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Biotech Synergy transforma o conhecimento científico em “serviços que possam responder a necessidades da Região”

A Biotech Synergy é a primeira spin-off da Universidade dos Açores e quer transformar décadas de investigação científica em soluções concretas para a Região. O Diário dos Açores falou com Artur Machado, responsável pela empresa que pretende ajudar ainda mais os produtores e agricultores dos Açores.

O que é a Biotech Synergy e como nasceu?
A Biotech Synergy é a primeira spin-off da Universidade dos Açores. A razão pela qual surgiu é, na realidade, muito simples: somos membros do Centro de Biotecnologia dos Açores, que, durante mais de 20 anos, produziu conhecimento científico, muito do qual com uma forte vertente aplicada.
A ideia foi precisamente criar uma empresa que pudesse servir de ponte entre esse conhecimento e a sociedade, transformando resultados de investigação em produtos e serviços que possam responder a necessidades concretas da Região. Daí que, neste momento, estejamos a produzir alguns produtos que os Açores são obrigados a importar por não terem capacidade para os produzir localmente.
Actualmente, estamos muito direccionados para a biotecnologia agrícola. Os produtos que temos disponíveis a curto prazo estão essencialmente relacionados com a agricultura.
Na área da sanidade vegetal, realizamos uma ampla gama de testes para a detecção de viroses em plantas. Há várias culturas importantes para a agricultura açoriana, como a videira, o ananás e a bananeira, que podem ser afectadas por viroses difíceis de combater. Nós conseguimos diagnosticar essas infecções, identificando os vírus presentes, e, simultaneamente, disponibilizar programas de saneamento que permitem, a partir de plantas infectadas, produzir plantas isentas dessas viroses.
Isto é particularmente importante para a fruticultura e, em especial, para a viticultura. Um exemplo concreto é a produção e fornecimento de diferentes variedades de bananeiras, que actualmente a Região importa por não ter capacidade suficiente para as produzir. Já estamos a disponibilizar este material vegetal aos agricultores e às associações de produtores, juntamente com os testes de diagnóstico das diferentes patologias.
Temos também protocolos para a produção de plantas endémicas, permitindo a sua propagação em quantidade e facilitando a sua utilização na reflorestação e recuperação de áreas de maior dimensão.
Na área da biotecnologia animal, apoiamos a gestão de várias raças autóctones e disponibilizamos serviços de genotipagem, que permitem avaliar o potencial genético dos animais. Podemos identificar variantes genéticas associadas a determinadas características de interesse, como a qualidade industrial do leite, bem como identificar portadores de patologias de origem genética através de métodos de diagnóstico molecular.
Esta informação permite, por exemplo, que um agricultor conheça precocemente o potencial genético dos seus animais e possa fazer uma selecção mais informada do efectivo.
O que significa, na prática, esta selecção precoce? Imagine-se um agricultor com 20 novilhas de reposição. Com a informação obtida através da genotipagem, pode identificar desde muito cedo quais os animais que apresentam geneticamente as características que mais lhe interessam.
Neste momento, estamos também a desenvolver esforços para adquirir capacidade de realizar estes testes em larga escala.
Foi, portanto, com este objectivo que a empresa nasceu: transferir para a sociedade o conhecimento acumulado ao longo de décadas de investigação e transformá-lo em soluções concretas.

Um dos objectivos da Biotech Synergy é transformar o conhecimento científico produzido na Universidade em soluções para a sociedade e para as empresas. Na prática, tem sido fácil fazer essa passagem do laboratório para o mercado?
Obviamente que, como em tudo, é um processo que exige trabalho, persistência e continuidade. A transferência de conhecimento para o mercado não acontece de um dia para o outro. É necessário tempo para que as pessoas conheçam a empresa, conheçam os produtos e reconheçam o seu valor.
No entanto, de ano para ano, temos conseguido consolidar a nossa actividade e aumentar o número de parcerias com empresas agrícolas e com produtores. Até agora, o resultado tem sido bastante motivador e dá-nos confiança para continuar e reforçar as nossas linhas de actuação.

Que tipo de procura têm encontrado por parte das empresas açorianas? São as empresas que vos procuram com problemas concretos ou são vocês que têm de demonstrar as potencialidades das soluções que desenvolvem?
Temos as duas situações. Há produtores e associações de produtores que já nos procuram directamente para resolver problemas concretos, mas nós também procuramos aumentar o leque de potenciais clientes e dar a conhecer as soluções que temos disponíveis.

Em 2025, por exemplo, assinaram um protocolo para a caracterização molecular da abelha nos Açores. O que representa este projecto para a Biotech Synergy e que importância pode ter para os Açores?
O resultado dessa caracterização molecular é extremamente interessante.
Como sabemos, as abelhas são dos principais polinizadores, tanto para a agricultura como para a manutenção da diversidade do coberto vegetal. Em 2027 vamos comemorar os 600 anos da descoberta dos Açores e sabemos que, logo após o povoamento, foram introduzidas abelhas provenientes da Península Ibérica.
Esses cerca de 600 anos de isolamento contribuíram para a evolução de características próprias das populações de abelhas dos Açores, que actualmente apresentam diferenças relativamente às populações da Península Ibérica.
A apicultura praticava-se em todas as ilhas dos Açores, mas infelizmente, nos finais dos anos 80, com o aparecimento do escaravelho japonês e as medidas de controlo dessa praga, as populações de abelhas sofreram bastante.
Consequentemente, foram implementados programas de introdução de abelhas que acabaram por trazer para a Região subespécies provenientes da Europa Central, como a Apismelliferaligustica e a Apismelliferacarnica e, mais recentemente, a chamada abelha Buckfast.
Estas introduções tiveram consequências importantes, nomeadamente ao nível da diversidade genética das populações autóctones e da introdução de agentes patogénicos e parasitasem algumas ilhas, como a Varroa.
Além disso, estas populações provenientes de regiões da Europa Central estão adaptadas a condições climáticas e ambientais diferentes das que encontramos nos Açores. São abelhas que evoluíram em regiões onde os períodos de Inverno são muito mais rigorosos, com vários meses de temperaturas muito baixas e, em muitos casos, neve.
Essas diferenças reflectem-se também nas suas necessidades produtivas, que podem ser mais exigentes e implicar uma maior necessidade de alimentação suplementar, com consequências para os custos de produção.
Como resultado do nosso trabalho, podemos constatar que na ilha de Santa Maria existem ainda populações que apresentam características de um ecótipo autóctone dos Açores, que, até à data, não exibem evidência de introgressão de outras subespécies. Para além disso, esta população apresenta características genéticas diferenciadas relativamente às populações de Apismelliferaiberiensis que lhe deram origem.
Neste momento, está em curso o processo de reconhecimento oficial deste ecótipo autóctone dos Açores, seguindo o exemplo de outras regiões que adoptaram medidas de protecção das suas populações de abelhas nativas.
Um exemplo são as ilhas Canárias, que, em 2001, devido às mesmas preocupações relacionadas com o isolamento e a preservação das suas populações nativas, adoptaram medidas de protecção, estando actualmente estas abelhas associadas à designação de “Abelhas Negras das Canárias”.
Para além deste exemplo, muitos outros existem: países como Itália, França, Dinamarca e Eslovénia adoptaram medidas de protecção das suas populações de abelhas.

É importante ter o reconhecimento e a confiança do Governo no trabalho desenvolvido pela empresa?
Obviamente que sim. Acho que todos nós pretendemos que o desenvolvimento dos Açores seja o mais harmonioso, eficaz e eficiente possível.

Quais são as maiores dificuldades sentidas pela empresa neste momento?
Como em qualquer actividade, temos naturalmente algumas dificuldades. Às vezes, há processos que avançam a uma velocidade enorme que nem sempre conseguimos perceber e outros que, pelo contrário, demoram muito mais tempo do que seria desejável.
É uma realidade com que temos de lidar e que exige alguma persistência e capacidade de adaptação.

Os Açores são uma região favorável para a área da biotecnologia? É necessário procurar mercado também fora da Região?
Acho que a biotecnologia pode dar um contributo muito importante para o desenvolvimento económico dos Açores.
Somos uma região pequena e a nossa economia apresenta algumas fragilidades. Por isso, em meu entender, deveria existir uma aposta clara nesta área, acompanhada de uma capacidade de investimento adequada para permitir o seu desenvolvimento.
A biotecnologia permite desenvolver produtos de elevado valor acrescentado, utilizando conhecimento e recursos biológicos, e pode contribuir simultaneamente para uma economia mais sustentável e circular.
Naturalmente, numa região com a dimensão dos Açores, também será importante olhar para mercados externos. A nossa dimensão regional não deve limitar a capacidade de desenvolver soluções com potencial para serem utilizadas e comercializadas fora da Região.

Além dos sectores agrícola, agro-pecuário e da indústria de lacticínios, que outras áreas poderão beneficiar da aplicação deste conhecimento científico?
A actividade biotecnológica é absolutamente transversal. A biotecnologia está presente, muitas vezes sem nos apercebermos, em praticamente todas as dimensões da nossa vida.
Quando pensamos na saúde humana, encontramos a biotecnologia no diagnóstico, no desenvolvimento de novos medicamentos e vacinas, nas terapias avançadas e na medicina personalizada.
Na alimentação, está presente na produção e conservação de alimentos, nos processos de fermentação e no desenvolvimento de novos produtos.
Na agricultura, contribui para o melhoramento genético, o diagnóstico e controlo de pragas e doenças e para uma produção mais sustentável.
Também no ambiente a biotecnologia desempenha um papel muito importante, por exemplo através da biorremediação, da valorização de resíduos e do desenvolvimento de processos mais sustentáveis.
Ou seja, a biotecnologia está presente na criação de novos produtos, novos processos e novas soluções para problemas muito diferentes. E esta é precisamente uma das suas grandes características: a capacidade de cruzar diferentes áreas do conhecimento e transformar o conhecimento biológico em soluções concretas para a sociedade.
Por isso, quando falamos de biotecnologia, estamos a falar não apenas de uma área científica, mas de uma área estratégica para responder a alguns dos grandes desafios do futuro, nas áreas da saúde, da alimentação, da agricultura, do ambiente e da sustentabilidade.

E pensa em apostar em algumas dessas áreas?
O nosso objectivo é, de facto, oferecer soluções no âmbito da biotecnologia para diferentes áreas. Não temos de ficar limitados à agricultura ou ao ambiente, mas essa evolução tem de ser feita passo a passo, de forma cuidadosa e atenta.
Para nós, é muito importante consolidar cada vez mais o nosso repertório tecnológico. Por isso, a Biotech Synergy está também intimamente ligada ao Centro de Biotecnologia da Universidade dos Açores, que é sem dúvida um motor indispensável no desenvolvimento da Região.
Aliás, os membros da Biotech Synergy são membros do Centro de Biotecnologia, o que permite dar continuidade precisamente àquilo que esteve na origem da empresa: aplicar e transferir para a sociedade o conhecimento adquirido ao longo de todos estes anos de investigação.

Qual é o próximo grande passo da Biotech Synergy? E onde gostariam de estar daqui a cinco anos?
Temos diferentes hipóteses em cima da mesa e estamos a analisá-las cuidadosamente. Não queremos dar passos em falso e, por isso, ainda é prematuro dizer exactamente qual será o próximo passo.
Com certeza, vamos continuar a desenvolver e consolidar os serviços que disponibilizamos actualmente, mas também iremos entrar noutras áreas.
Uma coisa é certa: procuramos estabelecer parcerias com actores importantes da sociedade açoriana e com empresas de diferentes sectores da economia regional.
O nosso objectivo é continuar a transformar conhecimento científico em soluções concretas, contribuindo, através da biotecnologia, para o desenvolvimento da Região.

Por Vasco Blayer
*[email protected]

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