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No Limiar da Luz

Quando o silêncio ameaça mais do que a escuridão

A democracia não se quebra com estrondo, mas com silêncios. Não se desfaz no estrépito das batalhas distantes, mas na lenta erosão dos seus próprios alicerces. Como clarão na névoa, pode prometer porto seguro enquanto oculta o rochedo. Quem olha, repentinamente, vê república; quem olha uma segunda vez, com mais cuidado, vislumbra império.
Quem conhece o mar entende esta oscilação. Ao longe, uma luz parece anunciar abrigo; mas basta o vento mudar para que se revele engano. Assim é hoje a paisagem americana. Para uns, o governo cumpre o que prometeu: deportações em massa, orçamentos desviados para a máquina da imigração, centros de detenção erguidos como fortalezas no deserto, tropas a desfilar em cidades onde apenas ecoa protesto civil. Dir-se-ia que o povo recebe o que escolheu. Mas basta a névoa assentar para a cena mudar: agentes mascarados arrancam famílias de tribunais; avós, filhas, pais perdem-se em corredores de celas e transferências; soldados montados atravessam parques como se fossem territórios ocupados. A narrativa da ordem transforma-se em teatro da intimidação.
O analista Radley Balko tem dito: não vemos uma resposta a crises reais, mas a fabricação calculada de crises. Los Angeles não está em chamas, Washington não colapsa. Ainda assim, a Guarda Nacional e os Fuzileiros marcham pelas ruas como se o país estivesse sitiado. É política encenada, governo-espetáculo. A História conhece esta encenação: Napoleão III, no século XIX, consolidou poder em França apresentando a nação como constantemente ameaçada e necessitada de uma mão forte; na América Latina do século XX, quantos governos militares não invocaram a “ordem” para legitimar suspensões de direitos e ocupações das ruas? Hoje, a diferença é a velocidade das imagens: não jornais impressos nem rádios oficiais, mas vídeos virais, agentes mascarados a invadir tribunais, colunas armadas em bairros de imigrantes. A crueldade tornou-se propaganda instantânea.
E o que mais inquieta não é apenas a violência, mas a cultura que dela brota. Governadores anunciam centros de detenção com nomes jocosos, como se fossem parques temáticos. Cartazes de recrutamento piscam o olho a símbolos supremacistas. Nas multidões, deportações são celebradas como vitórias. A História conhece esta metamorfose: a burocracia da exclusão torna-se ritual coletivo. Quando o sofrimento alheio é recebido com aplauso, o coração da democracia já apodreceu.
Entretanto, as instituições que deveriam ser muralhas recuam. As universidades calam-se. As multinacionais abandonam causas migratórias. Os meios de comunicação cedem a pressões. Os gigantes encolhem-se no instante em que mais necessários seriam. Mas a resistência reaparece, inesperada, nos lugares humildes. Um treinador de basebol em Nova Iorque enfrenta agentes que interrogavam crianças. Estudantes em Washington expulsam agentes mascarados das ruas do bairro. Milhões marcham sob faixas que dizem No Kings! — não queremos reis. A lição é antiga: quando as estruturas falham, resta a teimosia do povo, guardando dignidade contra o vento.
O perigo é pensar que esta tempestade ficará confinada aos vulneráveis — aos indocumentados, aos migrantes sem voz. A história ensina-nos o contrário: primeiro os frágeis, depois os críticos, depois todos. O nevoeiro alastra sempre. O que hoje parece exceção amanhã será regra.
Quem nasceu ou é descendente dos Açores conhece bem o que é viver no limiar da luz e da sombra: a emigração que levou gerações a procurar futuro além-mar, o oceano que protege e ao mesmo tempo isola, os impérios que ditaram rotas sem nos perguntarem. Essa experiência moldou também a diáspora que floresceu na América do Norte — feita de coragem, de ausência e de reinvenção, e que infelizmente está a fugir de si própria.
Sabemosque nenhuma luz se conserva por si só: precisa de mãos que a reacendam noite após noite. Assim também a democracia: não se guarda sozinha, exige vigilância constante, tanto nas ilhas como nos vales da Califórnia, tanto nos portos açorianos como nas cidades americanas. Se deixarmos a chama extinguir-se, restará apenas o rochedo invisível onde todos naufragam. Mas se resistirmos, se recusarmos a normalização da crueldade, então a luz, mesmo trémula, poderá ainda incendiar horizontes comuns em ambos os lados do Atlântico.
A democracia não morre de súbito, mas na hesitação — quando confundimos medo com segurança, silêncio com paz, disciplina com justiça. A noite e o farol são a mesma paisagem, mas só um lado sustenta a liberdade. Cabe-nos a escolha: deixar que a névoa se solidifique em sombra, ou reacender, vezes sem conta, a chama que nos guia. Se falharmos, restará apenas o escuro. Mas se resistirmos, se nos lembrarmos que a democracia não é dádiva mas conquista quotidiana, então a luz, mesmo trémula, acenderá de novo o futuro.
O farol é a consciência da terra — se se apaga, apaga-se em nós o que é humano.

Diniz Borges

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