindo do Ministério, questionou-nos exactamente sobre as nossas redes e como é que poderíamos melhorá-las para dar uma resposta ainda melhor. Fizemos uma candidatura no âmbito do PTRR. Este outro programa vem numa segunda fase, ao nível nacional. O IVAR, através a Universidade dos Açores e em acordo com o CIVISA, preparou uma candidatura para fortalecer estas redes e para que ficasse o arquipélago melhor distribuído em termos desses recursos de rede.
Estamos a aguardar. Se esse PTRR for aprovado nas condições que solicitámos, ficaremos ainda melhor. Não estamos no máximo que gostaríamos de estar, mas temos que ter esta honestidade. Temos uma candidatura que foi feita recentemente, mas como é que isso vai ser implementado e se realmente vai ser totalmente financiado ou não, estamos a aguardar.

A inteligência artificial e a análise automática de grandes volumes de dados podem mudar a forma como se monitoriza e estuda a actividade sísmica e vulcânica?
Sim, sem dúvida. O IVAR, como um instituto na Universidade dos Açores, é avaliado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, normalmente a cada cinco anos. Na última avaliação fomos avaliados com um excelente e essa avaliação implica não só aquilo que foi feito para trás, como aquilo que se pretende fazer nos cinco anos seguintes.
Nesse plano estratégico, nós já colocámos exactamente essas ferramentas de “Machine Learning” e Inteligência Artificial, que iriam ser usadas para melhor compreender aquilo que nós temos e os dados adquiridos ao longo destas últimas décadas. Nós temos técnicas e dados de estações permanentes que têm mais de 20 anos, o que permite extrair informação que, provavelmente a olho nu e nas ferramentas estatísticas mais tradicionais, não vimos alguns padrões. Isso é o benefício da Inteligência Artificial.
Inclusive, nós temos um projecto Interreg, que começou em Julho, com colegas da Madeira, Canárias e São Tomé e Príncipe, que é o DIGIVOLMAC. Esse projecto pretende exactamente aplicar estas metodologias de IA e de Machine Learning, aos dados que temos das técnicas de monitorização, para melhor entender padrões e entender as reactivações do sistema vulcânico. Não só estamos a fazer internamente com as ferramentas que temos, como estamos incluídos num projecto de financiamento europeu.
É uma preocupação e é um aliado àquilo que já fazemos com as técnicas mais tradicionais. Temos que dar esse salto de qualidade e estamos a trabalhar nisso.

O que torna o sistema vulcânico nos Açores particularmente interessante ou relevante para a investigação científica a nível internacional?
Os Açores são o laboratório natural para muitas áreas e também, sem dúvida, para a área da Geologia, da Vulcanologia, é um marco e um laboratório natural. Nós temos que pensar que estamos aqui na confluência de três placas litosféricas, portanto, norte-americana, euro-asiática e africana, e isso também é responsável por muita da sismicidade que nós temos. Juntamente com isso, temos um manto que terá uma pluma mantélica e, portanto, permite que o magma chegue à superfície e podemos ter erupções vulcânicas. Esta junção da possibilidade de erupções vulcânicas associadas a uma geodinâmica estrutural particular torna os Açores muito atractivos. Juntando a isso, temos outros riscos. O facto de termos erupções altamente explosivas em alguns sistemas vulcânicos, em que os depósitos são de cinza, com a chuva elevada que temos nos Açores, isso pode fazer com que esses depósitos, até mais tarde, venham a ser remobilizados e, então, temos os movimentos de vertente. Depois temos várias áreas de desgasificação, em que temos o gás a sair naturalmente, mesmo sem termos sismos ou sem termos erupções. Os Açores são sítios excepcionais para estudar estes fenómenos, porque tem uma multitude de fenómenos e está localizado numa área que também é afectada por eventos meteorológicos extremos. Portanto, tudo isto junto faz o paraíso para o estudo dos riscos e da vulcanologia e até para encontrar estratégias como mitigar esses riscos. Esse é também o nosso desafio, encontrar estratégias para mitigar. É ver o problema na sua globalidade e nas suas várias interacções.
Temos parceiros a vários níveis. Os nossos parceiros são, essencialmente, ao nível europeu, como Itália, França, Espanha ou Islândia, pois temos características comuns em termos de vulcanismo, em termos de sismicidade ou de outros perigos. Temos tido uma diversidade de parcerias, que vai dependendo daquilo que são os projectos que também estão em curso. Podemos aprender muito uns com os outros. Tanto é que, quando foi a erupção das Canárias em 2021, vários investigadores do IVAR foram apoiar os colegas das Canárias e, inclusivamente, os nossos alunos de doutoramento. Foi uma experiência para eles, para verem em contexto real, como se reage.
Essas colaborações são fundamentais, são estratégicas, são uma forma de nós aprendermos com os outros, mas também dos outros aprenderem connosco. Muitas vezes também recebemos alunos de outras instituições que vêm cá e que fazem estágios connosco. Em 2017, implementámos um programa de estágios, que é a Academia IVAR. Nós já tivemos mais de 80 estagiários só no âmbito desse programa. Em termos de internacionalização, nós temos parceiros históricos, parceiros que apoiaram o IVAR desde a sua fundação.

Agora, mais de 4 anos depois, consegue-nos explicar o que realmente aconteceu em São Jorge, em 2022?
Durante a crise sismovulcânica, o CIVISA e o IVAR fizeram um acompanhamento em tempo real. Como sabe, houve uma subida até ao nível de alerta V4, portanto, uma reactivação no sistema vulcânico. Havia sismicidade anómala significativa, com milhares de sismos em poucas horas, naquela primeira tarde e deformação crustal também significativa. Essas foram condições suficientes para indicar uma potencial intrusão magmática. Como se falava durante a altura da gestão daquela crise, havia três cenários possíveis em cima da mesa: não acontecer mais nada do que aquilo; acontecer um sismo forte, que pode acontecer a qualquer momento ou terminar numa erupção vulcânica, porque havendo novo magma no sistema, poderia haver uma erupção. Dentro das erupções vulcânicas, podíamos ter vários cenários. Felizmente, e até o momento, ficámos na primeira hipótese.
Não só o IVAR e o CIVISA trabalharam os dados daquela altura, houve também colegas da comunidade internacional que vieram e que também trabalharam os dados de forma independente, apesar de algumas cooperações com os colegas do IVAR e do CIVISA.
Os dois trabalhos científicos mais recentes, suportam ambos que o que aconteceu em 2022 foi uma intrusão magmática, portanto, novo magma entrou no sistema e não originou uma erupção vulcânica, porque, a certa altura durante aquela primeira noite, o magma acabou por migrar para níveis mais profundos, e não continuou para a superfície. Estes trabalhos foram feitos até com técnicas separadas. Por um lado, um trabalho feito por ingleses, com alguns dados da sismologia, e das próprias estações sísmicas que colocaram no mar à volta da ilha de São Jorge, alguns meses mais tarde. Por outro lado, um trabalho feito por um colega cá do IVAR, em parceria com os outros colegas, mas com os dados da deformação crustal. Estes mostram que ocorreu uma intrusão magmática, e que o magma não chegou à superfície, porque, pela própria estrutura da ilha e das estruturas tectónicas, acabou por migrar para níveis mais profundos.
A literatura tem-nos dito que apenas 20% das intrusões magmáticas, acabam em erupção vulcânica. Portanto, tudo indica que São Jorge ficou nos outros 80%, ou seja, houve uma intrusão magmática e o magma não chegou à superfície.
Subir até o nível de V4, que é um pré-eruptivo, está de acordo com aquilo que até depois foi também estudado pela comunidade científica internacional, de uma forma independente.

A crise sísmica em São Jorge, em 2022, permitiu aos investigadores e cientistas aprender e investigar os fenómenos de perto?
Sim, sem dúvida. Uma das coisas que temos que ter sempre em mente, e que é um desafio, é que temos que aplicar várias técnicas quando algo assim acontece, como técnicas de sismologia, de deformação crustal, de gases, de geoquímica, dos gases vulcânicos, quer da parte das águas, das nascentes, dos poços e de infra-som. São Jorge permitiu-mos implementar estas técnicas todas, que já implementávamos em vários dos vulcões, mas São Jorge, como estava uma ilha relativamente sossegada, não tinha um sistema de monitorização completo. Isso vem demonstrar que nem todas as ilhas estão monitorizadas de igual forma. São Jorge permitiu colocar e implementar uma série de técnicas em simultâneo para melhor compreender os fenómenos.
Normalmente, e o que nós esperaríamos, porque a maior parte dos livros de vulcanologia assim o dizem, é que antes de uma erupção vulcânica nós temos sinais durante algum tempo. O ideal é termos semanas ou meses de sinais precursores, como sismos, deformação, gases a subir, depois temos o evento vulcânico, e depois temos o fim da erupção. Isto é aquilo que, em teoria, deve acontecer se o sistema vulcânico se comportar como nós pensamos. Depois há as excepções. Depois, a outra hipótese é começar uma erupção vulcânica quase sem sinais precursores. Isto é muito mais assustador do ponto de vista da gestão. Os sinais podem ser mais efémeros, mais reduzidos, não tão claros como nós gostaríamos. Isto é difícil de gerir.
De certa forma, em São Jorge, o que aconteceu foi que nós tivemos muitos sismos em pouco tempo, sem que os sinais anteriores fossem sequer sinais claros. Passámos de uma ilha silenciosa, do ponto de vista da sismicidade, a milhares de sismos em poucas horas. E isto também não é muito comum. São Jorge vem-nos mostrar este outro lado. Podermos ter uma actividade significativa, sem aquele aviso todo que gostaríamos de semanas ou meses. Como é que se combate isto? É cada vez monitorizar melhor.

O IVAR e o CIVISA servem também para controlar, directamente e indirectamente, o alarmismo que acontece durante estas situações de crise?
O papel do IVAR, para além desta parte de conhecimento científico, estudar dados, entender o que acontece, tem toda uma outra parte educacional, que é tão importante como a parte de estudar os fenómenos, porque é cada vez mais essencial que a população em geral entenda os fenómenos, porque assim sabem reagir melhor aos mesmos.
A parte da educação científica, a literacia científica que tanto se fala, é fundamental para darmos a melhor resposta. Cada um de nós é um elemento de protecção civil.
Este é um dos desafios do IVAR, chegar junto do público em geral e tentar passar os conhecimentos sem alarmismo, sem a parte má das redes sociais. Temos que ter a capacidade de olhar para aquilo que nos está a ser vendido nas redes sociais e ver se aquilo faz sentido ou não. A única maneira é ir às entidades oficiais. Por isso é que o IVAR tem o seu portal, tem a sua página de Facebook em colaboração com o CIVISA, para ir transmitindo a informação e aí o cidadão da comunidade sabe que pode ir ali e ver a informação oficial.
Em situações de crise, nós dizemos aquilo que sabemos. Não há ninguém que queira que um fenómeno extremo, um fenómeno geológico, cause danos ou fatalidades. Aquilo que os investigadores sabem, passam à protecção civil, passam à comunidade com a melhor linguagem possível. Não escondemos informação. Agora, os sistemas vulcânicos são como as pessoas, não se comportam todos como nós gostaríamos. Temos que estar preparados para saber que há incerteza e é essa incerteza que é difícil de passar à população.

Recentemente, o IVAR participou num estudo sobre os minerais presentes nas bananas produzidas nos Açores, procurando perceber de que forma os compostos geológicos dos solos influenciam o crescimento destas plantas. O que é que este trabalho nos revela sobre a relação entre a geologia vulcânica dos Açores e a agricultura da Região? É uma aposta do IVAR?
O IVAR tem sete unidades científicas. Umas das nossas unidades científicas é exactamente a geologia médica, que os primeiros trabalhos eram tentar entender, por exemplo, como é que os gases vulcânicos podem afectar a saúde da população ou alguns elementos nas águas podem afectar a população. Entretanto, tem-se expandido.
O grupo tem estado até a aumentar em termos dessa unidade científica. Vamos ter agora uma aluna de doutoramento, investigadores juniores e um coordenador. O grupo tem estado mais estruturado.
De certa forma, a nossa unidade de geologia médica não tem estado só a ver os efeitos negativos, mas também os positivos. Este estudo que fizeram foi para ver como é que os solos, os minerais que existem e a composição dos solos podem, exactamente, interferir com a vegetação. Este foi feito com as bananas que vêm da ilha de São Miguel e concluíram que as bananas de São Miguel têm mais elementos como o magnésio, o potássio, o ferro, do que as bananas que vêm de fora. Mesmo dentro da ilha de São Miguel viram diferenças, porque temos a rocha basáltica e temos a rocha mais evoluída. Há essa tentativa de ligar os nossos solos àquilo que é a produção agrícola.
Isto só demonstra o potencial que esta área tem e a importância de trabalharmos integrados, porque esta área da Geologia Médica são biólogos que estão dentro do IVAR.
Também estamos muito expectantes para ver as propriedades das nossas águas e como é que vão ser benéficas para a nossa saúde.

Que investimentos considera prioritários nos próximos anos para reforçar a capacidade dos Açores em matéria de vigilância vulcânica, sísmica e geotécnica, nomeadamente em equipamentos, investigação e formação de especialistas?
Nós precisamos, acima de tudo, de ter periodicidade nos financiamentos. Nós temos que saber com o que é que contamos. Tem havido algum esforço, mas é necessário que nós no início do ano, ou no início do próximo triénio, saibamos que vão abrir financiamento para projectos regionais, para projectos nacionais, que financiamento vai haver para todos os institutos. Nós temos que saber a periodicidade e regularidade dos financiamentos. Não se consegue fazer um plano estratégico, não se consegue planificar o futuro sem saber com o que é que vamos contar no próximo ano. Tem que haver uma estratégia que seja de base.
Depois, é muito importante que nestes financiamentos se mantenha regularidade para os recursos humanos, porque os recursos humanos é que fazem as instituições. Nós nos Açores, e especificamente nas condições do IVAR, somos muito atractivos para virem para cá. Os investigadores passam um período de tempo. Mas nós temos que dar garantias que podem ficar a longo prazo se assim o desejarem.
Nós, acima de tudo, precisamos de periodicidade, estabilidade nos financiamentos e que esses financiamentos garantam recursos humanos qualificados, porque isso é a base de qualquer instituição.

Por Vasco Blayer
*[email protected]

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