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Flores Turismo 2013 Parte 5 (I)

Nada se encontrou de relevante sobre o Lajedo, muito quente e pequeno, de ruas e vielas bem estreitas, casas inclinadas pela subsucção das placas onde está assente, caminhando lentamente para o fundo. Foi dos sítios onde mais se notava o deslizamento do solo, e os telhados inclinados face ao nível da rua, sinal de que as fundações estavam a abater. Ficamos felizes por poder sair dali por outra via, asfaltada, desistindo de ir à Rocha Alta e à Costa, apesar de termos entrado uns quilómetros por essas estradas adentro, com montes abruptos e sempre muito íngremes, em que tão depressa se está ao nível do mar como se roda a 600 metros de altitude. Após o Pico Negro seguimos pela maior reta da ilha rumo às Lajes, e à sua minúscula praia da Calheta. Esta mania de duplicar os nomes de outras ilhas e até da mesma: Fazenda (de Santa Cruz das Flores) e Fazenda (das Lajes das Flores), Monte de Santa Cruz e Monte das Lajes…duas Lagoas ou Caldeiras Fundas, uma ao lado da Comprida e a outra ao lado da Rasa. Confusos? Também nós. Passou-se pela Fazenda das Lajes sem descer à Ponta do Capitão, na Lomba sem se ir às Portas da Fajã, nem à Furna dos Incharéus, à Furna Jorge ou à Ponta da Caveira e rapidamente estávamos em Santa Cruz, sãos e salvos.
Constatou-se que a GALP há dias que tem as bombas fora de serviço (avariadas? Ou sem combustível?) e tivemos de ir ao outro lado do aeroporto, à Azoria reabastecer (meio depósito para mais de 300 km). Não sei haveria mais postos, mas raros vimos pelos caminhos todos que percorremos. Os bares, snack-bar e restaurantes que vimos nas Lajes não me agradaram, vá-se lá saber por que razão, e levaram-nos a escolher a Casa do Rei, restaurante de uma alemã (suíça, luxemburguesa?) mesmo na entrada da vila das Lajes, com vegetais biológicos ou orgânicos. Apesar de só abrir ao público pelas 18 horas condescendeu em servir-nos. Pouco depois entrava mais um casal (reconhecemos que estavam hospedados no nosso Hotel) e depois ainda mais um outro. A comida esmerada e saborosa foi rapidamente servida logo acabada de confecionar. A casa de teto antigo e parede de tabique estava bem decorada, música dos anos 60 (Simon & Garfunkel, Joan Baez, etc.) num total de seis a oito mesas e capacidade para cerca de 30 pessoas. Apesar do preço 14.00€ PAX valeu a pena. A tarde avança no Hotel e a mãe e filho deliciam-se, tal como ontem, sob o sol na piscina do Hotel. Hoje, as temperaturas rondaram outra vez os 30 ºC nas Lajes, mas aqui rondam agora os 24 ºC.
Mais uma vez constatei ao chegar ao quarto que as mulheres da limpeza não tinham esvaziado nem lavado o cinzeiro cheio de água. Pergunto-me se o sindicato do pessoal técnico de higiene da indústria hospitaleira (ou lá como se chamam) será antitabagista e as proíbe de limpar cinzeiros ou se é mera incúria das senhoras. Pequenos detalhes que nunca me escapam para depois os reportar ao Trip Advisor.
Antes de sairmos das Lajes andamos em busca de Artesanato sem grande sorte pois o único local tinha apenas mantas, e bordados (tipo Doyles) e acabamos ainda por descobrir o Museu Etnográfico numa casa tradicional, mas bem restaurada, cheia de utensílios e mobílias de tempos idos, numa bela coleção etnográfica.
No rés-do-chão havia uma oficina de carpintaria e outros mesteres com equipamentos de várias eras e apetrechos agrícolas de antanho. Mais abaixo, a Câmara Municipal recuperara outra casa onde outrora funcionara uma Manteigaria e Queijaria onde se podia observar como antigamente se fazia manteiga e queijo em moldes quase artesanais, num belo exemplo de preservação da memória e da cultura do povo.
A nossa oficial era micaelense como pudemos logo constatar ao ouvir “papeles” e aquela difícil conjugação verbal que troca am por em (levarem em vez de levaram, comprarem em vez de compraram) … A miúda, aqui deslocada nas Flores há dois anos, era tão solícita e prestável que nem tivemos coragem para a corrigir, orgulhosa que estava da sua herança micaelense.
E assim estão a terminar os cinco dias de descanso anual, e destas curtas férias no Grupo Ocidental, com o pesar habitual de terem sido tão curtas, embora com a satisfação de terem servido de recompensa para um ano difícil de trabalho, com tempo invernal inclemente e a continuação do ataque governamental aos assalariados e pensionistas. O regresso à dura realidade chegará de manhã, mas levamos na retina imagens de uma ilha diferente de todas que já conhecemos. Recordaremos as milhentas subidas íngremes e descidas ainda mais assustadoras, muitas vezes sem “safety rails” ( de proteção), nem renques de hortênsias a separarem-nos dos abismos, a pique sobre fajãs, e outros lugarejos perdidos da ilha pontilhada, aqui e ali, por casas habitadas e gentes ciosas da sua ilha e das suas origens.
Como atrás disse, o único artesanato, e está em vias de extinção, era o de mantas de retalhos e bordados sem grande imaginação e menor variedade, como nos explicou uma setuagenária nas Lajes na única loja de artesanato visível e anunciada. É pena que a arte e a tradição do artesanato se estejam a perder sem haver quem siga as suas pisadas.
Uma ilha cheia de flores e muita água a cair dos seus inúmeros picos. Terra de contrastes, pejada de subidas e descidas com montes e mais montes que pareciam bem altos, vales profundos, fajãs, pequenos bosques, montes sem vegetação, estranhas formações vulcânicas como a majestosa Rocha dos Bordões e outras aparentemente semelhantes mas geologicamente distintas, o impressionante miradouro Craveiro Lopes rodeando cascatas, quebradas e derrocadas, o vale costeiro ou fajã sob o miradouro suspenso da Fajã do Conde, tudo lembrava a resiliência das gentes, a sua fragilidade perante os omnipotentes elementos, mas há uma coisa que parece faltar nesta ilha.

Continua…

Chrys Chrystello*

*Jornalista, Membro Honorário Vitalício nº 297713

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