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Corrupta iustitiae, Parte 6O: Zé do Telhado (séc. XIX) era mais honesto

Basicamente otimista sem o hábito de me queixar, sou extremamente crítico do que está mal, e podia e devia estar melhor, na saúde, educação ou justiça. Tenho uma fobia extrema contra injustiças e iniquidades. Comecemos pela corrupção, hoje endémica, aparentando ter Portugal como um dos sítios privilegiados por tradição e consciente vontade daqueles que o governam. Muitos são os acusados, poucos os condenados por leis feitas à medida e prescrições para todos os gostos.
No campo da violência doméstica, pedofilia, abusos contra cônjuges, crianças e velhos, começa Portugal a sobressair na tabela, em especial quando os juízes denotando um machismo medieval mandam os culpados em paz, para casa, com penas suspensas. Quantas mulheres mais terão de morrer, ser assaltadas e feridas para este tormento parar? Quantas crianças molestadas até que os juízes sejam justos?
Isto é tão diferente da minha Austrália onde os corruptos e infratores (depois de julgados) vão presos. Aqui só os pequenos delinquentes vão presos. Os grandes vêem os processos arquivados, por falta de provas, inadmissibilidade de escutas telefónicas, prescrição dos prazos legais, inaplicação de leis, amnistia de novas leis exoneratórias, e mesmo assim o povo continua a votar neles? Claro, pois prefere os chicos-espertos como o Sócrates (do nariz à Pinóquio) um desenrascado que faz falcatruas e escapa sempre. No fundo, tem inveja de não ser tão “esperto” como ele.
Nunca ninguém é responsabilizado, nem os portugueses ressarcidos dos 1001 roubos e depredações de que somos vítimas no esbanjar deste país, em nome da salvação da banca corrupta e incompetente que nos torna – cada vez mais – em mendicantes sem futuro. Qualquer dia nada em Portugal pertence aos portugueses (a cerveja, chocolates, etc., nada é português, exceto o nome ou marca).
Ao longo dos anos sempre declarei o meu ilimitado amor à história, língua e paisagens deslumbrantes deste país, mas chegou a hora de me divorciar litigiosamente depois do governo creditar biliões em bancos e deixar que os depósitos e poupanças de milhares de pessoas não sejam devolvidos a quem os trabalhou e aforrou, em manigâncias de falências fraudulentas BPP, BPN, BES, Banif. Dizem que o Estado já injetou mais de 20 mil milhões de euros nestas bancarrotas. Surgem, esporadicamente umas imagens na TV, de dezenas de espoliados a protestarem, os governantes aparecem a fazer promessas balofas e ocas para o dia-de-são-nunca-pela-tardinha e esperam que tudo volte ao normal.
E o mais grave é que os anos passam e o silêncio ensurdecedor dos protestos permanece, como se fosse lógico meter continuamente, dinheiro num doloso Novo Banco de negócios escuros e manobras obscuras, com fundos abutres e vendas de propriedades ao desbarato, sem ressarcir os depositantes que confiaram antes de se verem espoliados, expropriados, desapossados, esbulhados, defraudados, extorquidos, pilhados ou roubados, dos seus depósitos e poupanças. Obviamente que um governo, um Estado que permite isto e continua a assobiar para o lado, eleição após eleição, não é um Estado de bem nem de Direito. O famigerado Zé do Telhado do século XIX era mais honesto. Ficava, decerto, mais barato devolver aos lesados o que perderam do que manter o Banco aberto. Não sei se Portugal é o quinto país mais corrupto, ou o primeiro ou o décimo, nem me importa, o Relatório da Transparency International dá ao país 62 pontos, menos dois do que no ano passado. Organização fala em derrapagem e em “falta de coragem política” para combater a corrupção em Portugal.
Disto se aproveitam populistas e demagogos, vogando na crista da onda de revolta da população que neles veem a salvação, tal como prometeram Trump e Bolsonaro aos insatisfeitos pela corrupção nos seus países. Não acredito na justiça, nem nos parlamentares, nem nas negociatas de advogados no governo e na Assembleia, nem no nepotismo de tal forma entranhado na sociedade, que deve ser mais fácil corromper os que ainda não foram corrompidos do que tentar erradicar a corrupção. Que posso fazer? Nada, a não ser perorar nestas colunas e votar com a maioria que aderiu ao maior partido português, o absentismo eleitoral. Já não tenho idade nem forças para tentar mobilizar sejam quem for
Tal como Portugal, também a Islândia teve casos de créditos ao desbarato, e empréstimos sem garantias. Todos estavam ricos e a situação atingiu o ponto de rutura. A diferença é que a Islândia deixou cair os bancos e prendeu os banqueiros. O ex-primeiro-ministro islandês foi julgado por negligência, uma dezena de banqueiros, uns empresários e um punhado de políticos formaram um grupo que levou o país inteiro à ruína: 10 parlamentares islandeses, incluindo os líderes do partido que governou desde 1944, tinham empréstimos pessoais de quase 10 milhões de euros cada. Hoje estão todos na cadeia e a economia do país que entrara em colapso deu um salto saudável de crescimento económico mesmo com a pandemia. E lamento mas apetecia-me ser islandês.

Chrys Chrystello*

*Jornalista, Membro Honorário Vitalício nº 297713

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