Portugal nunca teve falta de fenómenos. Fenómenos meteorológicos que trocam as voltas ao calendário, fenómenos futebolísticos que transformam rapazes de 18 anos em “novos Eusébios” da noite para o dia e fenómenos televisivos que ainda conseguem convencer-nos de que vale a pena ligar a televisão em horário nobre. Mas, acima de todos estes, existe um que se destaca e ocupa um lugar único na política nacional: o fenómeno Isaltino Morais.
Isaltino Afonso Morais, nascido em Mirandela a 29 de dezembro de 1949, é um daqueles nomes que dispensam apresentações. Jurista de formação, crítico gastronómico por vocação e político por teimosia, Isaltino já foi ministro, já foi condenado, já esteve preso e, contra todas as probabilidades, continua a ser presidente da Câmara Municipal de Oeiras. Mais do que um político, tornou-se uma personagem quase literária: um protagonista que se move entre capítulos de glória e de polémica, como se a vida política fosse um romance cheio de reviravoltas.
Não faltam episódios mediáticos no currículo do autarca. Em 2013 foi detido para cumprir pena de prisão por crimes de fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais. Condenado a sete anos, viu a pena reduzir-se a apenas um ano, sinal de que em Portugal até as condenações são elásticas. Em 2022 voltou a fazer as delícias da comunicação social, acusado de despesas excessivas em eventos oficiais, incluindo aquele célebre almoço em que as garrafas de vinho custaram 60 euros cada. A polémica poderia ter arruinado outro qualquer político, mas Isaltino, mestre em transformar escândalos em dividendos políticos, soube usar até este episódio para valorizar a sua imagem. Não só se defendeu, como aproveitou para reforçar a marca Oeiras e, já agora, a sua própria marca de crítico gastronómico, agora com direito a vídeos virais no TikTok.
Politicamente, o seu percurso também tem sido um caso de estudo. Antigo militante do PSD, abandonou o partido em 2005, zangado com a liderança de Luís Marques Mendes. Concorreu como independente, venceu, recandidatou-se, voltou a vencer e assim foi escrevendo uma narrativa de resistência quase épica. Com a saída de Rui Rio reaproximou-se do PSD e regressou ao partido, agora sob a bênção de Luís Montenegro, para desgosto de alguns históricos sociais-democratas que ainda acreditam que a política tem memória.
Mas o verdadeiro fenómeno não está apenas nas polémicas ou nas idas e vindas partidárias. Está no facto de, aconteça o que acontecer, os cidadãos de Oeiras não quererem outro presidente. Conhecem-lhe o passado, sabem dos processos, lembram-se da prisão. Mas, ao mesmo tempo, sabem que Oeiras nunca esteve tão à frente. Estradas, escolas, habitação, espaços verdes, cultura, ciência e tecnologia: todos os dias há obra, todos os dias há projeto, todos os dias há resultados. É isso que distingue Isaltino. Não é um político que se limita a sobreviver, é um presidente que constrói.
E aqui convém fazer um paralelo. Portugal tem governantes nacionais e ex-governantes envolvidos em escândalos de igual ou maior dimensão, suspeitas de corrupção, negócios obscuros e investigações intermináveis. A diferença é que, desses, os cidadãos não vêem nada em troca, nem progresso, nem obra, nem futuro. Isaltino, pelo contrário, é capaz de enfrentar tudo e todos em nome do seu concelho. Pode ser acusado do que for, mas quem vive em Oeiras olha à volta e vê resultado, vê cidade, vê qualidade de vida. E é isso que, em última instância, pesa no coração e no voto.
E é aí que reside a ironia e a força do fenómeno Isaltino. Transformou episódios negativos em combustível para reforçar a sua ligação ao território e ao povo. Enquanto outros se afundam em escândalos estéreis, ele construiu a imagem de verdadeiro autarca. Em Oeiras, a perceção é clara: independentemente de tudo, Isaltino é o maior defensor do concelho e sem ele a cidade seria menor.
Assim se constrói um caso único em Portugal. Um político que, em vez de ser derrubado pelas suas quedas, usou-as como degraus para subir ainda mais alto. Eis o fenómeno Isaltino, o homem que, entre polémicas e obras, fez de Oeiras uma cidade maior e melhor.
Carlos Pinheiro