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Saúde: dossier que não passou de governante para governante?

A secretária regional da Saúde dos Açores, drª Mónica Seidi, comportou-se muito bem no momento do violento incêndio no Hospital do Divino Espírito Santo (HDES), em Ponta Delgada, tal como nas circunstâncias seguintes, atuando com pronta presença, evidente dignidade e manifesto humanismo. Penso que ninguém, honestamente, pode dizer o contrário. Como açoriano estou-lhe muito grato por isso.
Há poucos dias, a drª Mónica Seidi deu uma entrevista à RTP-Açores, em que disse coisas muito acertadas e outras talvez um pouco discutíveis ou que, pelo menos, merecem mais detalhada e oportuna explicação. Mas, sinceramente, uma das suas afirmações deixou-me de algum modo perplexo, quando, em resposta a uma questão colocada pelo competente jornalista Rúben Medeiros, disse não lhe ter sido passado um alegado dossier ou estudo técnico elaborado ou mandado elaborar pelo anterior secretário regional da Saúde, dr. Clélio Meneses, tendo em vista a construção de um novo hospital público alternativo ao HDES, na ilha de São Miguel. Como não foi passado? Como não recebeu? Não deixa de ser um pouco estranho.
O dr. Clélio Meneses protagonizou uma demissão nunca totalmente explicada, depois de se ter queixado de interferências na sua área de atuação e competência, sem especificar, no entanto, quem seria ou quem seriam os responsáveis por tais interferências. Não especificou, mas também em boa verdade não seria necessário especificar, porque creio que todos perceberam muito bem…Ficou a ideia de que o dr. Clélio Meneses quis fazer mais e melhor, mas que não o deixaram, por razões publicamente desconhecidas.
Se o dr. Clélio Meneses, que desempenhou razoavelmente bem o cargo de secretário regional da Saúde, elaborou ou mandou elaborar um dossier ou estudo técnico visando a construção de um novo hospital público alternativo na ilha de São Miguel – está à vista que é, de facto, uma necessidade urgente -, esse documento tem que aparecer. Foi destruído? Disseram-lhe que não interessava? Por qual razão alegadamente não o transmitiu à sua sucessora na Secretaria Regional da Saúde? Alguém tem que explicar isso.
É verdade que remeteu-se ao silêncio após sair do Governo Regional, com a consciência do dever cumprido, mas o dr. Clélio Meneses deveria explicar publicamente essa questão do referido dossier ou estudo técnico, para que não fiquem dúvidas ou não surjam especulações indevidas. Admito que para algumas pessoas não interessa que ele fale, mas os assuntos públicos devem ser totalmente transparentes, longe de quaisquer equívocos ou “sombras”.
Gostaria de dizer, também, que a drª Mónica Seidi precisa de maior suporte político de todo o Governo Regional para poder resolver o grande problema que se coloca com o HDES. Não estou a falar de apoio financeiro ou apoio técnico, porque esses estão garantidos, de uma forma ou de outra. Falo de apoio político efetivo e constante, porque pareceu-me na referida entrevista ela evidenciar alguma fragilidade institucional, que não significa incompetência, talvez em resultado da gravidade do momento. De qualquer forma, ela não pode ser deixada só ou quase só na praça pública, com uma enorme “batata quente” nas mãos, à mercê de dificuldades, contratempos e contingências. As responsabilidades num caso destes, com tão grande dimensão e tão vasta complexidade, são dela e de todo o restante Governo Regional. Todo o Governo Regional, pois, tem que se empenhar na solução do gravíssimo problema que surgiu, o que não significa interferências abusivas, mas uma efetiva solidariedade política e institucional com a secretária regional que está agora mais exposta e tem uma tarefa ingente para cumprir, que é a recuperação do HDES, quer dos efeitos do fogo, quer da degradação que evidencia por deficiente manutenção, que já vem de anteriores Governos Regionais. As imagens televisivas transmitidas do incêndio mostraram bem, nomeadamente, paredes exteriores com acentuadas rachas e grande falta de pintura.
Disse acima que os assuntos públicos devem ser totalmente transparentes, longe de quaisquer equívocos ou “sombras”. É também por isso, de alguma maneira, que não compreendo que a presidente do conselho de administração e a diretora clínica do HDES se apresentem à comunicação social em encontros ou conferências de imprensa sem que os jornalistas possam fazer qualquer pergunta, solicitar qualquer esclarecimento ou apresentar qualquer questão. Desculpem, mas não faz sentido. É inerente à profissão de jornalista formular perguntas, para obter o máximo de informação, com o objetivo de informar depois o público o melhor possível. Tanto a presidente como a diretora têm estado à altura dos acontecimentos, têm tido um comportamento muito positivo e têm revelado, também, profissionalismo, dignidade e humanismo. O que não está bem é a forma como se relacionam com a comunicação social. Estou certo de que tal vai ser corrigido, em benefício desde logo das próprias. Isto não é uma crítica, é apenas uma observação bem intencionada, que elas aceitarão com toda a normalidade, não tenho dúvidas.

Tomás Quental Mota Vieira

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