Passos e os colunistas
A reação ruidosa à entrevista de Pedro Passos Coelho ao jornal ECO só pode encontrar explicação no valor simbólico que ele ocupa na direita portuguesa. A polémica deriva não das palavras, mas do significado político que muitos comentadores — sobretudo à esquerda — lhes atribuíram.
Não embarco na ideia de que tenha feito uma crítica à estratégia de Luís Montenegro. Passos afirmou que o Governo deveria ter procurado “um quadro mais estável à partida”, defendendo que a AD devia tentar um acordo de legislatura com a direita à sua direita, em vez de governar dossier a dossier. É uma opinião, como tantas outras, que não fere em anda a de Montenegro.
Também não creio que Passos tenha avaliado negativamente as reformas do governo AD, apenas considerou tímidas as medidas em curso e classificou-as de pouco ambiciosas para o crescimento potencial da economia portuguesa.
Nessa mesma via, Passos sinalizou a instabilidade futura, e que, sem reformas estruturais, o Governo não duraria a legislatura — algo que vários comentadores interpretaram como um aviso político.
Então afinal o porquê de tanta histeria?
Passos Coelho é uma referência no seio dos sociais-democratas. A sua voz tem peso, as suas ideias, substância. Mas nem todas podem ser interpretadas com o início de um movimento político. E, como referência que é, é livre para expressar a forma como imagina a reorganização da direita. A intenção não é atacar a liderança do seu partido. O delírio de estar a iniciar um movimento político contra Luís Montenegro, não tem fundamento. E não teria qualquer hipótese de sobrevivência e crescimento no seio do partido e da sociedade.
Como já referi nesta coluna, por diversas vezes, o país precisa de uma governação estável, coesa, focada e inovadora. Os eleitores votaram em Montenegro, rejeitando por diversas vezes um regresso ao passado socialista, mas também as aventuras governativas supérfluas do Chega.
Luís Soares Almeida