Os temas da semana: investir na IA e reforçar a resiliência
Na semana de 3 a 9 de Novembro de 2025, o panorama da saúde destacou-se nos EUA pelo prolongamento do shutdown governamental, que atingiu directamente o sector da saúde, com acesas disputas político-partidárias por causa de subsídios ao Affordable Care Act (ACA, ou Obamacare). O presidente Trump propôs redireccionar estas verbas para contas de poupança saúde individuais, uma ideia que gerou controvérsia por, segundo a oposição, potencialmente elevar custos para milhões de americanos, uma tese prontamente desmentida pelos Republicanos. Paralelamente, têm-se registado aumentos significativos nos prémios de seguros de saúde, que obrigam as famílias a decisões difíceis, no que toca à cobertura médica. O shutdown, que se aproxima do recorde histórico, também teve impacto em programas como o SNAP (apoios alimentares), agravando as vulnerabilidades em saúde pública. Isto revela como as “políticas de facção” podem comprometer algo tão superior quanto o acesso universal à saúde. Exige-se, lá como cá, uma abordagem multipartidária para evitar que crises económicas se tornem crises sanitárias. Pactos entre os maiores partidos são fundamentais, a menos que (na verdade) o interesse seja “o elefante no meio da sala”…
Em Portugal, o investimento de 250 milhões de euros pela Sword Health para criar um hub de inovação em inteligência artificial (IA) dedicado à saúde, anunciado em 3 de Novembro, marcou a semana, sendo um passo promissor na modernização dos cuidados médicos. No entanto, há desafios no Serviço Nacional de Saúde (SNS) que se mantêm, como os desperdícios e as dúvidas sobre os cortes orçamentais, mesmo depois de um crescimento de 3,9% na despesa com saúde no primeiro semestre.
Quase um milhão de utentes aguarda consultas hospitalares, muitos além do tempo máximo recomendado.
Ao mesmo tempo que inovações, como a IA, nos oferecem esperança, é fundamental reforçar o SNS com transparência e recursos, a fim de reduzir desigualdades e restaurar a confiança pública.
Nos Açores, esta semana registaram-se mais eventos sísmicos na ilha Terceira, sem danos, mas que realçam a importância dos sistemas de saúde estarem preparados para emergências naturais. Numa realidade arquipelágica, como a dos Açores, com a sua dispersão por uma enorme extensão do Atlântico norte, criar redundâncias é prioritário, como desastres ainda na memória de todos assim o demonstram. O investimento nacional em IA, na saúde, pode beneficiar a Região, pela via da adaptação das tecnologias às necessidades insulares.
Iniciativas regionais que demonstrem proatividade são vitais, tanto mais exponenciadas quanto mais se consiga coordenação com as políticas nacionais, maximizando o seu impacto, especialmente em áreas isoladas, promovendo coesão e equidade.
Esta semana que passou revelou, assim, alguns padrões, desde crises políticas nos EUA até inovações sustentáveis na Europa, com investimentos tecnológicos em Portugal e desafios locais nos Açores. O progresso reside na prevenção e na equidade, combatendo desigualdades que alimentam os riscos globais. Só construindo sociedades mais saudáveis e resilientes estaremos preparados para o Futuro, que está ao virar da esquina.
A homenagem da semana: saúde mental e resistência microbiana
A Dra. Pamela Y. Collins, médica e professora da Bloomberg School of Public Health na Johns Hopkins University, em Baltimore, é uma figura de destaque na saúde mental global. Em Outubro de 2025 ela foi eleita para a National Academy of Medicine (NAM), pelos seus contributos pioneiros na integração de serviços de saúde mental em programas globais de saúde. Desde a liderança em iniciativas no National Institutes of Health (NIH), na University of Washington e na Johns Hopkins, com ênfase na equidade inclusiva, até à formação no campo da saúde mental global, o seu trabalho tem sido de excelência. O seu papel transformador, reconhecido pelos seus esforços que promovem a equidade em saúde mental, influenciando políticas e práticas que beneficiam populações vulneráveis à escala internacional, merece público destaque.
Já Dame Sally Davies, antiga Chief Medical Officer do Reino Unido e actual enviada especial para a resistência antimicrobiana (AMR), representa um exemplo de excelência na saúde pública europeia. Em Outubro passado ela participou ativamente no World Health Summit, em Berlim, onde contribuiu para debates sobre a resistência antimicrobiana, destacando-se como oradora principal num workshop dedicado ao tema, realizado de 12 a 14 de Outubro. Activista da advocacia global pela redução do uso excessivo de antibióticos e pela promoção de estratégias integradas para combater esta ameaça à saúde pública, merece reconhecimento público por ter impulsionado diálogos internacionais que fomentam colaborações para mitigar a AMR, beneficiando tanto a Europa como o mundo, e servindo de modelo para as políticas de saúde sustentável.
Estas duas profissionais exemplificam o potencial transformador da saúde. O seu trabalho não só merece aplauso como inspira acções colectivas, para um futuro mais equitativo e saudável.
Mário Freitas*
* Médico de Saúde Pública e de Medicina do Trabalho