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Beatriz Vieira estudou em duas universidade de Espanha pelo programa Erasmus – “Quando entras em contacto com outras realidades começas a ver as coisas de forma diferente”

Do sonho de conhecer o mundo à descoberta de si própria, o Erasmus levou Beatriz duas vezes de São Miguel para Espanha. Em entrevista ao Diário dos Açores, Beatriz destaca o choque cultural, as exigências académicas e a saudade do mar como maiores desafios.

Porque decidiste fazer ERASMUS?
Desde pequena que sempre tive esse sonho de viajar o mundo e quando estava no secundário ouvi pela primeira vez falar do projecto. Os meus pais sempre foram muito protectores e nunca me deixaram fazê-lo. Então desde esse momento que prometi a mim própria que no futuro se houvesse a possibilidade o faria sem pensar duas vezes. Quando chegou a altura de escolher as universidades nas quais me iria candidatar, já foi com essa ideia de fazer Erasmus, essa foi uma das razões que me levou a escolher a universidade dos Açores como primeira opção.

Alguma razão para teres escolhido Espanha como destino?
A minha ideia inicial era fazê-lo na Itália, mas como não havia nenhuma opção para o meu curso nesse país vi-me obrigada a escolher outra opção. Então pensei na Espanha, devido principalmente ao idioma. Pois seria mais fácil para mim aprendê-lo rápido. E também tinha o factor de nunca ter saído dos Açores, então acho que também senti um pouco de medo de ir mais longe para um país como a Bélgica e a Polónia que eram também opções mas estavam muito mais longe e além disso não sabia o idioma local.

A Universidade dos Açores ajudou-te no processo de candidatura e preparação?
Sim, no processo de candidatura os coordenadores disponibilizam-se para resolver qualquer questão que tenhamos. Já quando somos colocados, o processo de preparação temos que fazê-lo mais individualmente. Conseguir habitação e a logística da viagem é nossa responsabilidade e a universidade deixa claro desde o início que não podem auxiliar nessa parte.

Sentes que o programa ERASMUS é suficientemente divulgado e apoiado pela UAc?
Considero que sim. Todos os anos existe uma palestra onde se faz uma apresentação do projecto e possibilita aos alunos fazerem todas as questões que tenham acerca do mesmo. Também é sempre convidado alguém que já participou no projecto para dar a sua experiência pessoal. Ou seja, durante a palestra realmente é possível retirar-se o máximo de informação possível.

As bolsas atribuídas são suficientemente atractivas para que um estudante queira ingressar no programa ERASMUS?
Depende do país para o qual escolhemos fazer a mobilidade. Deve ter-se em atenção o custo de vida da cidade para a qual vais estudar, pois existem cidades onde a bolsa sim é suficiente para o estudante manter-se financeiramente durante toda a mobilidade e outras cidades em que isso já não é uma realidade. Então antes mesmo de se candidatar há que ter isso em consideração, pois as bolsas são padronizadas e não diferem de acordo com a cidade para a qual foi seleccionado.

Qual foi a maior diferença que sentiste entre estudar nos Açores e em Espanha?
A maior diferença que senti foi o número de aulas práticas. Ou seja, sinto que nas minhas duas experiências na Espanha, principalmente na segunda que foi em Valladolid, pude colocar mais em prática aquilo que aprendi. Uma das cadeiras onde senti isso foi na cadeira de “ Comunicación Audiovisual”, onde tive a oportunidade de aprender como uma rádio funciona realmente. Fomos responsáveis por escrever um guião e tínhamos que colocá-lo na prática. Nessa mesma cadeira juntamo-nos no final do ano com a turma de multimédia e fizemos um programa de televisão. Foi um projecto incrível que não só deixou memórias para a vida como aprendi competências que sinto que não teria aprendido na Universidade dos Açores. Infelizmente, considero que o programa de estudos é muito teórico e acaba não nos oferecendo muitas oportunidades de executar aquilo que aprendemos.

Tiveste algum choque cultural? A adaptação foi difícil?
Sim, principalmente pela minha experiência na Universidade de Vigo. Os galegos têm uma tendência a ser mais frios e directos. Eu sou uma pessoa um pouco mais sentimental, então houve momentos em que senti que não se enquadra no espaço e que não conseguia criar conexão com ninguém. Com o tempo percebi que só precisava de ter paciência e dar tempo ao tempo, mas de início foi um choque.

Repetiste a experiência e estiveste dois anos em ERASMUS. Porquê realizar este programa uma segunda vez?
Na minha primeira experiência conheci pessoas que me fizeram chamar a Espanha de casa. E digo Espanha e não apenas a cidade de Pontevedra porque tive a oportunidade de conhecer várias cidades e criar memórias em cada uma delas. Também ganhei muito carinho pelo idioma, pois percebi que ele era muito mais interessante do que eu imaginava. Isso foi o que me fez voltar a candidatar-me, mas desta vez para uma cidade bem maior pois queria desafiar-me. E realmente foi um grande desafio, pois era uma universidade mais exigente. Mas não me arrependo em nenhum momento de o ter feito. E posso garantir que se na vida voltar a surgir a oportunidade de fazê-lo o farei sempre pensar duas vezes.

Sentiste saudades dos Açores? Do quê especificamente?
Sim, havia algo que eu tinha muitas saudades dos Açores: ver o mar todos os dias. Eu não acreditava quando as pessoas falavam que o que tinham mais saudades quando estava fora era de ver o mar. Mas sim, foi o que eu senti.
É uma sensação inexplicável, porque é algo que vemos todos os dias mas não prestamos muita atenção e só sentimos falta quando vamos embora.

Achas que mudaste enquanto pessoa depois desta experiência?
Sim completamente. Comecei a ver a vida com outros olhos. Conviver com pessoas de vários países e culturas faz-te crescer, faz-te perceber que sim o contexto onde vives influência muito a forma como olhas o mundo. E quando quebras essa barreira e entras em contacto com outras realidades e outras vivências começas a ver as coisas de forma diferente.
Por exemplo, coisas que para ti não representam grande importância podem ser o sonho de outra pessoa. Também considero que deixei de ser uma pessoa que se importa muito com as opiniões dos outros. Quando estás longe de casa, em um país onde tens que criar tudo do zero, começas a perceber o quanto o que os outros pensam sobre ti não importa. Em uma ilha as opiniões sempre parecem pesar mais porque em contexto pequeno é mais comum que as pessoas se preocupem. Mas em contexto maior ninguém realmente se importa muito com o que o outro está a fazer, o que dá uma sensação muito boa de liberdade.

Qual foi o maior desafio que enfrentaste?
Na primeira experiência, foi principalmente o idioma. Eu ainda estava a aprender e as aulas eram em galego o que dificultava um pouco principalmente no início.
Já na segunda experiência foi mesmo a exigência da universidade. Eu estava a fazer 6 cadeiras ou seja mais uma do que é o comum para o semestre e ainda o curso de espanhol que fazia parte do programa deles. Ou seja, eu chegava cansada a casa e ainda tentava participar nos eventos de Erasmus para poder aproveitar o projecto na íntegra. Foi bem desafiante mas no final valeu a pena.

Recomendarias a outros estudantes açorianos fazer ERASMUS? Porquê?
Com certeza. Principalmente os estudantes que tenham curiosidade em saber que pessoas seriam em uma realidade totalmente diferente. O projecto ERASMUS, permite-te não só conhecer pessoas novas e quebrar as tais barreiras que falei anteriormente, mas também permite-te conhecer mais acerca de ti próprio.

Qual foi a maior aprendizagem que trouxeste contigo?
Acho que a maior aprendizagem foi que há experiências que merecem ser vividas. É muito diferente viver uma experiência e passar por uma. Viver é sentir cada momento, lembrar de cada detalhe, é sobre conhecer, explorar e pensar no hoje. Antes de fazer ERASMUS pela primeira vez, eu sentia que não valorizava tanto as experiências que valorizo hoje. Porque quando fazes um projecto destes sabes que haveria o dia que vais embora e que só tens uma oportunidade de viver aquele momento porque mesmo que voltes mais tarde não será a mesma coisa.

Por Vasco Blayer
*[email protected]

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