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A leitura das cores

Não foi sempre assim. No início sentia-me bem, às vezes havia flores em jarras e janelas abertas quando chegava a casa, música nas manhãs de sábado, passeios de mãos dadas em tardes soalheiras, torcíamos juntos pelo mesmo clube de futebol. Também não esperava que se mantivesse sempre assim, acreditava que, com o tempo, esses momentos se diluiriam na mecânica aprendida dos dias repetidos. Mas se num desses dias inaugurais me dissessem que chegaria a este ponto eu recusar-me-ia a acreditar. Considero-me uma pessoa inteligente, avisada, fui a formações sobre assédio e cheguei a escrever algumas peças sobre violência doméstica, uma delas onde criei uma lista daquelas que seriam as redflags, que traduzi como bandeiras vermelhas, às quais uma pessoa devia estar atenta para não se ver onde me vejo agora.
Chegados aqui, percebo quão fácil é achar que o vermelho é verde se este se vai mostrando timidamente, aos poucos e acompanhado de uma série de dinâmicas e mensagens destinadas a questionar a minha capacidade de distinguir as diferentes cores.
O meu irmão, quando soube, perguntou-me incrédulo porque não tinha pedido ajuda mais cedo. Não fui capaz de lhe responder e não tenho sido capaz de me responder. Provavelmente não recorda as conversas iniciais, onde ambos desvalorizamos vislumbres do tal vermelho, ou porque eram ciúmes normais ou porque teria sido algo pontual, dito no calor do momento. E talvez fosse. Mas ao longo do tempo foi cerceando o ar à minha volta, foram-se restringindo os movimentos, escasseava o mundo para além da relação. O exterior gerava conflito e era mais fácil e mais seguro evitá-lo, isolando-me.
Por algumas vezes, ao sentir-me sufocar, tentava afastar-me, mas sentia sempre a separação como uma desintegração iminente, como se tudo o que sou pudesse dissipar-se em nada.
Depois vieram os gémeos e havia duas pessoas totalmente dependentes de nós.Eu não queria de maneira nenhuma que passassem pelo que eu tinha passado quando os meus pais se divorciaram.
E por isso deixei-me ir, tornei-me um autómato, já nada importava, fazia o que tinha a fazer, cuidava, trabalhava, não importava a minha anulação total. Entristece-me dizer que me teria mantido assim indefinidamente se não tivesse sentido naquele dia que a ameaça se estendia para além de mim.Já não era só a minha integridade que estava em risco. E aí soube que teria de me desenvencilhar, não sabia como nem o que teria de fazer, nem como seria possível fazê-lo e sobreviver a isso, mas tinha de o fazer. Inventei uma ida à escola com os gémeos e pedi ajuda à professora deles. E ela pôs-me em contacto com uma associação, não nos deixou sair dali enquanto não chegassem. A dor tem sido excruciante, mas vou lentamente reaprendendo a ler as cores e a liberdade.

Esta podia ser a história da Maria ou do João. Os números mostram-nos que a primeira hipótese é drasticamente mais provável. Em 2023, foram acolhidas em Portugal 1296 pessoas na Rede Nacional de Apoio a Vítimas de Violência Doméstica. Destas,50,8% eram mulheres, 47,5% eram crianças e 1,7% homens (dados da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género).Sabemos igualmente que a acontecer ao João, é menos provável que ele o reporte.Estas discrepâncias são sustentadas pelo machismo, a ideologia em que este fenómeno radica e que continuamos a não saber desconstruir.

CONTACTOS DE INFORMAÇÃO E APOIO A VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA:
APAV Ponta Delgada 296285399
Linha SOS Mulher da UMAR Açores 296629757
Linha telefónica de Informação às Vítimas de Violência Doméstica 800202148

Mariana Bettencourt*

  • Psiquiatra e Sexóloga clínica
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