A concentração operacional.
A reorganização do sistema conduziu progressivamente à concentração operacional em Ponta Delgada. Os defensores desta opção apresentaram argumentos associados à racionalização de recursos, à redução de custos e ao aumento da eficiência empresarial. Estes objetivos são legítimos. Qualquer empresa pública deve procurar utilizar os seus recursos de forma eficiente. Todavia, quando uma empresa desempenha simultaneamente funções de interesse público regional, a avaliação das suas opções não pode limitar-se aos critérios tradicionais de gestão empresarial. É necessário analisar igualmente os seus impactos territoriais, sociais e institucionais. E é precisamente neste ponto que surgem as principais interrogações.
Os custos económicos da centralização.
Os dados disponíveis permitem questionar a eficácia económica global da concentração operacional. Segundo diversos estudos e cálculos apresentados ao longo do debate público regional, a reorganização terá produzido anualmente: cerca de 14 milhões de euros de custos adicionais, aproximadamente 518 toneladas suplementares de combustível consumido, cerca de 650 horas adicionais de voo e aproximadamente 1.637 toneladas adicionais de emissões de dióxido de carbono. (1) Independentemente da margem de discussão que possa existir relativamente a alguns destes valores, a sua ordem de grandeza revela uma realidade relevante. A centralização não constitui necessariamente sinónimo de eficiência. Em determinadas circunstâncias, a procura de economias administrativas pode gerar custos operacionais superiores aos benefícios inicialmente previstos. Por essa razão, qualquer avaliação rigorosa exige uma análise global dos custos e benefícios efetivamente produzidos.
Os custos operacionais.
Os efeitos da reorganização tornam-se ainda mais evidentes quando observados através dos indicadores operacionais. Nos últimos anos verificaram-se: milhares de atrasos, mais de um milhar de cancelamentos, um crescimento significativo dos encargos associados à assistência aos passageiros, aumento das dificuldades de remarcação e maior dependência das condições meteorológicas verificadas numa única ilha. Segundo dados frequentemente referidos no debate público regional, registaram-se cerca de 1.351 cancelamentos e aproximadamente 3.724 atrasos num período recente, bem como encargos superiores a dois milhões de euros em assistência e indemnizações. Embora as condições meteorológicas expliquem uma parte substancial destes acontecimentos, a concentração operacional tende a amplificar os seus efeitos. (2) Num sistema excessivamente centralizado, uma perturbação localizada pode propagar-se rapidamente a toda a rede.
A estes elementos acresce ainda a consideração de que os custos operacionais devem ser analisados não apenas em termos absolutos, mas também à luz da sua estrutura de variabilidade e previsibilidade, uma vez que sistemas com maior concentração funcional tendem a apresentar maior sensibilidade marginal a choques exógenos, amplificando desvios relativamente ao padrão esperado de operação, tende a gerar efeitos de gargalo (bottleneck effects), nos quais pequenas perturbações iniciais podem desencadear disrupções desproporcionais no conjunto da rede, sobretudo quando não existem rotas alternativas suficientemente robustas; além dos custos indiretos associados à ineficiência operacional, como perda de produtividade dos passageiros, impacto reputacional do sistema e redução da previsibilidade das ligações interilhas; e a dependência de condições meteorológicas localizadas tende a ser estruturalmente mais crítica, e agrava a exposição do sistema a fenómenos de elevada variabilidade reduzindo a sua elasticidade funcional e aumentando a probabilidade de disrupções sistémicas em cascata. Como os dados já mostram.
(1) Baseado nos dados de Victor Silva Fernandes, Diário Insular, 20-05-2026. Arnaldo Ourique, Garajau autonómico. Escritos à solta de autonomia açoriana, Amazon, Angra do Heroísmo, 2026, pp. 211-214.
(2) Baseado nos dados da Comissão de Turismo da Câmara de Comércio de Angra do Heroísmo, Diário Insular, p. 20, de 27-05-2026.
Arnaldo Ourique