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Uma outra visão

Se os visionários de há três décadas pensassem como alguns políticos hoje pensam, nós hoje não tínhamos o Hospital do Divino Espírito Santo (HDES) e continuaríamos no antigo convento junto ao Campo de S. Francisco, dirigido pela Irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Ponta Delgada.
Recordo-me muito bem do período em que o Dr. Estrela Rego assumiu, de corpo inteiro, o projecto do HDES e foi logo acusado, pelas carpideiras do costume, de megalomania.
Foi ele que levou o seu sonho até ao fim, fazendo a transição do hospital da Misericórdia, com um quadro diminuto de especialidades, para um Hospital de nível elevado em diferenciação, como muito bem recorda o voto de pesar, aquando da sua morte, aprovado no parlamento regional.
De facto, ele passou a década de oitenta “com um enorme entusiasmo e empenho, numa luta contínua pelo desenvolvimento do quadro técnico do Hospital de Ponta Delgada, com tudo que esse facto acarreta em aquisição de novas tecnologias e a criação de novos serviços e unidades hospitalares, esgotada que estava a capacidade da estrutura do velho hospital face às exigências advindas dos progressos conseguidos”.
Honrou o seu tempo, “o tempo das grandes mudanças na medicina portuguesa nomeadamente no desenvolvimento das especialidades médico-cirúrgicas, no equipamento dos hospitais, e na criação e organização de cuidados de medicina geral”.
Mas não se livrou dos críticos e descrentes de então, que hoje continuam, não acreditando que era possível construir uma unidade com aquela grandeza e com o prestígio que veio a granjear.
Nos Açores pensamos pequenino e, pior do que isso, nunca pensamos a longo prazo.
Somos mais pelos remendos e descuidamos a manutenção daquilo que temos.
Foi o porto das Flores, é o porto da Praia da Vitória, é o porto de Ponta Delgada, são os vários Centros de Saúde espalhados pelas ilhas e foi, agora, o HDES, tudo estruturas degradadas e a necessitar de investimentos nunca concretizados.
O exemplo mais simbólico da degradação do domínio público foi aquele trágico acidente com o cabeço de amarração que rebentou no porto de S. Roque do Pico e matou um passageiro, em Novembro de 2014.
A explicação surgiu de chofre em duas palavras: “Estava podre”!
É contra esta podridão dos equipamentos e serviços públicos que devemos lembrar, sempre, que é possível fazer melhor e pensar com a mesma visão dos nossos antepassados, que nos deixaram, para além de um grande hospital, portos, aeroportos e até uma companhia aérea, que também corremos o risco de perdê-la.
Quando, agora, se fala na construção de um novo hospital, com outras características, mais moderno e mais funcional, a pensar no futuro e nas próximas gerações, é óbvio que não se está a pensar desistir daquele que ainda existe e ficarmos à espera cinco a sete anos pela construção de um outro.
O início da atividade hospitalar em Ponta Delgada remonta ao fim do século XVI e ninguém, certamente, quer voltar a esses tempos, porque o progresso é uma constante.
O Hospital Internacional dos Açores, hoje Hospital da CUF, na cidade da Lagoa, durou apenas três anos a ser construído, custou 40 milhões de euros, com apoios da Região e do município, e mesmo assim os críticos do costume vieram pôr em causa a sua construção, porque era uma ameaça ao serviço regional de saúde.
Vejam lá a ironia, se não fosse este hospital privado o que seria de muitos doentes e da continuidade do serviço regional de saúde depois do incêndio no HDES…
A mobilidade interna deu um salto de gigante nos últimos anos e isto permite que muita gente, de todas as ilhas, recorra ao HDES, como hospital de referência, nomeadamente para especialidades que não existem em várias ilhas.
Até há famílias que se já se mudaram para S. Miguel para estarem mais próximas dessas especialidades e, no Verão, a população dos Açores aumenta para quase o dobro com o fluxo turístico.
Nenhum turista vai querer visitar os Açores sabendo que não temos um hospital com capacidade de resposta.
Já ouvimos por aí, inclusivé, que a população açoriana está a diminuir, como justificação para a não construção de um novo hospital, esquecendo essas vozes que é exactamente por isso, a população que fica, é a mais idosa, cada vez em maior número nas nossas ilhas e, consequentemente, a necessitar de maiores cuidados de saúde.
É neste cenário que defendemos dois eixos nesta “janela de oportunidade”, como lhe chamou a Senhora Secretária Regional da Saúde.
O primeiro é a retoma imediata dos serviços no actual hospital. É urgente que se estabeleçam todos os esforços para repor o HDES a funcionar o mais depressa possível. É a prioridade das prioridades.
O outro eixo estratégico é pensar no futuro. E o futuro é a construção de um hospital que não é só para S. Miguel e Santa Maria, mas a pensar nos Açores inteiros.
Ampliando-se o actual nos terrenos contíguos ou noutro local, temos que aproveitar a abertura do actual governo da República e os apoios comunitários da União Europeia destinados à ultraperiferia, a pensar nas nossas vidas, no nosso bem estar, dos que cá vivem, dos que nos visitam e a pensar também nas novas gerações.
A saúde das populações não é uma despesa, é um investimento nas pessoas e no bem estar das famílias.
Com bons serviços e equipamentos de saúde pública também combatemos a crise demográfica que estamos a enfrentar.
O actual edifício, tal como está, já não responde às nossas exigências.
O foco, no momento presente, deve estar na retoma rápida do HDES, mas depois é preciso pensar para lá do presente, que não pode ser igual ao de trinta anos.
Pelo meio, não há que ter medo de inovar e aliviar a capacidade de resposta do HDES.
O competente médico Dr. Guilherme Figueiredo já veio a público dar uma série de sugestões, a que se deveriam juntar outros profissionais de saúde que conhecem profundamente o HDES.
É ler a entrevista que o antigo Director do Serviço de Reumatologia do HDES concedeu ao “Correio dos Açores” ou o excelente artigo que escreveu no “Diário dos Açores” desta terça-feira, propondo a criação de Unidades de Hospitalização Domiciliária (UHD), que já existem, com sucesso, no Continente.
Finalmente, no plano político, é preciso que os partidos e os políticos não se deixem tentar pelo oportunismo, explorando o desastre que se abateu no HDES.
Alguns responsáveis do PS estão a ser irresponsáveis ao querer explorar o tema com base em “rumores”, como eles próprios dizem, ou em “versões contraditórias” que não se coadunam com um discurso sério e digno.
O PS parece estar a ser dirigido a partir de um café.
Percebe-se que esteja sem liderança, mas haja um mínimo decoro.
É que Saúde e SATA são justamente dois temas a que o PS deveria fazer um período de luto por largo tempo.

Osvaldo Cabral
[email protected]

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