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Não Falar a Verdade (aos Açorianos) é Mentir

Nos Açores instalou-se essa liturgia, recitada e voltada a recitar em cada discurso, a de que tudo está bem e tudo há de ficar ainda melhor, e recita-se mesmo quando a dívida engorda em silêncio, mesmo quando os serviços públicos rangem, mesmo quando os números, esses pragmáticos que teimosamente ignoram a retórica, contam uma história bem diferente daquela que se apregoa. Não estará na hora de falar verdade aos Açorianos, e verdade, aqui, não é adjectivo de conforto, é antes a coragem rara de dizer aquilo que ninguém pediu para ouvir?
Há povos que aprendem a duras penas aquilo que a natureza ensina sem esforço a quem a observa com atenção, que não há colheita sem semeadura nem fartura que não se pague, mais tarde ou mais cedo, com o suor que se poupou a montante, e é curioso, ou talvez apenas triste, que continuemos, geração após geração, a repetir a mesma fábula reconfortante, a de que é possível colher hoje aquilo que ainda não plantámos, como se a aritmética fosse questão de fé e não de números, e como se bastasse desviar o olhar das contas para que elas, generosamente, deixassem de existir.
A Região caminha, de olhos semicerrados, para um reequilíbrio financeiro que não lhe caiu do céu como um castigo imerecido, mas que é antes a soma paciente de decisões antigas e da incapacidade presente de as corrigir a tempo. E enquanto isso a discussão pública se entretém a perguntar como virá mais dinheiro da República, pior, onde vamos gastá-lo mesmo antes de o termos.
O Presidente do Governo Regional, cuja prudência quase sempre se veste de inacção como quem confunde a virtude com cobardia política, parece preferir estender a mão à República a estender a verdade aos Açorianos, e compreende-se, até, a tentação, porque adiar o custo é sempre exercício mais confortável do que explicá-lo, mas alguém há de pagar a conta que se empurra para o futuro, e serão, como sempre acontece nestas coisas, os que ainda não nasceram ou os que ainda hão de decidir se ficam ou se partem.
Na Saúde e na SATA a pergunta é a mesma, quanto custa o que temos e quanto estamos dispostos a pagar por ele, seja o hospital que se anuncia sem que ninguém explique quem sustentará a sua engrenagem depois de aberto, seja a privatização que avança e que só terá servido de algo se se concluir com rigor, sem reabrir amanhã, sob outro nome, a mesma ferida pública. Prometeu-se, e deu-se, tudo a todos, agora a factura chegou e continuará a chegar.
Falar verdade é dizer que nem toda a despesa desejável é sustentável, e que cada euro gasto sem medida hoje fecha, silenciosamente, uma porta amanhã. Não é discurso de pessimismo, é precisamente o seu reverso, porque só recuperando a margem de escolher poderemos, verdadeiramente, fixar gente e semear futuro. Falar verdade é dizer que dadas as circunstâncias os sacrifícios virão, e com eles, muitos Açorianos passarão por tempos duros, mas não existem almoços grátis nem perdões milagrosos.
Governar não é garantir que tudo permaneça como está. É a obrigação de reformar. É garantir que os nossos filhos ainda tenham, nas mãos, a liberdade de decidir como querem que os Açores sejam.
Os Açores merecem mais e melhor.
André Silveira

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