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Como eu vi e gostei da ilha de São Jorge (2008-2016) Parte 7

Desastre de 1964

15 de fevereiro de 1964 não foi apenas um dia em que a terra estremeceu com violência na Ilha de São Jorge. Abriu caminho para uma verdadeira revolução dos pacatos habitantes da ilha, dado que muitos acabaram por emigrar para as mais diversas partes do mundo, abrindo um caminho inesperado para África, em particular para Angola. Como sempre, tudo muda quando a Natureza nos sacode, porém este foi um dos mais trágicos acontecimentos que resultaria num outro, não menos grave para esta gente, que foi a independência da ex-colónia portuguesa, que os fez regressar às suas terras na condição de quase apátridas, apelidados de “retornados” e sem meios para recomeçar.
O sofrimento ainda não terá acabado para muitos dos jorgenses que estremeceram por cá e, depois, a milhares de quilómetros da terra que os viu nascer. Muitos, não cumpridas as promessas, regressaram à terra dois anos depois e outros foram-se ficando ou seguiram para os EUA e Canadá. Todos sofreram pelo caminho.
“Esta crise de São Jorge, ocorrida em 1964, ocorreu essencialmente ao longo do mês de fevereiro” recorda o geólogo Victor Hugo Forjaz, que tinha, na altura, 23 anos de idade, e que foi testemunha ocular dos acontecimentos que se seguiram ao terramoto que mudou por completo a vida a milhares de jorgenses.
Entre os primeiros técnicos a chegar a São Jorge, encontrava-se o tenente-coronel José Agostinho, já então, uma autoridade na matéria e o jovem estudante Victor Hugo Forjaz, apenas três dias depois dos eventos, devido ao mau estado do tempo e à falta de um aeroporto na ilha. Recorda que, a partir de dezembro desse ano, a crise pareceu decair, porém, no dia 15 de fevereiro de 1964, às sete horas da manhã, recomeçou e, em 24 horas, registaram-se 179 abalos, macrossismos, alguns de grau VI ou VII, com tudo a acontecer envolto no meio de uma violente tempestade ciclónica com chuva e vento, o que ainda acabou por agravar, em muito, as operações de salvamento das pessoas e entre elas os medos foram ainda maiores, atingindo pontos de sofrimento só entendível para quem os viveu.
No entanto, já antes, haviam sobrevoado a ilha, numa altura em que a rede sísmica existia apenas nas ilhas do Faial (Horta), Terceira (Angra do Heroísmo), e São Miguel (Ponta Delgada). Durante as primeiras duas semanas os habitantes de São Jorge viveram no meio da maior confusão, com cerca de 500 sismos sentidos e como consequências imediatas, destruídas 900 casas de habitação, para além de outras de arrumos. Das casas destruídas, 400 ruíram desde os alicerces, não ficando pedra sobre pedra, tendo sido evacuadas para fora da ilha, cinco mil pessoas. Victor Hugo Forjaz releva o facto desta crise sísmica ter começado, epicentralmente falando, pelas zonas da Urzelina, depois, Manadas e Pico da Esperança, tendo depois mudado para a Vila das Velas nos dias 18, 19 e 20 de fevereiro, “eu já me encontrava em São Jorge, no meio de ventos fortes e do lacrimejar atmosférico, ocorreu uma erupção no mar, a cerca de milha e meia de terra, em frente aos Rosais” – conta à DI-revista, o vulcanólogo. “Com a erupção para Sudoeste, para o lado do Faial, deram em aparecer milhares e milhares de peixes mortos que deram à costa e aquele cheiro persistente típico de uma erupção vulcânica. Já uns dias antes, no início do mês, havia surgido o alerta do corte de um dos cabos submarinos que ligavam as ilhas”.
Na primeira missão, a 16 de fevereiro 1964, Frederico Machado (que chefiava a missão), José Agostinho e Victor Hugo Forjaz, já se encontravam na ilha, tendo-se reunido a Tomás Pacheco da Rosa, faroleiro dos Rosais, que fora observador vulcanológico nos Capelinhos, durante a crise ocorrida no Faial, na década de 1959. Victor Hugo Forjaz disse ao DI que uma das caraterísticas negativas do que aconteceu com o terramoto na ilha de São Jorge também se prendeu com o formato da ilha, estreita e muito escarpada, o que criava um sentimento de aflição, com muitas pessoas a lançar-se para os navios.
A evacuação retirou da ilha cinco mil pessoas, das quais cerca de um milhar ficaram temporariamente na Terceira, o que criou, ao tempo, uma enorme perturbação social gerada pela falta de meios para albergar, de repente, tanta gente, sendo que aqueles que tinham parentes na ilha de Jesus resolveram o problema, mas muitos ficaram albergados em casas de pessoas que nunca tinham visto, com todos os incómodos que isso traz. Entretanto, entraram em ação o então Governador Civil do ex-distrito de Angra do Heroísmo, Teotónio Machado Pires, e o presidente da Câmara Municipal das Velas, Duarte de Sá, que utilizaram as embarcações “Espírito Santo”, “Santo Amaro” e “Terra Alta”, dando início a uma verdadeira epopeia marítima, acartando víveres para a ilha onde a vida ficou praticamente parada.
“Nesse tempo, eram apenas pequenas mercearias, não havendo supermercados nem sequer stocks de bens alimentares ou meios para os confecionar, como a farinha, que teve que partir da ilha Terceira no meio de grande tempestade num dos mais famosos barcos de carga interilhas do Grupo Central, o “Girão”.
Após sobrevoarem São Jorge num Dakota da SATA, a equipa de técnicos teve que viajar numa fragata da Marinha Portuguesa “enfrentando ventos ciclónicos e após diversas tentativas não foi possível desembarcar nas Velas, o mesmo tendo acontecido no porto da Urzelina, acabando por continuar a navegar até à Vila da Calheta, e foi ali que ficou instalado uma espécie de quartel-general.” A entrada na Vila das Velas foi “chocante”, conta Victor Hugo Forjaz.
“Parecia que estávamos a entrar numa daquelas pequenas cidades fantasma do faroeste. Não se vislumbrava vivalma. Apenas casas abatidas e janelas partidas e escancaradas; gatos, cães, vacas e outros animais domésticos por todos os cantos da Vila, presumivelmente assustados e em busca de comida. Enfim, uma verdadeira tragédia”.
Quando a crise acalmou, vieram as tendas da tropa, mas eram precisas muitas para recolher tantas famílias, o que levou a que fosse disponibilizado o navio “Niassa” para se deslocar às Velas transportando os equipamentos necessários para resolver os problemas mais imediatos que eram os de alojamento. Foi precisamente nesse navio, que as pessoas que desejaram abandonar a ilha foram levadas até Angola, com a promessa de receberem terras e gado, mas isso nunca foi cumprido, afirma Victor Hugo Forjaz. Por isso, dois anos após a crise sísmica, muitas dessas famílias estavam de volta à ilha de São Jorge, e apenas as que emigraram para os Estados Unidos da América do Norte e Canadá, acabaram por assentar na diáspora, se bem que alguns, poucos, saíram com destino ao Brasil. Para o geólogo, hoje não teria sido tão complicado como em 1964 porque “há maiores cuidados na construção das habitações”, mas adianta que “existem pessoas que estão a construir com pouca qualidade e, sobretudo, escolhendo localizações em zonas de elevado risco, perto do mar, em encostas que em caso de um sinistro com estas proporções poderão estar condenadas a ficarem destruídas constituindo grande perigo para os moradores, porque os terramotos nunca acabarão nas ilhas, sendo sempre uma questão de tempo e muitas vezes sem aviso prévio”, pelo que todos os cuidados serão sempre poucos.

Chrys Chrystello*

*Jornalista, Membro Honorário Vitalício nº 297713

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