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Lembranças das Endoenças

Era o doutor Anthony Fauci, umas doze vezes por dia na televisão com os seus conselhos, que alguns, de certo modo se tornavam ordens; e por outro lado o “Mister President” Donald Trump, dizendo estas palavras:
“We, all, are gonna have a beautifull Easter”.
Todas as manifestações culturais canceladas, igrejas fechadas, e todos nós sabemos, ou pelo menos recordamos, aquele primeiro ano da pandemia, com saídas restritas, e nada de ajuntamentos nas ruas.
Seria, ou rondava, as nove e meia da manhã, naquela Sexta-feira santa, dia 10 de abril de 2020, quando eu transitava na Columbia Street, regressando a casa, vindo do Chave’s Market. Ao passar pela igreja do Senhor Santo Cristo reparei que três romeiros, trajados a rigor, faziam uma oração em frente da sua fachada, ou frontispício, na base da escadaria.
Presenciando aquela cena, vieram à superfície da memória inúmeras recordações da infância. Daquele tempo que, por imposição natural do ambiente familiar, eu era um crente do mais alto grau nos assuntos ligados a Deus e aos Santos.
Aquele dia, só por si não podia esconder o fato de ser sexta-feira da Paixão. Estava cinzento, frio e mal-encarado. Embora as ruas estivessem de luto por mais de um mês, a sua tristeza era mais notória naquela dia.
Não fui “escarafunchar” a estória dos três romeiros, porque foi fácil perceber que o número três estava dentro do ajuntamento máximo permitido pela lei. Aquele quarto de dúzia estaria cumprindo as suas promessas, ou mantendo a sua tradição anual, por conta própria.
Seria muito possível que mais dois ou três grupos idênticos àquele estariam percorrendo os templos de Fall River, ou de outras cidades, naquele mesmo dia, não deixando, assim, espaços em branco nos currículos das romarias.
Recordamos o leitor que a romaria de Fall River saiu à rua pela primeira vez na sexta-feira santa de 1984. A partir daí tem sido realizada todos os anos, com a exceção dos primeiros dois da pandemia. É um ato de fé muito concorrido, e o número de fieis que nele participa várias vezes ultrapassou os trezentos irmãos.
A saudade leva-nos em viagem de tempo às décadas de sessenta e setenta do século passado, e com sabor nostálgico deliciamo-nos com as lembranças das endoenças que se realizavam na igreja de Nossa Senhora da Estrela, da minha amada Ribeira Grande.
Naquele tempo, o templo que pela pena de Gaspar Frutuoso foi dito que, ao ser construído era “um grande pombal para tão poucas pombas”, transbordava de fiéis duas vezes por ano: uma era pelo Te-Deum do fim de ano (31 de dezembro); e a outra, pelas celebrações da quinta-feira santa.
Antes daquele dia, desde a Procissão dos Passos, que se realiza no terceiro domingo da quaresma, a capela-mor assentava um Calvário, muito bem decorado, feito com montes de papelão, imitando pedras gigantes, aonde, bem ao centro, estavam as três grandes cruzes.
Na quinta-feira das endoenças o calvário dava lugar ao cenáculo, onde se realizava a cerimónia simbólica do lava-pés, e a instituição da Eucaristia, relembrando a Última Ceia do Senhor.
A esta comemoração toda a paróquia se juntava em peso, e a igreja transbordava, como já se disse. As alas para a comunhão eram longas e vagarosas, mesmo com a divisão do Corpo de Cristo por vários sacerdotes, que por sua vez ocupavam os pontos estratégicos da igreja, para evitar engarrafamentos.
Só um padre podia tocar com as mãos na hóstia consagrada; e era o sacerdote que colocava o Corpo de Cristo na boca daqueles que participavam na comunhão. A hóstia era posta em cima da língua, que o fiel ligeiramente expunha, e era ela que se encarregava de transportar Nosso Senhor ao interior do corpo, como se fosse diretamente parar à Alma. Por vezes, a hóstia colava-se ao céu da boca, e só de lá podia sair quando estivesse desfeita, ou fragmentada. Ai daquele que nela tocasse com os dentes. Seria sacrilégio. Nos nossos dias só se vê gente mastigando a hóstia, quando vai comungar, e fazem-no a torto e a direito, o que nos leva a pensar que, talvez estejam roendo os ossos de Cristo.
Diáconos não havia. Havia, sim, padres, sacristães, acólitos e ratos de sacristia. Mas só os padres podiam tocar com as mãos nas hóstias consagradas. Por isso muita gente beijava as mãos aos padres, e eles faziam tudo de mão beijada.
Havia um grande respeito por todas estas coisas, mas também muita ignorância que o facilitava, mesmo com os ensinamentos dos párocos e curas, que ao fim e ao cabo nunca passavam de repetições. Uma espécie de “vira o disco e toca o mesmo”.
Por exemplo: poucos sabiam a diferença entre o Santíssimo Sacramento e o Santo Lenho, que os sacerdotes transportam debaixo do pálio, nas procissões.
Para reforçar o que já foi dito, quer seja uma questão de estupidez, de ligeira ignorância, ou de pobreza de espírito, ainda nos nossos dias há gente que falando com Jesus, ou com o Pai, e até mesmo com o Santo Espírito, acaba a oração, dizendo: ”Meu Deus, rogai por nós”.
Com tudo isso, recordo uma outra história, que diziam ser verídica, e que nos foi contada nos anos sessenta, naquele mesmo tempo em que as missas eram celebradas com os sacerdotes de costas voltadas para o povo:
Estando a avó e o neto assistindo às cerimónias de sexta-feira santa, a certa altura o celebrante perfumou a capela com incenso, despertando a curiosidade do neto, que não hesitou em perguntar:
-Vovó, o que é aquilo, que vai e vem / deita fumo, e cheira bem?
A resposta não se fez esperar:
-Ó homem, aquilo é o incensaralho, que incensaralhou Nosso Senhor, faz agora um ano, pela Sua morte. Coitadinho, Deus lhe dê o Céu!…
Esta veio mesmo a calhar, como dica para iniciar o conto de outra história verídica.
Quando entro na igreja, para assistir à santa missa, raras vezes uso o pescoço para olhar para trás. Mas há quem faça isso com a maior naturalidade, e observa coisas que assim só se pode ver.
No ano passado, em domingo de Ramos, à entrada da igreja havia uma pessoa entregando as verduras para serem bentas, ou benzidas, na altura apropriada. Recebi uma, a minha esposa outra; e fomos sentar-nos no banco dianteiro da nave lateral esquerda, da igreja de Santa Teresa. Estando sentado, com o olhar em frente, como costume meu, a minha mulher cochicha-me:
-A tua neta, a Hannah, também quis uma palma. A outra, a Arya, começou a chorar porque também quis uma. A mãe teve de fazer a vontade às duas…
Ouvindo isto, o meu cérebro deu duas voltas e deslocou-me ao distante ano que nem me lembro qual foi, mas sei que teria uns quatro ou cinco anos de idade. Eis um resumo da história:
Era o domingo da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, e fazia-se a partir da igreja da Misericórdia a procissão dos Ramos, à tardinha, para a Matriz, onde se dava início às cerimónias daquele dia, que incluíam a bênção das palmas e as leituras da Paixão.
Minha avó, aquela chata, que fora casada com o polícia, entendeu que me havia de levar consigo para lhe fazer companhia. Uma mulher de respeito não devia, nunca, andar na rua sozinha.
Na igreja da Misericórdia, ou do Espírito Santo, também conhecida como do Senhor dos Passos, O pessoal concentrara-se para se incorporar na procissão. Dentro do templo, no chão, havia um monte de ramos de palmeira. Por termos chegado em cima da hora, os ramos inteiros já escasseavam, e o sacristão dizia àqueles que chegavam que os ramos eram só para os adultos.
As crianças deviam contentar-se com as folhas soltas, mas eu não quis saber de “estórias” porque tinha acabado de ver uma rapariga da minha idade com um lindo ramo na mão.
Minha avó pegou num lindo ramo, e apanhou três ou quatro folhas para colocar-me nas mãos. Eu disse-lhe que não queria aquilo, sugerindo-lhe que levaria o ramo, e que ela transportaria as folhas.
A velha repreendeu-me, e teimou para que eu pegasse nas folhas. Peguei nelas, atirei-as ao chão e pulei em cima delas, aos gritos. Com o vexame que ela passou, apercebeu-se que tinha perdido a batalha. Colocou-me o ramo na mão e lá se contentou com as folhas.
Incorporámo-nos na procissão e andámos para a Matriz, entre cânticos de Glória ao Senhor. Recolhida na igreja a procissão, seguiu-se a longa missa, com as leituras da Paixão e o sermão especial, pelo que nos demorámos a chegar a casa, fazendo-me pensar que aquela cena da Misericórdia estaria esquecida.
Enganei-me! A velha não se esqueceu. Chegando a casa foi pancadaria por todos os lados! Levei um grande “ensaio”. Um ensaio de macaco, como se dizia.
Agora penso: Se este caso se repetisse, sendo eu o avô nesta história, não pensava duas vezes em amanhar-me com três ou quatro folhas, se tivesse que ceder o meu ramo a uma das minhas netas. No caso de ter as duas comigo, existindo um só ramo, dele faria dois. Ou então, nós todos três levaríamos folhas na mão. Um caso simples, humilde e carinhoso, exemplificado com o lava-pés e refletido no mandamento novo:
Amemo-nos uns aos outros, como Ele nos amou.
Feliz Páscoa para todos.
Haja saúde!

Viver a Semana Santa
É viver a Cristandade,
O amor, que até se canta
Fé, esperança e caridade.

As flores do meu jardim
Têm um perfume intenso.
Na igreja, para mim
Valem mais que o incenso.

Alfredo da Ponte

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