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Helena Chrystello: uma homenagem em jeito de evocação breve

É sempre motivo de satisfação verificar que pessoas com quem nos cruzámos foram capazes de traçar um percurso de vida susceptível de merecer o reconhecimento público, pelo empenhamento e dedicação a uma causa, a uma profissão, muito para lá dos «serviços mínimos» exigidos a qualquer «funcionário». Assim foi com a professora Helena Chrystello, falecida em Janeiro deste ano.
E, correlativamente, é também gratificante ver que a Escola em que ela cumpriu uma boa parte da sua vida profissional soube manifestar o seu reconhecimento, chamando a atenção da comunidade escolar para o contributo que Helena Chrystello deu para a formação de alunos, para a construção de um espaço de saberes e desenvolvimento humano. Como escreveu, um dia, o poeta açoriano Pedro da Silveira, «quem honra honra-se.»
Devo, por isso, agradecer o convite para participar nesta homenagem que a Escola Básica e Integrada da Maia presta a uma sua antiga professora.
Mas não posso ignorar que estou, mais uma vez, numa Escola que «frequento» há bastante tempo, onde sou sempre muito bem acolhido e aonde venho com imenso prazer (uma vez ou outra com alguma ansiedade, porque se chega sempre com um propósito, um tema pré-definido, mas sem saber como reagirá o público a que nos dirigimos). E também não posso ignorar que esses convites partiram de sugestões da Helena ou a propósito de actividades desenvolvidas por ela, mais tarde também em colaboração com o seu colega Telmo R. Nunes.
Daquilo que me ficou dessas experiências, gostaria de destacar o gosto da Helena em ensinar, em fazer do ensino uma abertura para a palavra, para a cultura, para o mundo. E, sem menosprezar outras ocasiões, queria destacar aqui um encontro que, em 2020, a Helena e o Telmo me prepararam com alunos do 5.º ano, um nível etário e escolar com que eu nunca trabalhara. Foi um encontro surpreendente pelo nível de preparação dos alunos, pelo seu desembaraço e à-vontade, ainda naquela idade em que a literatura passa mais pelo coração do que pelos manuais de teoria da literatura. Nesse Fevereiro, a pandemia já andava por perto e o projecto de escrevermos, eles e eu, sobre esse encontro só viria a concretizar-se mais tarde.
Gostava ainda de referir o papel da Helena na «sua» causa (sua e do marido Chrys Chrystello) dos Colóquios da Lusofonia, lugar de divulgação da literatura, da cultura, espaço de troca de ideias e saberes sobre um património que tem como elo comum a língua portuguesa, nas suas modulações diversas. Quem passou nos Colóquios (e eu não participei neles desde o início) pôde testemunhar a presença activa da Helena em vários domínios e sobre eles deixando a marca da sua afabilidade de trato e a sua disponibilidade permanente.
E é também a propósito de disponibilidade e divulgação que eu chamaria a atenção para o labor da Helena na organização de antologias literárias, colectâneas que tiveram o dom de colocar sob o olhar do leitor interessado, e de alunos também, vários conjuntos de textos autorais, em português ou em edição bilingue, com isto facilitando a ultrapassagem de barreiras linguísticas e geográficas: Antologia Bilingue de Autores Açorianos Contemporâneos (Calendário das Letras, 2011; em parceria dom Rosário Girão, da Universidade do Minho) ou 9 poetas 9 Línguas (Letras Lavadas, 2023, apresentado na Ribeira Grande, no decurso do 38.º Colóquio da Lusofonia) são dois bons exemplos; no último caso, Helena Chrystello reuniu oito tradutores que «transpuseram» nove poetas açorianos para oito línguas estrangeiras: alemão, castelhano, esloveno, francês, inglês, italiano, neerlandês e tétum.
Vendo bem, todo esse trabalho de selecção, organização e edição, realizado na margem da actividade lectiva, mas em íntima ligação com ela na sua dimensão formativa e pedagógica, não pode deixar de ser considerado um verdadeiro «serviço público» prestado ao ensino, à cultura e à literatura dos Açores.

Escola Básica e Integrada da Maia

Urbano Bettencourt

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