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Os senhores Livros

Era uma manhã húmida e fresca, como quase todas as manhãs naquela altura do ano. E todos os deuses que presidiam aos aconteceres do planeta tinham avisado: era chegada a hora de reunião num daqueles sítios recônditos que tinham restado da submersão da Atlântida. Tudo o que persiste dos humanos através dos tempos, tudo aquilo que paira além da mortalidade humana, tinha presença marcada ali na escrita dos Livros.
O primeiro comparecer foi o da Pedra Roseta, escapada do Museu Britânico.

  • Onde já se viu tamanha pressa! E só porque nos Açores se anteveem grandes mudanças com as eleições que se avizinham…
  • Deixa-te de queixinhas, eu que sou o Código de Hamurabi, aqui estou! Os pobres açorianos bem merecem que voltem a vigorar leis sábias e justas que substituam as atuais.
    Mas os antiquíssimos Livros de papiro do Egipto junto com as placas de argila cobertas da escrita cuneiforme dos sumérios, sírios e babilónios, entraram num coro de protesto:
  • Deixa-te de parvoíces, ou não terás aprendido nada com o desenrolar da História? Onde param as civilizações ricas e poderosas que testemunhámos, os factos gloriosos que registámos? Ah, os humanos são peritos no regredir, no destruir aquilo que é belo, bom e justo…
    Oxalá este pessimismo não contagie ninguém, pensamos nós. Para de imediato acrescentarmos: mas das leis “sábias e justas” do Código Hamurabi, livrai-nos , Senhor.
    E, a julgar pela animação que reina entre as sumidades presentes, parece que não há perigo de pessimismos:
  • Já devíamos ter sido chamados para evitar os desvios comportamentais que têm vindo a ocorrer e se têm acumulado.
  • Desvios comportamentais…?
  • A formação do governo regional com a participação do Chega não terá sido um grande desvio comportamental?
  • Isso foi uma mirabulância necessária.
  • Claro, tu o dizes, ou não fosses um Maquiavel a falar…
  • E que tens tu contra o fundador da moderna ciência política? Os governantes às vezes veem-se obrigados a recorrer a habilidades políticas. Sim, os fins tantas vezes a justificar os meios. E olha que isto não se aplica apenas na política, meu caro.
  • Bah…O mal deste século é a cegueira de que todos começamos a padecer, e é o Ensaio sobre a cegueira do Saramago que não resiste a manifestar-se.
  • Sabem o que acho? Na terra do Espírito Santo era expetável que tivesse existido mais iluminação na escolha dessa gentalha para fazer parte do governo.
  • Sim, sim, também acho, intervém de novo o filho do Saramago.
  • E tu cala-te, que já não te posso ouvir. Ora porquê. Como se fosse de esquecer a leviandade desse teu Saramago no campo dos afetos. Com que rapidez substituiu ele a Isabel que dizia tanto amar e a quem dedicava livros!
  • Tinha que ser um filho da Natália Correia a falar assim! Vocês mulheres complicam tudo!
  • Psh…push! Os afetos não são para aqui chamados…push|…
  • Apoiado!
    A hora é de conluios e também de desacertos.
    Há choques e atropelos, livros que inesperadamente escorregam até ao chão, impelidos pela zanga de vizinhos, pois que zanga não é só apanágio de humanos e quando se manifesta causa reboliço.
    É então que uma voz se consegue sobrepor a tudo:
  • Nós, os Livros, somos apenas o que os Autores fazem de nós.
  • Olhe que nem sempre, nem sempre, é o que se ouve em discordância.
    E a curiosidade aquieta os mais revoltos, para ouvir a voz feminina de um volume desconhecido:
  • O que vou contar passou-se comigo. E ajeita-se para melhor ser visto: Como vêem, tenho um título bem açoriano e o conteúdo é também açoriano a cem por cento. Pois em concurso literário a que concorri aqui nos Açores fui sumariamente posto de parte. Razão: por ser desprovido de interesse para a Região. Claro que a minha Autora não se ficou por ali (é mulher de firmadas persistências) e enviou o meu antecessor, o texto, para uma editora de Lisboa, a Presença. E adivinhem: fui aceite! E tudo sem grandes demoras de publicação. E dizem vocês que nós, Livros, somos o que os Autores fazem de nós! Não, meus caros, o nosso destino não está muitas vezes nas mãos dos Autores.
    E todos sentiram o leve suspiro de aquiescência da Grande Alma Açoriana que pairava por sobre a nobre reunião, e assim reconhecia, impotente, a imperfeição que assiste a tudo o que é humano.
    Mas ninguém se apercebeu ainda de que, num ângulo afastado, está um Livro volumoso vestido de um azul marinho condizente com o recinto, a dar mostras de inquietude. E ei-lo que acaba por impor a sua presença:
  • Aqui onde me veem, companheiros, sou um recém-chegado ao mundo dos Livros e gostava de partilhar convosco a receção que tive no mundo dos humanos. Será que estão interessados?
    Como sabem, houve há pouco um evento literário que reuniu aqui nos Açores ( S. Miguel) vários Autores açorianos com os seus respetivos Livros. Competia ao conceituado Miguel Real fazer a apreciação dos mesmos.
    Tudo a correr às mil maravilhas, mas sem nunca haver a mínima referência a mim, nascituro que era a aguardar um sinal da minha presença. Até que mesmo no fim, lá aparece uma alusão à minha existência, uma alusão rápida e sucinta, mencionando-se apenas o meu nome e o da Autora.
    A explicação para tamanha estranheza? Ordens da direção do evento literário: deste Livro e desta Autora, apenas deve ser referido o nome do Livro e o nome da Autora.
    É assim, companheiros, que alguns de nós vamos ficando pelo caminho. Há quem não aceite a competição. Há quem receie a abertura de caminhos novos.
    Silêncio pesado, onde só o barulho do mar à volta é percetível.
  • O que um Livro tem de aturar!, é a a intervenção irónica de um filho do Pedro da Silveira: a
    consolação é saberes que depois de morta a tua Autora irão chover-te em cima os louvores e os elogios que te negaram em vida. Aí já não há receios de competição.
    Passados que foram alguns dias daquela espera, caiu o desalento no meio das sumidades ali reunidas quando a notícia explodiu. Tanta esperança desperdiçada, tanto alvoroço sem sentido!
    De novo o governo sem maioria! Iria ficar tudo na mesma? Iria o governo cair de novo na tentação de aceitar o Chega para obter a ambicionada maioria?
    Face a esta incerteza, há já quem opte por não esperar mais e abale mundo fora, esgotada a paciência para aturar dislates humanos. Que se entendessem os humanos,já que são tão peritos em os criarem.
    Os poucos que ficam sustenta-os uma esperança esburacada que só os próximos dias poderão fortalecer ou impiedosamente destruir.
  • Maria Luísa Soares
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