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Lombroso, Sapolsky, Skinner, Durkheim e Gage entram num bar…

Cesare Lombroso desenvolveu trabalho no séc. XIX que seria amplamente descredibilizado no século XX. Proeminente criminologista, aprofundou a teoria do determinismo biológico e escreveu o livro “O homem delinquente”. O livro desenvolve a teoria de que os criminosos apresentam características inatas, algumas delas denunciadas por particularidades físicas observáveis (fenótipo), que os levam a uma inexorável vida de crime. Partindo de interpretação licenciosa das teorias darwinistas, extrapolou com bastante pseudociência (frenologia) e concluiu que as penas de prisão perpétua e de morte deveriam ser mais aplicadas, estando o ser humano condenado a um atavismo genético sem hipótese de redenção.
Émile Durkheim, por sua vez, falava de uma constrição social que permitia aos humanos elaborar a sua humanidade e a vida em sociedade. Constrição impelidora do exercício da reciprocidade e empatia, abrindo espaço a uma colaboração profícua.
Em posições aparentemente antagónicas, os dois intelectuais foram adaptando os seus constructos de tal forma que as obras de ambos se foram aproximando em subsequentes reedições, integrando contributos das duas visões.
De facto, as duas visões têm um ponto em comum bastante evidente: o indivíduo é um mero veículo das suas teorias. Para Lombroso a pessoa é um veículo de determinismo biológico, para Durkheim o homem é o veículo pelo qual a sociedade se constrói.
Um cientista hodierno, o neuro endocrinologista Robert Sapolsky, sustentando-se em trabalho científico, acaba por concertar estas duas visões, de uma forma mais consistente do ponto de vista científico e também puramente racional. Isto é, havendo especulações na perspetiva de Sapolsky, estas não se baseiam em pseudociência ou fortes convicções. Concerta as visões optando pela valorização do determinismo, ainda que se trate de um determinismo difuso. Para ele, analisando as evidências recolhidas ao longo de extremamente válido trabalho científico, a estrutura biológica é comandada por um cérebro com características neurobiológicas determinadas que são, por sua vez, moldadas por hormonas, infância, vivências, ambiente e circunstâncias em geral. Conclui assim que o indivíduo não consegue expressar verdadeiramente a sua vontade na vida que lhe calhou. Numa das suas entrevistas a que podemos ter acesso na maravilhosa internet, refere o caso de Phineas Gage: um operário americano que, no século XIX, ao sofrer um acidente na construção de um caminho de ferro, teve a parte frontal do crânio trespassada por uma barra de ferro. Sobrevivendo, passou a ter um comportamento completamente diferente ao que tivera durante toda a vida (mais errático e agressivo). Apesar da polémica interpretativa que este caso acarreta (António Damásio também escreveu sobre ele) o facto ajuda a corroborar a ideia de Sapolsky acerca das influências, alheias à volição do indivíduo, no comportamento humano: neste caso, o próprio cérebro e as circunstâncias (o acidente de trabalho que envolve uma complexidade de acontecimentos que o levaram ao momento em que a barra trespassa o crânio).
Buhrrus Skinner, psicólogo com extenso trabalho científico desenvolvido no séc. XX, também nos apresentou esta ideia de que o determinismo não deve ser questionado, mas antes estudado. Com sucesso apresentou sustentadas teorias acerca do condicionamento do comportamento humano por estímulos que a estrutura neurobiológica humana elabora a todo o momento, sem contar com a vontade consciente do invólucro do sistema nervoso central. Além de demonstrar que o conhecimento se faz em caminhos nem sempre cronologicamente lineares, provando a existência de uma dimensão kairológica do Saber, Skinner fundamenta o edifício teórico-prático que a Psicologia continua a construir com o objetivo de proporcionar ao ser humano uma consciência real e saudável da sua existência, possibilitando a moldagem do destino de cada um. Um arbítrio condicionado em que a Psicologia nos ajuda a sermos ativos no nosso próprio condicionamento.
Decidir pensar sobre o arbítrio. Uma boa ideia para este Domingo!
Fique bem, pela sua saúde e a de todos os açorianos.
Um conselho da Delegação Regional dos Açores da Ordem dos Psicólogos Portugueses.

Pedro Pereira*

*Psicólogo

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