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Folie à deux

O senhor da gabardine

Quatro da tarde e ainda não almocei.
Os doentes preencheram o dia, registos por fazer e problemas informáticos a consumir-me. Os dias de outono, sombrios e chuvosos, não motivam nem a criatura mais energética. A inércia de me manter pela enfermaria e evitar a hostilidade da chuva e do vento lá fora domina. Tempusfugit. A esta hora sobram as enfermeiras, auxiliares e as conversas dos doentes a encher os corredores. No gabinete do fundo, batem à porta. Antes de conseguir responder,
— Doutor, o senhor é que é o meu psiquiatra? Quando é que eu tenho alta?
— Não, não sou. Vai ter de perguntar ao seu médico amanhã – respondo, sereno, olhos nos olhos.
— Tem cigarros?
Estendo muito ligeiramente as mãos para diante, voltando as palmas para cima enquanto encolho os ombros.
— Não fuma?! Faz bem… Se vir o meu médico diga-lhe que tenho de fazer lá fora e quero ter alta.
A porta bate. Respiro fundo, maldigo os registos por fazer, pego nas chaves e arranco. Lá fora, a chuva e o vento sacodem-me sem dó. Lanço-me numa corrida, cem metros barreiras sem guarda-chuva. Entro finalmente no carro e deixo-me ficar, inerte, a recuperar o fôlego.
Minutos depois, entro no centro comercial para comer qualquer coisa. Este bunker mantém-me longe da tempestade, protegido da dureza da realidade. Subo ao último piso, dos restaurantes. A esta hora sobram lugares. Tantos empregados, tão poucos clientes. Sinto-me um príncipe, com todos à disposição. Peço um prego e uma imperial. O que mais seria digno de um príncipe em jejum?
Vou revisitando o dia na enfermaria. Um doente, maníaco,
— Lá em casa é um corrupio… gente chique e importante a toda a hora.
Vive num bairro social, mas continuava,
— O presidente Marcelo é amigo de casa…privo com a Rainha de Inglaterra, os Reis de Espanha, a Madonna…
Decerto, um oásis no bairro social. Mal sabe que privou também com este príncipe de centro comercial. Não me atrevi a perguntar o que diriam se o soubessem ali contra a sua vontade.
Um senhor senta-se numa mesa perto da minha. Vestia uma gabardine, um ou dois números acima, e trazia um sacode plástico, daqueles grandes dos hipermercados. Um outro pormenor saltou à vista. Mesas e mesas vazias, mas ocupou uma com tabuleiros usados, muito perto da minha.
— E daí? – ignorei.
Regresso aos meus pensamentos e à enfermaria. Outro doente, com uma esquizoafetiva e já estabilizado,
— Não gosto nada de ser internado. Chego com os poderes que me deu Nosso Senhor, saio sem nada, vazio… vocês tiram-me tudo.
Caçaram-no no aeroporto, cheio de confiança e em obediência a ordens superiores. Agora, desempoderado, segues em Nosso Senhor.
— Vazio.
Tem alguma razão no seu queixume, reconheço.
Quase cinco da tarde e ainda não almocei.
O senhor da gabardine olha em redor, certificando-se de que ninguém o está a ver – finjo não olhar –, retira discretamente uns tupperwares do saco e recolhe, à vez, os restos de arroz, batatas fritas, hambúrguer e as bordas trincadas de umas fatias de pizza.
Assim enganará a fome mais tarde. Assim enganou também os seguranças do centro comercial que, iludidos pela gabardine XL, não toparam um sem-abrigo em missão por uma refeição grátis.
Lá fora, o tempo não melhora. Recordo ter ouvido comentar que iria piorar para a noite. O bunker lá me vai abrigando da tempestade, mas não me protege já da dureza da realidade. O apetite foi-se. O senhor da gabardine, terminada a recolha, também.
Cinco da tarde e ainda não almocei.

João Mendes Coelho*
* Médico da Psiquiatria e Adictologia;
Pós-graduado em Suicidologia, em Dependências Químicas e em Psicoterapia Cognitivo-Comportamental; Aluno de Doutoramento na
Escola de Medicina da Universidade do Minho;
Docente convidado da Universidade dos Açores.

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