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Os deveres da oposição

Alexandre Pascoal escreveu no Açoriano Oriental de 2 de Junho o artigo «Vamos trocar umas ideias sobre o assunto…» — tomando de empréstimo o título dum conhecido romance de Mário de Carvalho (1995), o que «fica bem» —, para comentar a situação de editoras e livrarias açorianas a partir da publicação de uma nova colectânea de ficções Avenida Marginal e fazer o elogio do «heroísmo», «enorme coragem» e «arrojo» delas, «espécie rara ou em vias de extinção» (e cito).
Pascoal assina-se na condição elitista de «gestor cultural» (seja lá isso o que for…), mas podia — devia — apresentar-se como o assessor político do Partido Socialista que na verdade também é, ou o deputado regional que já foi, pois isso permitiria ao leitor comum, que o não conhece, avaliar donde precede essa sua intervenção pública. De outra maneira podemos ser levados a concluir que o tão lastimável estado dessas coisas na Região Autónoma, e a falta de uma política cultural de largo alcance, nada devem a duas décadas consecutivas de governos de Carlos César e de Vasco Cordeiro (eles que tudo viram ou tão bem cuidaram desses problemas…), e que foi a partir de Novembro de 2022 que «o monstro» veio à superfície, súbita e desagradavelmente: «Manter uma livraria ou uma editora é hoje um acto de amor (e militância), mas sobretudo de resistência», diz no final — e sublinho aquele tão sinuoso é hoje.
O deputado que em Maio de 2010 defendeu no parlamento regional que «a Cultura deve ser um importante catalisador do desenvolvimento local, com os museus e bibliotecas públicas a assumirem-se como espaços-âncora nesta estratégia», omitia então o papel dos editores e livreiros açorianos nesse processo. Corrigiu recentemente essa perspectiva, fazendo notar, a 21 de Março passado, que «as poucas livrarias que resistem [nos Açores], lutam pela sua sobrevivência. Para alterar este estado de coisas, importa pôr a funcionar um Plano Regional de Leitura que consiga sair do papel para a rua», desta feita esquecendo todo o forte contributo que bibliotecas públicas, bibliotecas escolares e bibliotecas itinerantes — com acesso livre e gratuito — podem ter, em particular junto duma população carenciada e sem recursos para comprar livros de forma regular. Quem instituiu a exclusividade de manuais escolares digitais vir, depois, bradar pela sustentabilidade das livrarias açorianas tem o seu quê de patético ou de desonesto; mas adiante…
Confundido e confundindo — e mais grave ainda, subestimando a criação literária e a sua difusão —, o gestor cultural / assessor partidário chega a perguntar «se vale a pena» apoiar a edição de livros «não havendo cadeia de valor», e depois defende que «devemos pugnar por garantir a presença dos nossos escritores (e editores) no Plano Nacional de Leitura, com acesso a outros recursos e a mais públicos», demonstrando o seu mais absoluto desconhecimento (ou será ainda pior que isso, e estarei a ser benevolente?) acerca do fracasso desse «plano» e os míseros benefícios que traz aos autores (e sei do que falo, pois tenho lá um livro, uma antologia de dispersos de Raul Brandão) e aos leitores. Aliás, também tenho Raul Brandão e os Açores (2018) no Plano Regional de Leitura e não me parece que se tenha tornado mais conhecido e lido por causa disso.
Mais importante ainda: ler livros e ter livros são coisas bastante distintas, a segunda não sendo condição da primeira quando as infra-estruturas de educação e cultura, e as famílias, estimulam o convívio quotidiano com a leitura de formação ou com a leitura de ócio desde tenra idade. Não poucas vezes tem sido lembrada com especial saudade a importância das bibliotecas itinerantes da Fundação Gulbenkian para gerações de jovens leitores em todas as ilhas dos Açores, algo que nenhum cheque-livro oferecido a jovens de 18 anos — medida fácil, demagógica, eleitoralista e anacrónica do ministro Pedro Adão e Silva, que Alexandre Pascoal aconselhou em Lisboa — poderá alguma vez substituir. Despejar dinheiro sobre problemas complexos é fingir que se pretende resolvê-los, dando ao mesmo tempo migalhas a eleitores desprevenidos, senão já viciados em apoios públicos, numa dependência antiga e útil tanto quanto nefasta e cruel. Em contrapartida, o celebrado Arquipélago, na Ribeira Grande, tem desde 2015 uma biblioteca sem livros e sem leitores, mas com muitas estantes de madeira de boa qualidade, como é fácil ver, de tão vazias que estão… e, mesmo assim, diz promover «uma leitura arquipelágica», quiçá a oitavo maravilha do mundo… É caso para perguntar que aplicação terá tido ali, ao tempo dos governos PS, esta sua frase de agora: «A região tem que dar o exemplo, investindo nas suas instituições públicas, ano após ano, para que possam prestar o papel que delas se exige, nomeadamente, pela actualização permanente de conteúdos, em particular das bibliotecas públicas e escolares, no combate incessante aos baixos índices de leitura e literacia» (itálicos meus).
O mesmo papel, a mesma tinta e a mesma página em que Alexandre Pascoal discorre sobre melhoramentos culturais baseado em boas intenções e generalidades de efeito podiam ser usados para sugerir medidas concretas que tivessem em vista os fins a que se propõe. São essas e só essas que fazem mudança. Esse sim, seria um bom ponto de partida para a conversa pública que diz pretender estimular, mas à qual faltam — admite — «elementos concretos sobre o sector do livro, tal como faltam para outras áreas artísticas, dados que ajudariam a sistematizar estratégias e políticas culturais». Sendo tal diagnóstico essencial, dir-se-ia estar-
mos perante o pleno reconhecimento de que o Partido Socialista, os seus gabinetes de estudo (se os tem, como deveria) e os governos de César e Cordeiro geriram os Açores nestas matérias sem a mais pequena ideia do que precisava de ser feito, deixando agravar antigas debilidades regionais. Não admira, por isso, que o seu programa apresentado às eleições de Fevereiro deste ano se resumisse à disponibilidade para «ouvir os agentes culturais», para assim formular — depois!! — as políticas correspondentes.
É francamente muito pouco para um partido histórico que certamente quer voltar ao poder nos Açores e logo na primeira oportunidade que lhe surgir para tal. Convém por isso que se prepare como deve ser, mobilizando desde já o debate público que prometeu criar se vencedor das últimas eleições, e que as melhores ideias daí surgidas possam ser incorporadas — se assim for entendido — pelo Governo de José Manuel Bolieiro, como medidas importantes para a qualificação dos Açores e dos açorianos. Problemas complexos exigem pactos de regime, e o sentido da Política é o bem comum. Vem nos livros, não vem? Vem!

Vasco Rosa

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