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Mais passageiros, menos turistas… e a culpa é da Ryanair?

Contrariamente ao que tinha sido temido por muitos, a saída da Ryanair não teve impacto negativo ao nível do número de passageiros no aeroporto de Ponta Delgada. Como já tive ocasião de referir neste jornal no passado, no caso dos Açores e, em particular de São Miguel, as rotas da Ryanair eram dispensáveis e a aposta governativa regional para as manter não era necessária.
Nada como analisar os números que, entretanto, começam a sair: no último mês de 2023, desembarcaram no aeroporto de Ponta Delgada 72’312 passageiros quando, em idêntico mês de 2022, haviam desembarcado 67’401 – um aumento de 7.3%. Curiosamente, a maior variação homóloga em percentagem recai sobre os passageiros oriundos de voos internacionais, com crescimentos a dois dígitos. Nesse mês e nos restantes aeroportos dos Açores apenas a Terceira e o Corvo tiveram baixas. No mês de Janeiro de 2024, esta tendência confirmou-se com um rigor ainda maior: São Miguel continua a registar um aumento significativo de passageiros com +4.6% do que em Janeiro de 2023, graças a um crescimento exponencial dos passageiros internacionais, mas desta vez apenas uma outra ilha regista algum crescimento. Depois de ter crescido+8.6% em Dezembro, Santa Maria volta a aumentar +6.4% em Janeiro, ainda que partindo de um volume relativamente baixo.
Cruzando estes dados com os do turismo, observamos uma contradição: de acordo com o inquérito sobre turismo em época baixa desenvolvido pela Câmara do Comércio e Indústria de Ponta Delgada e realizado em São Miguel e Santa Maria entre 22 e 29 de janeiro de 2024 e que obteve respostas de 91 empresas, em janeiro de 2024, um total de 46,15% das empresas declaram que o volume de negócios foi pior face ao mês homólogo do ano anterior, enquanto em novembro de 2023 o valor foi de 35,16%;assinalaram também o decréscimo de reservas em mais de 60%, no período entre 01 de novembro de 2023 e 15 de janeiro de 2024. Já os primeiros dados do Serviço Regional de Estatística (SREA) apontam para uma descida na ordem dos 5.5% no número de dormidas em alojamentos turísticos em Dezembro de 2023 por relação a 2022. Tendo em conta que São Miguel representa cerca de 72% deste total e tanto essa ilha como a de Santa Maria são justamente as que continuam a verificar taxas de crescimento do número de passageiros, o que se passará? Claramente e em ambos os casos não existe “falta” de passageiros. Existe, sim, falta de passageiros do tipo turistas que ocupem as atividades e os alojamentos do setor. O aumento de passageiros em Santa Maria sugere que seja composto sobretudo por residentes ou pessoas que visitam amigos e familiares na ilha. Já no caso de Ponta Delgada, este aumento estará relacionado com uma percentagem cada vez maior do número de passageiros em ligação – ou seja, mudam de um voo para outro. É a estratégia de “hub” que privilegia a tarifa barata para quem voa entra a Europa e os Estados Unidos “via” Açores e que penaliza quem tem como destino final os Açores. Em 2023, a Azores Airlines atingiu um valor recorde de quase 30% de passageiros nessas condições: 3 em cada 10 atravessam o aeroporto de Ponta Delgada apenas para trocar de avião. Este é um dos modelos de negócio possíveis para gerir uma companhia aérea, mas não é o único… e quanto mais a Azores Airlines apostar neste tipo de passageiros, mais falta os Açores sentirão da Ryanair, não pela companhia em si, mas pelo tipo de passageiros que transporta. É o tipo de passageiro que fica no destino. A atual estratégia da Azores Airlines – nesse aspeto, em tudo semelhante à da TAP em Lisboa – é conhecida e é utilizada por muito poucas companhias aéreas e provoca exatamente o que está a acontecer neste momento: o número de passageiros aéreos aumenta, afunila-se o tráfego por picos de utilização máxima numa infraestrutura desajustada da qual se reclamam obras, provoca-se a desertificação aérea dos restantes aeroportos vizinhos (no caso, das ilhas vizinhas) e “vicia-se” a companhia esta tal numa percentagem cada vez mais elevada de passageiros pouco rentáveis que apenas trocam de avião e que não deixam rasto na economia local. Como se diz em bom Português: “é só vê-los a passar”.

Pedro Castro*

*Consultor em Aviação Comercial e Turismo

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