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Entre o Silêncio e a Voz: Meditação sobre um país à beira de si mesmo

“O arco do universo moral é longo, mas inclina-se para a justiça.”
— Martin Luther King Jr.

Há noites em que a América se assemelha a um palco em penumbra, como se a própria história hesitasse antes de entrar em cena. As cortinas tremem ao ritmo de um vento indeciso, os candeeiros oscilam como astros fatigados e, no chão, acumulam-se os fragmentos de discursos, promessas e medos que perderam a força de nos espantar. O público — nós — permanece imóvel, entre a incredulidade e a esperança, num desses instantes em que o silêncio parece ter mais substância do que qualquer palavra.
É o intervalo raro entre o fim de um ato e o começo de outro, o momento suspenso em que a democracia respira pela pele, ainda procurando o timbre certo para continuar. E, todavia, nos bastidores, alguém continua a ajustar as luzes; no fosso da orquestra, alguém afina o piano; no palco, alguém varre a poeira dos dias. São gestos quase invisíveis, mas decisivos — lembram-nos de que há quem ainda não tenha desistido da cena. Como disse John F. Kennedy, “o valor supremo da democracia é a fé inabalável no povo”; é essa fé silenciosa que continua a sustentar os alicerces deste teatro em convulsão.
Na terça-feira, 4 de novembro de 2025, quando o pano voltou a subir, um murmúrio percorreu a sala. Nas vozes da Virgínia e da Geórgia, da Nova Jérsia e da Califórnia, ouviu-se um som que não era aplauso nem júbilo, mas um respirar coletivo: “ainda estamos aqui.” As cidades recusaram a derrota do cansaço; as vilas, tantas vezes relegadas à invisibilidade, ergueram o olhar com a dignidade dos que nunca deixaram de pertencer. E os democratas — esses atores imperfeitos de uma comédia séria — encontraram não a glória, mas a harmonia da resistência partilhada. Há vitórias discretas que, embora não iluminem manchetes, iluminam consciências.
Dizem-nos que o movimento MAGA — essa encenação de fúria, ressentimento e nostalgia deturpada — começa a perder o seu público. O ator principal, outrora iluminado por projetores cegos, repete os mesmos gestos diante de fileiras de cadeiras vazias. A sua voz, que antes rugia como tempestade, ecoa agora com a fragilidade de um teatro abandonado. A América, saturada de monólogos, procura um diálogo novo: menos de ódio, mais de pertença; menos de fantasia paranoica, mais de humanidade. Há uma fadiga espiritual a atravessar o país. Um profundo desejo de abandonar a dramaturgia do medo e regressar a um enredo mais humano. Uma intuição coletiva de que o futuro não pode ser escrito com gritos, mas com gestos.

Nos bastidores, a economia cambaleia como um ator que esqueceu o texto. As tarifas tornaram-se fantasmas que rondam armazéns, o custo de vida ergue-se como um rumor que não se cala, e a classe trabalhadora — a carpintaria essencial deste palco — é chamada a sacrifícios em nome de ilusões douradas. Mas é nela que repousa o verdadeiro roteiro. São os professores que continuam a ensinar num país desconcertado; os jovens que chegam às urnas com uma fé vulnerável, mas sincera; os trabalhadores que sustentam as estruturas invisíveis que impedem o país de colapsar. Há uma dúzia de anos, Barack Obama lembrou: “A mudança não virá se esperarmos por outra pessoa ou por outro tempo. Nós somos aqueles por quem temos esperado.” E E talvez essa frase ressoe agora com uma clareza renovada: ninguém salvará este país por delegação.
O federalismo — tão frequentemente considerado apenas uma cláusula do passado — revelou-se a viga mestra que mantém o cenário de pé. Estados e cidades tornaram-se laboratórios da decência possível, num tempo em que o poder central oscilou perigosamente entre a negligência e a autocracia performativa. Nenhum império de ruído pode sobrepor-se para sempre ao som da consciência. O autocrata ainda declama, mas as palavras já não lhe pertencem. A Constituição — essa partitura antiga, tantas vezes subestimada — permanece nas mãos de cidadãos que recusam ser figurantes. “O público decide quando termina o ato” — esta verdade teatral é também a verdade política que nenhuma tirania consegue apagar.
Cada voto depositado, cada aula dada, cada manifestação pacífica, cada gesto de empatia é uma nova cena. Um país escreve-se não apenas por leis, mas também por práticas. Não apenas por discursos, mas também por decisões íntimas, quase anónimas, que, juntas, formam o tecido do comum. Talvez o renascimento não chegue em fanfarras, mas em vozes baixas que se entrelaçam. Talvez não venha com heróis em luz de ribalta, mas com figuras discretas que persistem. Um professor que não abandona; uma estudante que acredita; um cidadão que escolhe o bem comum em vez do conforto do cinismo. É assim que um país reencontra o seu texto interior — aquele que não está nos manuais, mas na respiração coletiva. Aquele que restitui à palavra “povo” o seu coração, e à palavra “nós” o seu significado original. Porque a esperança, quando verdadeira, não é um aplauso. É um trabalho.
E quando o pano finalmente cair sobre esta longa representação de sombras, que o silêncio não seja vazio, mas prelúdio. Que o público se levante — não para saudar o passado, mas para convocar o futuro. Que as vozes silenciadas encontrem lugar no coro maior da democracia. Que a América, mesmo ferida e vacilante, continue a ser um palco vivo. Há sempre alguém nos bastidores a acender a próxima luz. E é nesse gesto — quase imperceptível, mas decisivo — que a história recomeça.
Diniz Borges

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