A vivência religiosa das comunidades açorianas aquém e além-fronteiras é uma matriz incontornável. Faz parte da nossa identidade cultural e é um legado que dificilmente se destrói mesmo que mudemos as nossas concepções de vida.
Agosto é, frequentemente, considerado o mês das celebrações religiosas dos patronos das localidades de que se destacam as diversas invocações: Nossa Senhora da Piedade, da Ajuda, da Boa-Nova e das Candeias.
Vêm de longe, do povoamento e já “em 1645, a ilha [do Pico] possuía quinze ermidas e muitas dedicadas à Virgem” (ÁVILA, 2016,pg 39), sob a invocação de Imaculada Conceição (Cabo Branco), do Desterro (Cais do Mourato), dos Milagres (Cachorro), do Rosário (Criação Velha), da Conceição (Porto da Candelária), da Boa-Morte (Guindaste), da Conceição (São Mateus), dos Remédios (Lajes, demolida em 1950), do Socorro (Sta Bárbara), da Conceição da Rocha (Calhau da Piedade), das Dores (Areia do Mouro-Cais do Pico), da Piedade (Prainha de Cima), Madre de Deus (S.to António) e da Pureza (Lajido de Sta Luzia). No século XX, foram construídas as ermidas da Senhora da Boa Viagem, lugar da Barca, da Senhora de Fátima, Pontas Negras, da Alegria (Relva) e do Coração de Maria (Terras). 1
Segundo Ermelindo ÁVILA (2016;46) “Maria era invocada para Madrinha de quase todos os filhos do casal. Habitual era igualmente a escolha de um santo da devoção dos pais, para padrinho. Na Matriz da Santíssima Trindade, em 1876, foram baptizadas 103 crianças de ambos os sexos. Dessas, 31 receberam o nome de Maria”. E acrescenta: (…) “Nossa Senhora do Rosário era a invocação preferida. Em 1884, foram registados 107 neófitos. Desses, 55 tiveram a Senhora do Rosário como madrinha”.
Logo que foi incrementado o culto a Nossa Senhora de Lourdes, em 1883, foi desencadeada uma campanha para aquisição de uma imagem da Aparição da Virgem na gruta de Massabielle. A iniciativa teve vinte e seis subscritores e foi atribuída a sua execução “ao artista Nunes, irmão do arcebispo D. Augusto Eduardo Nunes” 2.
Segundo D. João Paulino, “a imagem chegou à vila das Lajes a 4 de Setembro de 1883, onde era esperada com impaciente sofreguidão.”3
A partir daí, João Paulino A. Castro, depois Bispo de Macau e na altura ainda Vice-Reitor do Seminário de Angra, publicou uma série de artigos no jornal angrense “Peregrino de Lourdes”, divulgando os bons resultados espirituais obtidos com a devoção à Senhora de Lurdes.
No mesmo ano e mês, chegou também à paroquial da Feteira – Faial, uma imagem sob a mesma invocação mariana. No ano seguinte o mesmo sucedeu na paroquial de Santo Antão do Topo, São Jorge, onde paroquiava o irmão de D. João Paulino, Pe Francisco Xavier Azevedo e Castro.
Nos anos 60 tive a honra de participar, dois anos seguidos, a pedido do pároco, Pe Leonardo, nas Festas em honra de Nossa Senhora de Lourdes que se realizam em Julho, juntamente com os então Párocos: José Gomes, da Beira, Carlos Dias, dos Biscoitos- Calheta, José Caetano, da Caldeira de Sto Cristo e Fernando Lemos, da Vila do Topo. Nessas ocasiões confirmei a profunda religiosidade que o povo daquela populosa freguesia jorgense devotava à Virgem de Lourdes.
A devoção à Sra de Lourdes estendeu-se mais tarde a outras localidades picoenses. Em 1901 é entronizada uma imagem na paroquial da Criação Velha e no ano seguinte, outra de grandes dimensões é colocada na matriz da Madalena. Mais tarde a devoção estendeu-se às paroquiais da Prainha do Norte e da Piedade, embora, no presente, não haja qualquer ato celebrativo.
Segundo ÁVILA (2016;53) foram criadas duas confrarias uma nas Lajes, outra na Madalena cujos membros – homens e mulheres – se comprometiam não só à propagação do culto mariano, mas também à participação em atos de culto e à contribuição nas despesas das Festas. Em contrapartida eram concedidas indulgências aos associados e aos devotos, mediante certas práticas religiosas.
Apesar de a Confraria ter terminado nas Lajes, habituei-me, na infância e adolescência a ver marítimos e baleeiros lajenses integrados na procissão do domingo de Lourdes, transportando o andor da Virgem pelas ruas da Vila ou, na proa das canoas, recebendo as homenagens dos baleeiros suplicando proteção da sua Padroeira.
Ainda hoje a tradição religiosa repete-se, embora acrescida de novos atos celebrativos e festivos.
Pode, no entanto dizer-se que “A Virgem continua a ser invocada pelo povo crente e especialmente pelos homens do mar, esses quase lendários baleeiros que, em horas de perigo, sempre e com o maior êxito, recorreram à proteção da Senhora de Lourdes.” (ÁVILA,2016,pg.50)
No fundo, a Festa de Nossa Senhora de Lourdes continua a ser a principal matriz da “Semana dos Baleeiros” que se realiza, com este formato, na Vila Baleeira dos Açores, há 39 anos.
1 ÁVILA, Ermelindo, CULTO MARIANO NA ILHA DO PICO, Companhia das Ilhas, 2016
2 ÁVILA, Ermelindo, Figuras e Factos – Notas Históricas, Lajes do Pico, 1993
3 “Peregrino de Lourdes”, de 13-7-1889
José Gabriel Ávila*
*Jornalista c.p.239 A
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