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“A introdução precipitada da taxa turística pode ter consequências desastrosas e aqueles que a promoverem devem ser responsabilizados pelas suas acções”

Para João Pinheiro, Presidente da Associação do Alojamento Local dos Açores (ALA), é necessário investir mais na época baixa e assim demonstrar que os Açores podem, e devem, ser um destino único e unificado.

O actual panorama turístico dos Açores encontra-se fragilizado, tendo registado uma quebra de 30% na ocupação no passado mês de Janeiro, comparativamente ao mesmo mês do ano de 2023. A situação revela-se preocupante, uma vez que o mês de Fevereiro pode averbar uma quebra muito mais acentuada do que a esperada.
Para João Pinheiro, Presidente da Associação do Alojamento Local dos Açores (ALA), é necessário proceder a mais investimento para promover a Região, enquanto destino turístico cada vez mais sustentável e igualitário.
O Diário dos Açores esteve à conversa com João Pinheiro para entender que problemas o sector do Alojamento Local (AL) enfrenta actualmente e perceber que medidas devem ser tomadas para reverter os problemas constantes que a Região enfrenta, a nível turístico, no primeiro trimestre do ano.

No que respeita ao Alojamento Local, a expectativa para a época baixa, era para uma queda de 30% na procura da Região enquanto destino turístico. Até ao momento, estes valores correspondem ao esperado ou o índice de quebra para o 1º trimestre de 2024, revelou ser mais acentuado do que o esperado?
Comparativamente a Janeiro de 2023, observamos uma redução perto dos 30% na ocupação, com previsões de uma queda ainda mais acentuada em Fevereiro. Os sinais que alertamos desde Setembro passado, especialmente após a saída da Ryanair, estão-se concretizando. O impacto disso está se estendendo pelo tecido empresarial da Região, com o Alojamento Local ser o primeiro a sentir o golpe. As reservas actuais são um indicador claro dessa tendência negativa.
É crucial ressalvar que a responsabilidade de enfrentar essa crise recai, principalmente, sobre as entidades políticas. A noção de que a Ryanair é uma empresa privada e tem o direito de operar como deseja, está se tornando cada vez mais insustentável. O impacto da redução de voos para os Açores é evidente, e se desejamos promover um ambiente empresarial sustentável, devemos criar condições favoráveis, incluindo mais voos e promoção turística. As consequências de tais acções seriam imediatas.
Na área do turismo, não podemos mais nos contentar com um modelo de negócios que nos coloca num ciclo de seis meses de trabalho, para outros seis meses de pagamentos de contas apenas. Precisamos de espaço para crescer e oferecer melhores condições aos nossos colaboradores, mas isso é impossível com o actual panorama. É hora de agir com determinação e visão de futuro para reverter essa situação desafiadora.
Que obstáculos encara neste momento o sector turístico? Que medidas devem ser tomadas para que sejam trabalhados e ultrapassadas as dificuldades que a época baixa trás à Região?
O AL é um sector que está intrinsecamente ligado à reabilitação dos centros urbanos. Sendo que os Açores são uma zona de bastante humidade, as habitações encaram a dificuldade física da sua manutenção. É uma constante necessidade a conservação de boas condições nos alojamentos locais, para bem receber quem nos visita. Para as concretizarmos, dependemos de mão-de-obra que não se encontra facilmente disponível neste momento, devolvendo o problema aos anfitriões. Além, ainda da insularidade em que é necessário encomendar muitos materiais exteriores ao nosso território e, portanto, esperar, esta dificuldade ainda é agravada pelo aumento do preço da matéria-prima a que se tem vindo a verificar desde 2020, seja pelas causas relacionadas com a covid, ou a inflação brutal a que se tem verificado em toda a área da construção civil, e não só.
Actualmente, o sector turístico enfrenta um grande obstáculo relacionado com os transportes. Tivemos uma experiência positiva com a presença da companhia aérea de baixo custo no primeiro trimestre de 2023, voando diariamente, o que demonstrou a viabilidade de um turismo ao longo de todo o ano. Esse é o modelo pelo qual devemos nos guiar, conforme delineado no Plano Estratégico e de Marketing do Turismo dos Açores (PEMTA).
A sazonalidade só pode ser mitigada com um aumento na disponibilidade de transportes e uma maior promoção turística. Investir em companhias aéreas, como a Ryanair, não apenas proporciona mais lugares disponíveis, mas também oferece uma vantagem em termos de marketing global. Essas são as principais fontes de clientes para o Alojamento Local, pessoas que preferem fazer as suas reservas de forma independente através das plataformas digitais, e é essencial manter esses canais abertos.
Vale a pena ressalvar ainda que, o Alojamento Local já representa 60% das camas disponíveis na Região, o que significa que a estratégia de marketing não se pode limitar à promoção tradicional dos Açores, pois isso afectaria apenas os 40% restantes das camas. Se desejamos impulsionar o crescimento turístico e económico, é crucial não negligenciar o sector do Alojamento Local na nossa estratégia de marketing.

Para o ALA, este não é o momento certo para a introdução da taxa turística nos Açores, dado que a mesma é designando a um turismo de massas. Que consequências a aplicação da mesma poderá ter na Região? Que mudanças são necessárias para que a aplicação da mesma seja uma factor positivo e não negativo?
A introdução da taxa turística nos Açores não é oportuna nem adequada ao modelo actual. A simples menção da taxa turística já gera apreensão. Esse tipo de taxa foi criado em grandes centros urbanos que enfrentavam problemas de superlotação e era uma tentativa de desencorajar o turismo em massa, servindo como filtro.
No entanto, essa situação não se aplica aos Açores, onde ainda estamos lutando para consolidar o turismo, especialmente diante dos desafios de transporte que enfrentamos.
Além disso, a imposição dessa taxa pode deixar os turistas desapontados, pois o investimento em infra-estrutura pública tem sido insuficiente. Não é adequado cobrar uma taxa sem oferecer serviços e infra-estruturas adequadas em troca. Como empresários, estamos acostumados a investir para obter retorno, não a cobrar dos clientes para fazer investimentos.
O modelo de taxa turística que está sendo considerado parece ser uma importação directa de uma prática de Portugal continental, sem levar em consideração as peculiaridades do nosso arquipélago. Por que não considerar taxas de entrada ou taxas em espaços públicos específicos visitados pelos turistas? Seria mais fácil de implementar e de justificar, bem como seria mais equitativo para aqueles que pagam e para aqueles que recebem os benefícios dessas taxas.
Portanto, ainda temos um longo caminho a percorrer antes de considerar a implementação da taxa turística. Aqueles que avançaram com esta medida, neste momento, correm o risco de prejudicar toda a economia em redor do turismo. Os alertas estão sendo emitidos por várias entidades, e é da responsabilidade da classe política ouvir esses avisos e agir de acordo.
A introdução precipitada da taxa turística pode ter consequências desastrosas, e aqueles que a promoverem devem ser responsabilizados pelas suas acções. Podemos cair num erro de criar um abandono do turismo no nosso território, turismo este pelo qual temos lutado há anos para o criar. Temos, é de pensar como é que, este turismo que estamos a criar, pode ser desenvolvido de forma sustentável, leia-se equilibrada, para os que cá vivem todo o ano e aqueles que nos visitem, sem estarmos já a entrar em pânico com aquilo que ele nos pode trazer de negativo.
Antes do turismo trazer coisas negativas, há um outro lado gigantesco de coisas positivas para as quais é preciso olhar, como toda a economia que tem gerado, directa e indirecta, ou seja, ao alojamento e a todas as restantes áreas da economia, a nível de empregabilidade e dinheiro externo que tem sido deixado na Região. Queremos filtrar já esse potencial?

Que medidas/apostas devem ser feitas para que haja uma promoção do arquipélago e consequente distribuição igualitária na procura das 9 ilhas?
Para promover efectivamente o arquipélago dos Açores e garantir uma distribuição equitativa na procura das suas nove ilhas, é crucial adoptar algumas medidas estratégicas.
Em primeiro lugar, é fundamental vender os Açores como um destino único e unificado, em vez de nove destinos separados. Consolidar a marca Açores é essencial para fortalecer a promoção global do arquipélago. Embora para alguns possa ser uma surpresa, os Açores ainda são amplamente desconhecidos a nível mundial. Apesar dos esforços significativos de marketing ao longo dos anos, ainda há muito a fazer, especialmente durante as épocas de menor procura.
Para atrair visitantes durante as épocas baixas, devemos destacar todas as condições favoráveis que as ilhas oferecem. Temos uma variedade de actividades e animações adequadas para todas as condições meteorológicas, além de uma oferta diversificada em todo o território.
É essencial distribuir os fluxos de turistas por todas as ilhas, fortalecendo as conexões entre elas e promovendo viagens inter-ilhas. Com uma estratégia de marketing eficaz para os Açores como um todo, não importa se os visitantes escolhem São Miguel ou a Terceira, inicialmente. O importante é que após esta primeira experiência, desejem explorar as outras ilhas do arquipélago.
Com as nossas nove belas ilhas, oferecemos uma multiplicidade de experiências e atracções que atendem aos desejos de todos os tipos de viajantes. Desde paisagens deslumbrantes até actividades ao ar livre, desde experiências culturais até oportunidades de ecoturismo, as ilhas oferecem algo único e diferente a todos os níveis.

Alcançou-se 1 milhão de dormidas em 2023 mais rapidamente do que comparativamente a 2022. É expectável que este recorde seja superado ainda mais cedo em 2024?
Apesar de prevermos uma redução significativa no número de dormidas neste primeiro trimestre, tenho confiança de que alcançaremos a marca de 1 milhão de dormidas ainda mais cedo este ano.
Observamos um aumento na oferta turística e um excelente ritmo de reservas para os meses de maior movimento. As reservas estão sendo feitas com bastante antecedência e a preços atractivos, o que nos deixa optimistas em relação à possibilidade de superar este recorde anterior.

A procura dos Açores enquanto destino turístico trás inúmeros benefícios ao arquipélago. No entanto, é necessário o sector se sensibilizar e trabalhar para que a região aposte cada vez mais num turismo mais sustentável. Neste momento que apostas têm sido feitas para que o mesmo se concretize?
O desenvolvimento turístico traz inúmeros benefícios ao arquipélago dos Açores, mas é imperativo que o sector se comprometa com a promoção de um turismo mais sustentável.
Actualmente, estamos empenhados em diversas iniciativas para concretizar essa visão. Em primeiro lugar, reconhecemos que o turismo só é verdadeiramente benéfico se contribuir positivamente para a qualidade de vida da população local. Portanto, é essencial que a actividade turística traga benefícios económicos tangíveis para os residentes.
Além disso, estamos comprometidos em proteger o ecossistema único das ilhas, preservando a nossa natureza e biodiversidade. Esta é uma parte essencial de nossa identidade e valor como destino turístico.
A preservação e promoção da nossa cultura também são prioridades. Isso inclui preservar e transmitir os nossos costumes e tradições de geração em geração e dá-los a conhecer.
Para promover directamente a sustentabilidade, estamos implementando iniciativas práticas, como o programa Solenerge, que visa aumentar a nossa sustentabilidade energética.
Além disso, reconhecemos a importância do favorecimento àqueles que praticam a reciclagem, por exemplo, incentivando e recompensando os seus comportamentos sustentáveis.
Estamos comprometidos em criar um ambiente onde o turismo e a sustentabilidade andam de mãos dadas, garantindo que as futuras gerações possam desfrutar das belezas e recursos naturais das ilhas dos Açores.

No passado mês de Janeiro, a ALA organizou o 2º Encontro de Alojamento Local dos Açores na Terceira. As expectativas foram superadas? Já existem planos para o 3º encontro do ALA?
As expectativas para o 2º Encontro de Alojamento Local dos Açores foram completamente superadas. Realizamos cinco painéis de discussão com 20 oradores, abordando uma variedade de temas relevantes para o presente e o futuro do sector. Estas discussões são fundamentais para reunir uma massa crítica na Região, permitindo um desenvolvimento integrado e colaborativo.
A participação de cerca de 150 participantes, incluindo diversos intervenientes políticos, destacou a importância do evento como plataforma para transmitir a nossa mensagem. Essa mensagem enfatiza o papel dominante do Alojamento Local nos Açores, democratizando o fluxo financeiro e gerando valor e empregos na comunidade.
Dada a relevância e o sucesso do evento, planeamos realizar uma 3ª edição em Janeiro de 2025. Pretendemos manter o mesmo formato, com a inclusão de uma mostra de parceiros para auxiliar os nossos proprietários na realização de negócios. Essa iniciativa, semelhante a uma “micro BTL”, proporcionará ainda mais oportunidades de networking e crescimento para os participantes.
Os detalhes específicos sobre a localização e outros aspectos do evento, serão anunciados mais à frente. Estamos ansiosos para dar continuidade a estes, importantes, encontros e fortalecer ainda mais a comunidade do Alojamento Local nos Açores.

Um dos principais objectivos do ALA é a profissionalização do sector. O que é necessário que seja feito, ainda, para alcançar este objectivo?
Para alcançar o objectivo de profissionalização do sector de Alojamento Local, estamos implementando uma série de medidas estratégicas.
Recentemente, fixamos diversas parcerias fundamentais para ajudar os nossos associados a expandir e a aprimorar os seus negócios. Uma destas parcerias é com Elias Pereira, especialista jurídico, visando oferecer suporte aos nossos associados em questões relevantes.
Além disso, estabelecemos parcerias com plataformas digitais, proporcionando aos nossos associados acesso a ferramentas que automatizam a gestão dos seus alojamentos. Descontos em seguros de responsabilidade civil, equipamentos de segurança e serviços de lavandaria, são algumas das outras vantagens disponíveis através das nossas parcerias.
Também estamos focados em promover os nossos associados, destacando os seus negócios nas redes sociais e planeando melhorias no nosso site para fortalecer esta iniciativa.
No entanto, reconhecemos que a profissionalização do sector requer uma base sólida de associados comprometidos. Portanto, fazemos um apelo para que mais proprietários de Alojamento Local se juntem à nossa associação. A união de esforços permitirá que nos elevemos ainda mais no turismo dos Açores e com uma voz mais alta para apelar e alcançar os nossos objectivos comuns.

por Ana Catarina Rosa

*[email protected]

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