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Aida Batista, Bicicletas de Toronto

“Quando muito, pode talvez dizer-se que esta última coleção intensifica uma maturidade palpável da sua sabedoria batida pela experiência, e manifesta no natural à vontade de quem se sente em pleno controlo das letras e da vida.”

Durante vários anos Aida Batista lecionou na Universidade de Toronto, após passagens pela Roménia e pela Finlândia e regresso a Angola como leitora do hoje chamado Instituto Camões. Apaixonou-se pela grande urbe canadiana e envolveu-se profundamente na vida da comunidade portuguesa, maioritariamente açoriana, ali residente. Foi assídua colaboradora na imprensa local e reuniu em livros muitas das suas crónicas. Tão apreciadas foram e continuam sendo, que os jornais portugueses da cidade faz em questão de mantê-la como colaboradora regular, repto que Aida Batista aceitou, para contentamento dos seus fiéis leitores e dos próprios jornais. As Bicicletas de Toronto, com uma capa sugestiva e uma atraente apresentação gráfica é a mais recente recolha dessas suas crónicas ou, pelo menos, de uma seleção delas. A sua escrita não constitui novidade para os leitores familiarizados com a autora. Quando muito, pode talvez dizer-se que esta última coleção intensifica uma maturidade palpável da sua sabedoria batida pela experiência, e manifesta no natural à vontade de quem se sente em pleno controlo das letras e da vida.
A estada de Aida Batpista em Toronto permitiu-lhe alargar o seu universo, algo que toda a vida foi fazendo, desde os tempos da sua originária Angola. África, Portugal e a Finlândia constituíram etapas importantes no alargar e aprofundar da sua visão do mundo, mas o trânsito da Europa para a América do Norte, já na fase outonal de uma carreira de Ensino, exigiria supostamente a qualquer um redobrado esforço. Todavia, quem como eu vem seguindo de perto os sucessivos livros da Aida, deve ter-se apercebido de que a sua adaptação ao novo continente aconteceu com uma naturalidade espantosa. Toronto e o cosmos multicultural canadiano entraram-lhe nas veias a ponto de hoje, na aposentação e regressada a Portugal, ela continuar ainda a sentir e a respirar a cidade (reconheçamos que, em termos de habituação aos nevões de Toronto, a Aida já levava um grande treino conseguido nos seus anos finlandeses).
Como açoriano, registo com particular agrado o modo como ela criou laços não apenas com a comunidade açoriana de Toronto mas também com os Açores porque, na verdade, o arquipélago está tão próximo da sua Décima Ilha, a das comunidades da sua diáspora norte-americana (EUA e Canadá) que o conjunto forma quase um universo osmótico. Pelo menos é essa a perceção quando se está do outro lado do Atlântico. Em Bicicletas de Toronto, as referências às ilhas e a autores açorianos como Pedro da Silveira, Sidónio Bettencourt, Ivo Machado, Natália Correia, Victor Rui Dores, e açor-canadianos como Marcolino Candeias, Eduardo Bettencourt Pinto e José Carlos Teixeira, surgem lado a lado com alusões a José Saramago, Manuel Alegre, Fernando Pessoa, Vergílio Ferreira, Herberto Helder, Marcel Proust e Ray Bradbury. Há até páginas especificamente sobre os Açores, uma delas narrando a sua corajosa subida ao Pico, incluindo o Piquinho. A crónica termina precisamente com “a apoteose” do cimo da montanha, onde a autora recorda um locutor que terminava as suas entrevistas com a pergunta: “O que dizemos teus olhos?”. Aida Baptista responde nestes termos:
“Eles dizem que a prova foi penosa, mas que, a partir de agora, poderei proclamar que, apesar da idade, subi a pulso e passo esta estátua erguida de fogo, vergada ao deslumbramento com que me seduziu desde o primeiro encontro”.
Costumo dizer que os portugueses se crêem mais universalistas do que, de modo geral, são realmente. E não me refiro aos emigrantes, pois no caso deles isso é compreensível. Refiro-me a certos portugueses instruídos, supostamente cultos que, por um motivo ou outro têm de conviver com a diáspora. Por vezes comportam-se provincianamente como ilhéus, mesmo sendo naturais do Continente. Quem se dispuser a ler as páginas de Aida Batista – e As Bicicletas de Toronto são exímio exemplo do que afirmo – reconhecerá de imediato estar em presença do espírito de uma portuguesa de Quinhentos. Tenho consciência de que nessa altura às mulheres não era possível expressarem-se assim (além de poucas terem sido as que viajaram nas naus para a Índia). Por isso a minha linguagem é metafórica. Mas quero vincar bem que nas crónicas desta autora se respira uma notável abertura, não apenas ao mundo canadiano mas igualmente às comunidades portuguesa e açoriana, às suas idiosincrasias e à sua vida, captadas por vezes em penetrantes e percetivos golpes de pormenor incidindo sobre uma figura ou uma situação do quotidiano. No seu todo elas retratam, impressionística mas fielmente, um naco da vida de emigrantes apanhados na rede complexa de um universo no qual não haviam sido preparados para viver – uma sociedade culturalmente anglo-americana, num clima duro e hostil capaz de reduzir tudo a um infinito lençol de branco.
As Bicicletas de Toronto fecha com uma crónica intitulada “Ser cronista não foi meu sonho”. Caso para prosseguirmos glosando os versos no sentido contrário do clássico fadista: Mas foi esse o meu fado.
Jovem como ela continua, não se admirem se daqui a um ano a Aida Batista nos contemplar com novo livro de crónicas intitulado As Motocicletas do Nepal ou A Fórmula 1 de Marte.

Onésimo Teotónio Almeida

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